VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
29 de Abril de 2008
A VITÓRIA PASCAL SOBRE O PECADO
Páscoa é tempo de alegria, que se renova no dinamismo da passagem. Passagem de quê para quê? Passa-se da contemplação da face desfigurada do Cristo sofredor para a visão esplendorosa do seu brilho eterno. Assinala-se, assim, a travessia própria do seguidor de Cristo pelo Mistério da Paixão, desembocando na glória da vida nova.
O pecado nos coloca diante da nossa triste realidade. No espírito pascal, somos chamados a passar do pecado, ou da tendência pecaminosa, para a santidade. Trata-se de uma autêntica vitória, conquistada para nós por Cristo, como diz São Paulo, citando os profetas: “A morte foi tragada pela vitória (Is 25,8). Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão (Os 13,14)? Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças, porém, sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo!” (1Cor 15,55-57).
Ninguém se assuste com a exortação: “A exemplo da santidade daquele que vos chamou, sede também vós santos em todas as vossas ações, pois está escrito: Sede santos porque eu sou santo (Lv 11,44)” (1Pd 1,15-16). A máxima santidade é prerrogativa das Pessoas trinitárias. Nunca iremos atingi-la, a não ser na contemplação definitiva de Deus, iluminada pela graça. Aquilo que nenhum ouvido ouviu, nenhuma boca falou, nem se pode externar de maneira alguma, Deus no-lo revelará um dia, por sua exclusiva magnanimidade, através da luz beatífica.
Pregustamos esta intimidade, especialmente, no Sacramento da Eucaristia. Assim como nossos primeiros pais se esconderam da face de Deus após o pecado, a vitória pascal nos propicia o encontro com o Senhor. Portanto, saiamos dos esconderijos da vergonha, do remorso e da auto-comiseração para nos colocar na presença de Deus. Sabemos que ainda não é o face-a-face definitivo. Mas a Páscoa já é uma espécie de espelho da verdadeira face do Senhor, que um dia veremos.
Passamos, assim, de um estado de culpa para o perdão. O perdão é a mais extraordinária manifestação de Deus em nossa vida. No meu entender, não pode haver maior demonstração de misericórdia. Só Deus pode perdoar. Com isso concordavam até os judeus, quando criticaram o perdão, concedido por Jesus ao paralítico: “Quem é este homem que profere blasfêmias? Quem pode perdoar pecados senão unicamente Deus?” (Lc 5,21). Definitivamente, o perdão é divino.
Portanto, a prática do perdão nos “diviniza”; eleva-nos da mesquinhez humana para a generosidade, da discórdia para a concórdia. Talvez não exista nada mais belo do que a reconciliação. Entre dois que não se amam, nem ao menos se respeitam, pode começar o entendimento, a partir do perdão mútuo, com o auxílio e a força de Deus. Passamos da culpa para o perdão diante de Deus e diante dos homens. Esta passagem se dá, fundamentalmente, pelo arrependimento, porta da conversão, que é sempre graça. O meio ordinário para isso é o Sacramento da Reconciliação, Sacramento da alegria e da paz com Deus e com os irmãos e irmãs.
O pecado nos condenou a um estado de morte. Esta triunfou depois da queda de nossos primeiros pais, mas foi destruída por Cristo, através da sua Ressurreição. São Paulo afirma isto em diversos textos. Dentre eles: “Se pelo pecado de um só homem reinou a morte, muito mais aqueles que receberam a abundância da graça e o dom da justiça reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo!” (Rm 5,17).
O pecado, no pleno sentido de sua gravidade, é conversão às criaturas, afastando-se de Deus. Configura-se como uma realidade diabólica à qual, voluntariamente, aderimos. Esta é a chamada morte moral. A vitória pascal nos conduz à nova vida, cuja espiritualidade se reflete num comportamento coerente com a Verdade do Evangelho, em sua sublime clareza e radicalidade.
A Ressurreição de Cristo é prenúncio e penhor de nossa própria ressurreição. Quando se consumarem os tempos, passaremos da morte física – a nossa própria morte corporal – para a nova realidade da bem-aventurança eterna em corpo e alma. Nunca poderemos merecê-la, pois quem a mereceu para nós foi o próprio Cristo Jesus que, juntamente com o Pai, enviou-nos o Espírito Santo para nos infundir este dom, garantindo-o.
A Páscoa também é passagem da tristeza para a alegria. A tristeza, na Sagrada Escritura, quase sempre é descrita como escuridão e trevas: “Afastastes de mim meus parente e amigos, e as trevas são a minha companhia” (Sl 87[88],19). Estas, porém, não resistem ao confronto com a verdadeira Luz: “Senhor, sois vós que fazeis brilhar o meu farol, sois vós que dissipais as minhas trevas” (Sl 17[18],29).
Cristo nos conduz das trevas da Sexta-Feira Santa para a luminosa alegria do Domingo da Ressurreição. É o que proclamamos na noite da Vigília Pascal, diante do Círio flamejante, símbolo do Ressuscitado: “Eis a luz de Cristo! Demos graças a Deus!” Por isso, o eclodir da alegria é enorme naquela noite maravilhosa, e ao longo de todo este tempo litúrgico. Os louvores de nossos lábios acompanham o deslumbramento de nossos olhos. Daí a exclamação própria da Páscoa, intencionalmente omitida durante a Quaresma e que, agora, explode livremente: Aleluia! – termo hebraico que significa “Louvai a Javé!”
Em nosso tempo, marcado pelo pluralismo de idéias, que engendram em seu seio o relativismo, parecem ter surgido inúmeras “verdades”, de acordo com a conveniência de cada um. Daí resulta, freqüentemente, uma ética falha ou, pior ainda, totalmente ausente. A Luz pascal orienta nossas inteligências, afastando-nos do erro em direção à Verdade. As palavras de Cristo são o nosso marco, o nosso farol, pois nelas brilha a Verdade, que nos interpela para uma adesão convicta e atuante.
Como Assembléia, convocada por Deus, passamos da Sinagoga para a Igreja de Cristo. O pequeno grupo, antes circunscrito à descendência genealógica, deu lugar à humanidade inteira, atingida pelo universalismo da Salvação em Cristo. A Igreja é a Assembléia reunida em torno de Sua Verdade, redimida pela Sua cruz e em comunhão através de Seu Corpo Sacramental, a Eucaristia.
Portanto, libertemo-nos do legalismo, próprio de uma aliança que não mais existe, pois foi substituída pela Nova e Eterna, estabelecida no Sangue de Cristo. Superadas as antigas práticas supérfluas, compreendemos que “a caridade é o pleno cumprimento da lei”, como diz São Paulo (Rm 13,10). Conseqüentemente, a perfeição do nosso agir está em nos deixarmos preencher pelo amor, porque “a fé opera pela caridade” (Gl 5,6). Isto é viver em clima pascal. Aleluia!
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