VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
26 de Agosto de 2008
O AMOR - FONTE DE VALORES
O tema desta semana afeta a vida e o nosso próprio modo de ser diante de Deus. O amor, consubstanciado, principalmente, no perdão e na misericórdia, é a resposta de Deus ao mal que, muitas vezes, invade e desnorteia nossa vida moral e espiritual. Para tratar do assunto, valho-me de textos inspirados de São João e de São Paulo e, finalmente, dos luminosos exemplos dos Santos.
O amor nasce de Deus e conduz a Deus. Este é o princípio fundamental, que devemos lembrar, logo de início. Na essência, o que de melhor podemos dizer sobre Deus é que Ele é Amor. “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou” (1Jo 4,10), a tal ponto, que nos criou à sua imagem. Não somos a Imagem de Deus – a Imagem dele é Cristo – Imagem esplendorosa, encarnada, visível entre nós e glorificada em sua natureza humana.
A partir do próprio Cristo, nosso modelo, conhecemos os dons que Deus nos concedeu. Em primeiro lugar, temos a liberdade, um dos grandes sinais do amor de Deus por nós. Temos uma vontade, que pode dirigir a qualquer criatura o seu bem-querer ou, até, a própria repulsa. Temos uma inteligência que, como dizia Santo Tomás, está aberta a todo tipo de conhecimento, mesmo que nossas limitações não nos permitam compreender tudo.
Além disso, Deus nos dotou com a capacidade de reconhecermos e desenvolvermos valores humanos, já desde o nosso nascimento. Evidentemente, eles começam recônditos dentro de nós, como sementes em germinação. O despertar, a eclosão desses valores se deve aos estímulos, suscitados pelo amor, que testemunhamos e compartilhamos ao longo de nossa vida. Podemos dizer que o amor é a força criadora, ou propulsora, dos valores.
Aqui abordamos, brevemente, a teoria dos valores. Recordamos Maurice Blondel, Henri Bergson e Max Scheler, que trabalhou com Edmund Husserl, professor de Santa Edith Stein. Max Scheler é um escritor muito interessante de se ler, quando se refere aos valores, ponto central do seu pensamento filosófico. Ele argumenta que os valores existem em uma ordem objetiva, sempre em relação à pessoa, que pode realizá-los através da experiência do amor, no relacionamento com os outros. Essa experiência é que a faz amadurecer e aperfeiçoar a própria personalidade.
O apreço que se tem por aquilo que se ama, é uma das primeiras manifestações do valor. As potencialidades existentes nas pessoas são capacidades apenas afloradas. Quando amadurecidas, resultam numa pessoa, verdadeiramente, amável, cuja personalidade suscita o amor dos que se relacionam com ela. O amor é uma resposta ao que se lhe oferece. Isto leva a uma união de pessoas, numa convergência de valores, e faz com que se forme uma aliança. Da aliança surge o respeito, a estima, enfim, uma reciprocidade de amor: dar e receber.
Entretanto, nunca se confunda amor com paixão. Paixão é sentir-se atraído pelas pessoas, ou pelas coisas, em função do serviço que me prestam, pelo que me servem. Aí entra o egoísmo e o amor já não tem lugar. Apreciar o outro pelo que posso usufruir dele é muito frágil e passageiro. A atração e o fascínio podem existir hoje, mas amanhã terão fim, sobretudo quando surgem os problemas e a necessidade de se preocupar com o outro. O verdadeiro amor é o apreço pelas pessoas em si mesmas, não pelo serviço que me prestam. É claro que, para isso, é preciso conhecer e valorizar o tesouro do outro, que está diante de mim, embora se revele, ainda, em forma latente.
O amor exige reciprocidade. Daí o amor de aceitação - o que de graça se recebe, deve-se retribuir. “Amor com amor se paga”. Todos sabemos, por experiência, o que isto significa e como é gratificante acolher o amor que alguém nos dedica. Saber-se amado é um privilégio que nos motiva a tornar-nos melhores.
Até aqui tratou-se do amor natural. Este, porém, pode ser elevado a um nível mais sublime, chegando ao sobrenatural, quando inspirado pelo próprio Deus. Assim, os que são mais capazes de amar aceitam sofrer pela pessoa amada e, até, pelos seus ideais.
O mais perfeito amor é absolutamente gratuito, pois tem reflexos do amor divino: “Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor... seria tratado com desprezo” (Ct 8,7). A mãe, por exemplo, não ama o filho por causa de suas qualidades. Ela ama por ser mãe, indistintamente de qualquer valor que tenha a criança, ou que a mãe possa aduzir de seu corpo, de sua vida, de seu relacionamento.
Observemos o modelo de São Paulo: “Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo” (1Cor 9,22). “Estando convosco e passando alguma necessidade, não fui pesado a ninguém, porque os irmãos que vieram da Macedônia supriram o que me faltava. Em tudo me guardei e me guardarei de vos ser pesado” (2Cor 11,9). Nada quis dever a ninguém, a não ser, é claro, o amor recíproco.
O modelo maior é o próprio Cristo. São João narra sua palavra, na noite da despedida: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai” (Jo 15,15). Ora, Jesus é o “tudo” de Deus, feito gente. Deu-nos tudo que recebeu do Pai: o ensinamento, a verdade, a cura e a libertação... a própria vida. E para deixar um sinal desse “tudo” às gerações futuras, instituiu a Eucaristia, na qual oferece seu próprio Corpo e Sangue: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).
A exemplo de Jesus, os Santos Mártires também deram a própria vida, como prova da doação total no amor: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Jesus é o grande Amigo dos Santos e, através dele, estes nossos irmãos e irmãs maiores se fazem, também, nossos amigos.
Num contexto de profunda espiritualidade cristã, Santa Teresinha do Menino Jesus, Doutora da Igreja, afirmava que Jesus era seu único amor. Mas, quando pudesse fruir da eterna bem-aventurança desse amor, ela pensaria em cada um de nós, pois desejava “passar o céu, fazendo o bem sobre a terra”, pois “amar é dar tudo e dar-se a si mesma”.
O amor não pode ser interesseiro, camuflado ou parcial. Não admite reservas ou restrições, até porque ultrapassa o sentimento: é ato da vontade, inspirada por Deus. Peçamos ao Senhor essa totalidade de doação, que brota da sua Cruz e atravessa os séculos, realizando-se nas vidas de seus seguidores. Somente assim poderemos conhecer o que significa o verdadeiro amor e quais os valores que dele emanam.
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