VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
27 de Maio de 2008
JESUS, FONTE DA VIDA
![]()
Acabamos de celebrar a grande Festa de Corpus Christi, ápice da 82ª Semana Eucarística, que nossa Arquidiocese piedosamente comemorou, no Santuário de Adoração Perpétua do Santíssimo Sacramento, localizado na Paróquia de Sant’Ana.
Dentre os fiéis que lá se reuniram, para adorar e agradecer a Presença de Jesus na Eucaristia, destaco o comparecimento dos jovens e das crianças, em dois momentos de Adoração, que tive a alegria de presidir: juntamente com o Clero, participaram os nossos Seminaristas do Propedêutico, e os alunos de Filosofia e Teologia do Seminário Maior; as crianças, todas muito bem preparadas e atentas, lotaram o Santuário no dia destinado às Escolas Católicas e aos vários grupos de Catequese.
A seguir, partilho com nossos leitores a reflexão que dirigi a elas, começando pela pergunta sobre quem conhecia alguma fonte. Embora isto faça parte de um cenário rural, havia crianças que se recordavam de nascentes d’água, que saem da terra ou da rocha, borbulhando. Depois, formam riachos e rios, até desaguarem no mar. É uma das imagens mais bonitas que existem. Daí parte a nossa analogia com o Cristo, Fonte de Vida para nós, do qual brota toda a graça que vai nos impregnando e conduzindo, até nos fazer chegar, definitivamente, ao mar infinito da bondade e da felicidade de Deus, onde circula o Amor que une Pai, Filho e Espírito Santo.
A graça é sempre um dom de Deus, uma riqueza que Ele nos comunica, um auxílio para podermos viver, plenamente, segundo a sua Vontade. Sem essa presença atuante do Espírito em nós, não conseguimos observar a lei total, não podemos ser santos: “Com a morte que Cristo sofreu em seu corpo mortal, Deus vos reconciliou, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai” (Cl 1,22).
Os efeitos da graça são maravilhosos. Por ela, tornamo-nos morada de Deus, capazes de contagiar as pessoas que nos rodeiam e os ambientes em que nos encontramos. Ao longo da minha vida, tenho encontrado pessoas assim: virtuosas, alegres, dispostas a desfrutar a verdadeira beleza da vida, no sentido mais evangélico possível.
Em Teologia, costumamos dizer que a graça é aquela força divina que torna possível o impossível. Impossível é alcançar o céu sem a graça. Impossível é perdoar de verdade, porque o perdão é uma mercê, um favor divino, que se consegue com a humildade de coração e a constância na prece. É, principalmente, pelo perdão que se reconhece quem mais está na graça. O que disse Jesus, no auge de sua humilhação e de sua doação de amor na cruz? “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
O perdão proporciona a paz. Quem tem rancor, ódio, inveja, não pode gozar da paz. Jesus é Fonte de paz, é Fonte de alegria, a tal ponto que São Paulo pode dizer: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4,4). Além disso, Jesus abre para nós uma Fonte inesgotável de felicidade junto do Pai e do Espírito Santo, com nossa querida Mãe do céu e todos os Santos e Santas que nos precederam. Essa felicidade, que chamamos “eterna”, já se manifesta na vida presente. A nossa vida começa aqui e não irá terminar mais. A morte não é um termo, mas uma passagem, uma páscoa para a sublime realidade, que aguardamos, com esperança e pela fé, enquanto ainda não fruimos da plenitude de seu alcance.
Portanto, é preciso cultivar a vida eterna desde agora. Muitas vezes, porém, o que nós prezamos é somente a nossa própria vida terrena. Este é um dos flagelos do nosso século, no qual predomina a pseudo-cultura da morte, qual corredor histórico sem saída ou transcendência. Não malbaratemos a preciosidade do dom da vida, que Deus nos deu, desgastando-a pelos vícios e abusos de todo tipo e ordem. Somos imagem de Deus, como Ele próprio afirma, na Sagrada Escritura: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26) e não nos é permitido deturpar ou borrar essa beleza original.
Jesus não quis que nossa vida permanecesse no que ela é, isto é, abriu-nos os horizontes para além de nossa própria imanência. Garantiu-nos uma vida nova. Tudo isso ao preço dos vexames, opróbrios, da flagelação e coroação de espinhos, culminando com a crucifixão: “Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo” (1Pd 1,18).
A Ressurreição de Jesus transformou o opróbrio em glória, a morte em vida nova, que vai desabrochando para a eternidade feliz: “Justificados, pois, pela fé temos a paz em Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Por Ele é que tivemos acesso a essa graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança de possuir um dia a glória de Deus” (Rm 5,1-2).
Fomos criados por Ele para reconhecê-lo e amá-lo. Isto diz São Paulo, citando o profeta Isaías: “‘Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou’ (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Cor 2,9). Isto significa que, contemplando a face de Cristo, veremos Deus tal como Ele é: muito além das fracas analogias...
Continuando a aprofundar a palavra do Profeta, aprendemos que, juntamente com o prazer da visão face-a-face, fruiremos da audição, infinitamente harmoniosa. Quando ouvimos a apresentação da obra de algum grande compositor, o agradável conjunto de instrumentos e acordes nos faz pensar numa harmonia maior – a harmonia divina. Se nossas melhores orquestras já são tão agradáveis de se ouvir, o que não será uma orquestra regida pela própria Sabedoria de Deus? Os coros angélicos e os coros dos milhões de mártires, entoando um canto sublime em honra da Trindade... Inimaginável! Enfim, nossos corações, possuídos pelo Coração de Deus, vibrarão com esse deslumbramento celestial!
Na Eucaristia, tudo isso é como que antecipado para nós. Por ela, Jesus Cristo nos enriquece, fontalmente, com a sua paz, alegria e perene presença: “Eu estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
![]()