Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

27/06/2008

 

OS AVÓS

  

   

De 3 a 5 do mês de abril deste ano, realizou-se em Roma a XVIII Assembléia Plenária do Pontifício Conselho para a Família, que teve como tema: “Os avós: o seu testemunho e presença na família”. A 5 de abril o Santo Padre Bento XVI recebeu os participantes dessa reunião.

O Catecismo da Igreja Católica (nº 2199) nos ensina: “o quarto mandamento dirige-se expressamente aos filhos, nas suas relações com seu pai e sua mãe, porque esta relação é a mais universal. Mas diz respeito igualmente às relações de parentesco com os membros do grupo familiar. Exige que se preste honra, afeição e reconhecimento aos avós e antepassados”. São Paulo (2Tim 1,5) recorda a Timóteo: “a tua fé, que se encontrava já na tua avó Loide e na tua mãe Eunice e que, estou seguro, se encontra também em ti”.

No discurso, de 3 de abril, o Papa Bento XVI nos ensina: “Que os avós voltem a ser presença viva na família, na Igreja e na sociedade. No que diz respeito à família, os avós continuem a ser testemunhas de unidade, de valores fundantes sobre a fidelidade a um único amor que gera a fé e a alegria de viver. Os chamados novos modelos de família e o relativismo alastrador enfraqueceram estes valores fundamentais do núcleo familiar. Os males da nossa sociedade, como justamente observastes durante os vossos trabalhos, precisam urgentemente de remédios. Face à crise da família não se poderia talvez recomeçar precisamente da presença e do testemunho daqueles, (os avós) que têm maior consistência de valores e de projetos? De fato, não se pode projetar o futuro sem se basear num passado rico de experiências significativas e de pontos de referência espirituais e morais. Pensando nos avós, no seu testemunho de amor e de fidelidade à vida, vêm em mente as figuras bíblicas de Abraão e Sara, de Isabel e Zacarias, de Joaquim e Ana, assim como os idosos Simeão e Ana, na qual podemos homenagear tantos idosos em nossas paróquias, ou também Nicodemos, entre outros: todos eles nos recordam como em cada idade o Senhor pede a cada um o contributo dos próprios talentos”.

Bento XVI, a 8 de julho de 2006, na Vigília de Oração, em Valencia, Espanha, ensina que os avós por “nenhuma razão, sejam excluídos do círculo familiar. São um tesouro que não podemos arrebatar às novas gerações, sobretudo quando dão testemunho da fé diante da proximidade da morte”.

Com data de 2 de outubro de 1999, o Papa João Paulo II enviou uma longa “Carta aos Anciãos” de todo o mundo, quando o Papa de então, idoso e doente, nela se incluía. A Sagrada Escritura conserva uma visão muito positiva do valor da vida. A idade avançada encontra na palavra de Deus uma grande consideração, a tal ponto que a longevidade é vista como sinal de benevolência divina. O Levítico sintetiza quando diz: “Levanta-te perante uma cabeça branca e honra a pessoa do ancião” (Lv 19,32). Nessa Carta do Papa João Paulo II aos anciãos há um rumo a seguir: “A comunidade cristã pode receber muito da serena presença dos que têm muitos anos de idade. Penso, sobretudo, na evangelização: a sua eficácia não depende principalmente de eficiência operativa. Em muitas famílias os netinhos recebem dos avós os primeiros rudimentos da fé! Porém, existem muitos outros campos a que pode estender-se a benéfica contribuição dos anciãos. O Espírito atua como e onde quer, servindo-se freqüentemente de meios humanos que aos olhos do mundo não têm muita importância. Quantos encontram compreensão e conforto em pessoas anciãs ou doentes, mas capazes de infundir coragem pelo conselho bondoso, a oração silenciosa, o testemunho do sofrimento acolhido com paciente abandono! Justamente quando as energias vêm a faltar e se reduz a sua capacidade de movimento, estes nossos irmãos e irmãs tornam-se mais preciosos no desígnio misterioso da Providência”.

Em nossos dias o ambiente doméstico nem sempre é favorável à presença dos idosos, dos avós, entre outros, quando se respira uma atmosfera permissiva. As exigências de moral nem sempre são observadas. Uma outra geração contraria gerando atritos. E então, em vez se de reprimir excessos, afastam-se os anciãos. Perde-se a oportunidade de aproveitar da riqueza dos avós.

Na carta do Papa João Paulo II aos anciãos acima referida, encontramos o seguinte trecho de importância para os avós: “Caríssimos anciãos que vos encontrais em situações precárias por motivos de saúde ou outros, eu vos acompanho com afeto. Podemos estar certos: Deus é Pai, um Pai rico de amor e de misericórdia! De modo especial, penso em vós, viúvos e viúvas, que ficastes sós a percorrer o último trecho da estrada da vida; em vós, religiosos e religiosas anciãos, que durante longos anos servistes fielmente a causa do Reino dos céus; em vós, caríssimos irmãos no Sacerdócio e no Episcopado que, tendo alcançado o limite de idade, deixastes a direta responsabilidade do ministério pastoral. A Igreja necessita ainda de vós. Ela aprecia os serviços que ainda podeis prestar nos vários campos de apostolado, conta com o apoio da vossa assídua oração, espera o vosso experimentado conselho e enriquece-se com o testemunho evangélico por vós prestado dia após dia”.

Jamais destruindo a autoridade no lar construiremos o futuro da família. Igualmente, devemos ensinar aos mais velhos que não podem esquecer que um dia foram jovens e que as gerações de hoje não são cópias das de ontem, mas possuem características próprias que precisam ser respeitadas, quando não se colocam contra a lei eterna de Deus.

No próximo dia 26 de julho, festa de São Joaquim e Sant’Ana, pais de Nossa Senhora e avós de Jesus Cristo, cada um de nós, jovem ou adulto, prestemos nossas homenagens aos nossos avós ou até bisavós. Aproveitemos nessa oportunidade para visitar aqueles avós que estão esquecidos ou mesmo deixados à sorte, em asilos. As bênçãos de São Joaquim e Sant’Ana certamente alegrariam os corações nesse “Dia dos Avós”.