Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo
Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
29/08/2008
ORGANIZAÇÃO DA IGREJA
Uma das mais graves e doloridas enfermidades na Igreja é a insegurança. A dúvida lançada sobre rumos, gera a incerteza e a confusão. Como a unidade é a característica da obra do Senhor e o sinal de sua autenticidade, fácil é avaliar os danos quando há desentendimentos no Corpo Místico.
Uma das raízes desse mal está em uma falsa visão da própria estrutura eclesial, composta, simultaneamente, de membros visíveis e uma realidade invisível. Coexistem os elementos humanos e divinos, temporais e eternos na mesma organização. Além disso, seus componentes sociais se inserem no mundo sem, entretanto, identificarem-se com ele. Tendo Cristo como fundador, guiada pelo Espírito Santo, apresenta-se a todos os olhos através da pobre roupagem das limitações e deficiências de seus integrantes.
Na longa história que começa no alto da Cruz e na Ressurreição gloriosa, sempre houve quem contestasse o valor e a importância dos aspectos perceptíveis pelos sentidos. Buscam – muitas vezes, com sinceridade – purificá-la da contaminação do ambiente secular para torná-la pura e imaculada. Com freqüência, porém, sobrevêm tristes e amargos frutos. É doloroso pensar que, intentando eles alijar da instituição do Salvador os traços do pecado, querendo-a asséptica, a maculam. Transformam em veneno o remédio que desejam.
Hoje em dia, a chamada “contaminação”, no conceito desses autores, ocorre nas seguintes áreas: o poder político, a riqueza, o envolvimento com as classes dominantes, a traição ao Evangelho puro. Essas tendências na atualidade são apenas a repetição do que sempre sucedeu no passado, sob outros disfarces. Confundem viver em clima anti-evangélico e entrar em contato com pessoas que servem a uma ordem pública eivada de enfermidades, com a adesão a essas mesmas formas de iniqüidade. No afã de afastar a Igreja do mal, chegam a opções que trazem em seu bojo conseqüências de natureza política e ideológica em nítida oposição à organização hierárquica e sua atuação na sociedade.
Mercê de Deus, a mentalidade hodierna é marcada por acendrado amor à justiça e percebe-se uma louvável sensibilidade na defesa dos direitos humanos. Entretanto, tal clima pode favorecer essa tendência errônea e dificultar a distinção, na parte visível da estrutura eclesial, do que há de bom, nobre e elevado no inevitável relacionamento, sempre guardando independência, com a realidade em que está inserida.
Aos olhos de todos a Igreja se revela através de seus templos e outros edifícios. Há uma vida econômica que a faz funcionar, dentro do condicionamento das entidades terrenas, e que está submetida às leis civis que a regem. Presente na Humanidade por meio de quase 500.000 sacerdotes, por quase o dobro de religiosas, por milhões de agentes de pastoral, catequistas. Segundo o Anuário preparado pelo Departamento Central de Estatística da Santa Sé o número global de batizados passou de 1,04 bilhão no ano 2000 a 1,13 bilhão em 2006, 17,3% da população mundial.
Tão ampla e complexa instituição que, sendo divina, se insere assim profundamente na dimensão terrena, é marcada pela simpatia e pela aversão. Um símbolo de ódio milenar – começou atacando o Fundador – é o museu anti-religioso de Leningrado, repositório de todas as manifestações negativas dessa parte humana.
Diante deste quadro, há os que se afastam, acusando-a de hipócrita, gananciosa ou alienadora. Outros sonham com uma destruição desse lado negativo, conservando somente o Corpo Místico, crendo que possa sobreviver apenas o elemento divino, assim como alma sem corpo. Atingir tal desvinculação seria belo, não fosse utópico e inviável.
Ensina o Concílio Ecumênico Vaticano II (“Lumen Gentium”, nº 8): “Cristo instituiu e incessantemente sustenta aqui na terra sua Santa Igreja como organismo visível. Mas a assembléia visível e a comunidade espiritual (...) não devem ser consideradas duas coisas, mas formam uma só realidade complexa, em que se funde o elemento humano e divino”.
Pensemos em Cristo, que, sendo uma só Pessoa, era Deus, mas como criatura viam-no e julgavam-no por suas ações. Foi motivo de escândalo: “Feliz de quem não se escandalizar de mim” (Lc 7,23).
Os sacramentos são a expressão de uma realidade transcendental, através de elementos visíveis – por exemplo, a água no Batismo, as espécies do pão e vinho na Eucaristia – onde coexistem o palpável e a Graça divina.
Todas essas considerações nos levam a valorizar devidamente a estrutura eclesial como o meio criado pelo Salvador para o exercício de uma missão salvífica. Assim, entra nos planos do Senhor o visível. O transcendente é qualitativamente mais valioso, sem, contudo, destruir o outro aspecto. E isso, mesmo sabendo de todas as limitações e deficiências que acompanham o homem.
Contestar ou demolir um dos seus elementos é imaginar uma Igreja utópica.
Sem dúvida, até ao final dos tempos, os discípulos lutarão contra a infiltração do mal nas pessoas que compõem este Corpo que tem Cristo por Cabeça. É a eterna batalha da Virtude contra o Pecado. Esforcemo-nos por corrigir os desvios sem jamais enfraquecer o que é sinal e instrumento da Salvação.
A adesão plena e generosa da Igreja tal qual está constituída, com sua organização hierárquica, o direito que a rege, é fator indispensável para superar incertezas, fazer desaparecer a confusão, integrando-se na unidade preconizada pelo Fundador. E entre vitórias e derrotas parciais, continuemos no caminho certo, guiados pelo Espírito Santo, e sob a proteção de Maria Santíssima, Mãe da Igreja.
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