Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

25/01/2008

 

CARNAVAL

      

O carnaval é uma festa que, como se sabe, teve origem no ciclo litúrgico da Igreja. Uma manifestação ruidosa antecedia a Quaresma, tempo de penitência e conversão, de jejum e vida mais austera em preparação à Semana Santa.

No Brasil inteiro e, especialmente, entre nós, os festejos momescos foram assumindo proporções espetaculares. Hoje, é o mais importante evento turístico do Rio de Janeiro. Ultrapassou o calendário original: começa antes do domingo e, infelizmente, continua Quaresma a dentro. A cidade gasta somas consideráveis em sua decoração; pobres economizam dos seus parcos salários durante todo o ano, para consumi-los em efêmeras extravasões de uma fugaz alegria. Quantias extraordinárias vêm de fontes duvidosas; o luxo e o desperdício chocam-se com a miséria reinante. Apesar da beleza coreográfica e de louváveis recordações da História, há quem sinta tristeza e perplexidade. Tantos recursos, oficiais, particulares, criatividade e trabalho seriam certamente melhor aplicados em favor, por exemplo, de menores abandonados, que percorrem as mesmas ruas enfeitadas, dos hospitais tão necessitados! Há um contraste com a indigência, uma afronta à moral e um atentado ao bom senso.

O carnaval era uma festa popular, em seu sentido verdadeiro. Apesar dos eventuais exageros, conservava sua lúdica inocência, que se revelava nas letras de muitas músicas de 50 e 60 anos atrás.

Nos últimos tempos, principalmente em um passado recente, houve uma evolução para pior. Em vez de um folguedo do povo, tornou-se um espetáculo para o povo, com alguma participação de camadas sociais mais elevadas, envolvendo enormes interesses financeiros e comerciais. Perdeu suas características mais aceitáveis e se transformou em oportunidade para exibicionismos condenáveis. Estes se rivalizam em ultrapassar todos os limites do respeito e do pudor. Isto acontece em certos clubes fechados, onde dominam cenas degradantes, e também em público, com desfiles onde se mesclam a capacidade artística com a sandice e despudor. Nem o respeito ao sagrado é poupado. Como, por exemplo, o Cristo Redentor do Corcovado. As imagens de tais acontecimentos ultrapassam nossas fronteiras, dando uma falsa impressão de nossa cidade, nosso país quando, na verdade, é que a maioria da população não participa dessas ações.

Compreende-se que uma população, enfrentando dificuldades de um dia-a-dia extremamente penoso, sinta falta de um momento de descontração, de alegria. Inadmissível é uma festa ser realizada com a transgressão ousada e grave da lei moral. E isto ocorre com o consentimento ostensivo da sociedade.

O preço que a Nação paga é muito alto. Ninguém infringe impunemente a Lei de Deus e a que o Senhor escreveu na própria natureza humana. Não há possibilidade de superar as condições por que passa o País sem o respeito aos valores morais que regulam as relações sociais. A profanação e o deboche desses princípios destroem as mesmas bases éticas. Estas são fundamentais para construir uma nação justa, fraterna e saudável.

Dois aspectos caracterizam o carnaval entre nós, na atualidade: a pornografia e a violência. Por sinal, há uma relação entre ambas.

Uma Carta Pastoral Coletiva dos Bispos do Estado de Nova Iorque, publicada em 1988, pode ser sintetizada na seguinte expressão: “A pornografia corrompe a integridade e a dignidade de todo ser humano”.

Fomos formados à imagem de Deus. Por isso o homem deve “considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há de ressuscitar no último dia” (Vaticano II, “Gaudium et Spes”, nº 14). Unicamente o ser racional é, por si mesmo, objeto do amor de Deus. Em conseqüência, o mais elementar bom senso rejeita o desrespeito, fruto da imoralidade desses dias.

Com razão, causa repulsa a expansão inaudita da violência entre nós. Reina, contudo, o silêncio sobre a relação bastante íntima entre esses dois fatores que infringem a Lei de Deus e do homem: a pornografia e o ultraje à integridade do próximo, com agressões e homicídios. As estatísticas do carnaval são grande advertência a todos, principalmente aos responsáveis pela preservação da vida, da ordem e do bem público.

A raiz desses males está no desmoronamento das barreiras capazes de conter instintos que contrariam a dignidade humana e os valores que a fundamentam. E o carnaval, tal como é apresentado no Rio de Janeiro, fomenta, flagrantemente os desregramentos. Eles crescem em nossos dias, incluem ricos e pobres. A explicação através da pobreza ou subdesenvolvimento não satisfaz.

A exibição, sob forma agradável, de manifestações pornográficas e de atos atentatórios à vida gera um clima altamente maléfico. Tais degenerescências, pela repetição ou falsa apresentação que tentem justificar, facilitam um juízo errôneo. Apresentam-se como aceitáveis, e normais induzindo à imitação; como a droga, criam dependência. O abuso do corpo, pelos atos sexuais contrários à lei moral, provoca a violência, pois o corpo humano passa a ser mero objeto, e visto como instrumento para saciar a concupiscência a qualquer preço.

No carnaval, não são lamentáveis apenas as altas estatísticas nos hospitais e órgãos responsáveis pela ordem pública. Há outro ângulo mais grave, pois perdura nos meses subseqüentes: o recrudescimento do clima anti-social entre nós.

A Igreja nunca foi contra as festas populares dignas. São expressões públicas, sociais e comunitárias da verdadeira alegria. Elas sempre ocorriam por ocasião das grandes celebrações litúrgicas. Refiro-me às autênticas e não às falsificadas.

Estas considerações manifestam preocupação com o bem espiritual, mas também com a preservação das forças vivas em um momento decisivo de nossa vida cívica.

Felizmente há muitos que se retiram; outros que evitam ou condenam os excessos; e ainda um número elevado de fiéis que se inscreve nos exercícios espirituais, os retiros.

Peçamos a Deus que ilumine a consciência de todos a fim de nos sentirmos comprometidos na construção de um Brasil melhor, onde imperem os valores que Jesus anunciou.