VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
29 de Julho de 2008
A CARIDADE NA ARQUIDIOCESE DO RIO DE JANEIRO
Permitam-me abordar, esta semana, um tema complexo, que é fundamento da nossa ação evangelizadora e pastoral – a Caridade Social. Não há verdadeira e profunda evangelização sem esta iniciativa de promoção humana. O Papa Paulo VI afirma: “Como se poderia, realmente, proclamar o mandamento novo sem promover, na justiça e na paz, o verdadeiro e o autêntico progresso do homem? [...] Se isso porventura acontecesse, seria ignorar a doutrina do Evangelho sobre o amor para com o próximo que sofre ou se encontra em necessidade” (Evangelii Nuntiandi nº31).
Por outro lado, no mesmo texto, ele contrapõe: “Acerca da libertação que a evangelização anuncia e se esforça por atuar, é necessário dizer antes o seguinte: ela não pode ser limitada à simples e restrita dimensão econômica, política, social e cultural; mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, mesmo o absoluto de Deus” (Evangelii Nuntiandi nº33).
Vemos, assim, que o autêntico entendimento sobre a Caridade Social começa a partir da Doutrina Social da Igreja, que busca responder à pergunta de São Paulo a Cristo: “Quem és tu, Senhor?” O próprio Mestre ensina: “Tudo o que fizestes ao menor destes meus irmãos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40). Podemos acrescentar: “Eu sou o menor, eu sou aquele que poucos enxergam à primeira vista, a não ser os que aprofundam a doutrina do Evangelho”.
Quem és tu, Senhor? O perigo é que a essa pergunta se dê uma resposta de âmbito puramente social. O pobre, o abandonado, o desabrigado ou, como se diz muitas vezes hoje, o excluído, não é somente o excluído social. É o excluído de todas as dimensões da vida humana: material, cultural, emocional e espiritual. Excluído, até, do direito à própria dignidade.
Isto acontece em qualquer lugar, dos ambientes mais violentos aos mais tranqüilos, variando apenas a forma como se expressa. Quanto mais a nossa sociedade se gaba da defesa dos direitos humanos, parece que estes sofrem maior negligência, só que encoberta pela retórica sutil e pelo comportamento dúbio dos que não vivem o que pregam. Toda exclusão é pecaminosa e contradiz a genuína doutrina do Evangelho.
Quando se considera o pobre apenas do ponto de vista social, resvala-se para a ideologização. Ideologia é algo que, quase sempre, leva à negação dos melhores valores, dos mais preciosos ensinamentos do Cristo Senhor. A ideologia atéia, sem respaldo moral ou ético, envereda por um caminho tortuoso. Freqüentemente, desvia-se para a esquerda, de cunho partidário, que recebe ora o nome de socialismo, ora de trabalhismo, ou mesmo comunismo, embora este já seja um tanto anacrônico, pelo menos na Europa, em geral.
De tais doutrinas nunca vamos colher bons frutos, pois degeneram na luta de classes, e essa luta nunca vai atingir uma paz, que se possa dizer cristã ou, ao menos, humanamente aceitável. Considerar o homem apenas segundo a sua realidade material e terrena é um reducionismo inaceitável.
Aqui no Rio de Janeiro, ultimamente, a questão da Caridade Social, promovida pela nossa Arquidiocese, tem sido comentada de forma leviana e superficial por alguns órgãos da mídia. Por isso, faço questão de esclarecer alguns pontos.
Primeiramente, destaco o Vicariato Episcopal para a Caridade Social, que instituímos para auxiliar nosso trabalho nesta área. Atualmente, é dirigido pelo Padre Manuel Manangão, que foi Pároco, durante 24 anos, na Rocinha. Portanto, é uma pessoa que conhece, profundamente, a realidade das comunidades carentes, e busca solucionar ou, ao menos, amenizar-lhes os problemas, segundo os critérios do Evangelho. Trabalha como verdadeiro instrumento de paz, como diria São Francisco de Assis.
Desejo citar, também, a Campanha da Fraternidade que, anualmente, realizamos. Todos nós da CNBB buscamos ser ardorosos na aplicação prática dos conteúdos e das soluções propostas pela Campanha. Aqui no Rio de Janeiro, para minha grande alegria, sempre obtivemos plena aceitação e temos dado muitos passos adiante na promoção humana de nosso povo. A freqüência aos encontros prévios, geralmente promovidos em novembro, lota até mesmo os maiores auditórios, pelos diversos lugares onde já os realizamos. No ano passado, a própria Catedral Metropolitana recebeu mais de três mil pessoas. Todos verdadeiros líderes deste empenho quaresmal, que a Igreja, no Brasil, propõe aos seus fiéis e a todos os cidadãos de boa vontade.
Outra obra de inestimável valor é a Casa de Acolhida, no Cosme Velho, que atende aos doentes terminais acometidos pela Aids. Lá trabalham, voluntariamente, os melhores médicos e médicas, inclusive a nossa médica, Dra. Maria Inez Linhares de Carvalho, que dedica sua abnegação, coragem, perícia e amor àquelas pessoas. Conseguimos transformar a Casa, dotando-a de melhores instalações e recursos, graças a uma doação de 80 mil dólares, que foram, integralmente, até o último centavo, aplicados ali.
Quanto à Pastoral do Menor foi divulgado, injustamente, que nós teríamos encerrado este tipo de atendimento. Isto seria um absurdo e uma contradição aos objetivos da nossa Pastoral Social arquidiocesana. Àqueles que fizeram esse tipo de afirmação, cabe retratar-se, a fim de não faltarem com a verdade e agirem com justiça e honestidade.
Na reformulação da Pastoral do Menor, que está em curso, levamos em conta a dificuldade do trabalho a ser feito, buscando novas perspectivas para a sua realização. Uma das opções está no voluntariado, através do qual podemos contar com gente de competência e valor, que coloca suas habilidades, graciosamente, à disposição dos que mais necessitam. Além disso, faz-se necessária a identificação mais criteriosa daqueles menores que, verdadeiramente, carecem do nosso apoio, aos quais estejamos em condições de auxiliar, com recursos materiais e humanos ao nosso alcance. Neste âmbito, contamos com diversas parcerias.
Finalmente, não posso deixar de mencionar a Pastoral Carcerária, responsável por um trabalho árduo, mas necessário. Requer muita abnegação e preparo, além de exigir contactos diversos, como assessoramento jurídico e a boa disposição das direções de penitenciárias, no oferecimento de condições mínimas para se realizar um trabalho sério e duradouro.
Contemplando o rosto desfigurado de Cristo, nos irmãos e irmãs sofredores, empenhemos nossa própria força da fé e da caridade, para resgatá-los dessa situação. Esta é à base da reestruturação que, em curto prazo, vamos efetivar. Para isso, faço um apelo cordial ao voluntariado, aos profissionais das mais diversas áreas e àqueles que se sentem chamados a servir, segundo o exemplo de nosso Senhor, e não com qualquer outra finalidade, por vezes excusa.
Que Deus abençoe a todos que, unidos a Cristo e aos irmãos e irmãs, exercem sua missão com discernimento e visão esclarecida, confiantes nos frutos, amadurecidos a seu tempo pela graça divina, que nunca nos haverá de faltar. Contamos com o apoio e a boa vontade de todos.
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