VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
24 de Junho de 2008
O DOM DA ORAÇÃO
Sabemos, por experiência, que a oração bem feita constitui-se
para nós em uma das maiores fontes de alegria, de conforto e de paz interior.
Quando o céu se tolda e a angústia tenta-nos abater, a oração nos alenta e
soergue. É como se nos abeberássemos de um manancial, cujas origens escapam à
análise de tudo o que é terreno e transitório, penetrando na transcendência do
Infinito. O Profeta Isaías bem demonstrava entender desse tesouro da oração, ao
advertir: “Tirareis com alegria das fontes da salvação” (Is 12,3). Quantas vezes
torna-se realidade o que diz uma das nossas canções religiosas: “Havia um poço
no deserto e o povo passa perto... da sede a reclamar”.
Diante da
importância da oração para o contacto com Deus, para a busca da santidade e para
o serviço pastoral na Igreja, cabe-nos o humilde e confiante pedido dos
Discípulos de Jesus, que os encantara com o seu jeito de orar: “Mestre,
ensina-nos a orar”. Ele, por certo, há de nos apontar vários caminhos da prece,
inspirados no Pai-Nosso que Ele, em resposta àquele pedido, lhes ensinara:
“Quando orardes, dizei: Pai nosso, que estás nos céus...” (Cf. Lc 11, 1-2).
Como Deus nos
criou “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26) e, sendo esse Deus uma comunidade
dialogante no amor, ficou estampada em nosso ser a necessidade ontológica,
originária da oração. Ela é conforme à nossa constituição de ser e nos realiza e
aquieta, até, em nossa dimensão natural. Fomos inseridos pelo Criador como
participantes desse diálogo divino de amor que se intensifica, aperfeiçoa e
acrisola, na medida em que crescemos no conhecimento e na amizade desse nosso
Deus e Senhor.
A imagem que
o Gênesis nos oferece do relacionamento de Deus com nossos primeiros pais é o de
familiaridade e de íntima amizade. Ora, em semelhante clima, o diálogo flui com
naturalidade e abundância. Não sabemos quanto tempo durou essa situação
privilegiada. O que ficou claro é que o diálogo se interrompeu com o pecado: o
homem cai no isolacionismo, no mutismo, no medo de Deus. Veio, assim, a ser uma
situação desumana e degradante. Quem não ora, permanece em situação semelhante
àquela...
O Divino
Mestre de Nazaré nos alerta de que “Sem Ele, nada (de bom) conseguiremos fazer”
(Jo 15,5). Esta é uma verdade absoluta. Deus, sendo fonte e impulso de todo Bem,
sem a sua ajuda nada será possível na linha do que é bom. Parece-me que isto cai
até mesmo sob a experiência prática. Como atingir êxito nas grandes causas do
mundo e da história sem o auxílio do Altíssimo? Como dar mérito ao que fazemos,
durabilidade e consistência? Como conseguir fraternidade universal, união das
mentes e dos corações, a conversão de corações petrificados pela maldade? Como
levar em frente os ideais do Evangelho, as propostas da moral cristã, as
prerrogativas da Igreja de Cristo: a missionariedade, a ação evangelizadora, a
catequese e o crescimento da fé “que opera pela caridade”, o testemunho do
martírio? Tudo isso decorre da lógica da prece insistente e ininterrupta.
O próprio
Senhor Jesus nos alerta: “Tudo o que pedirdes ao meu Pai em meu nome, vós o
alcançareis. Até agora, nada pedistes”, acrescenta com tristeza (Jo 16,24). Em
outra ocasião, volta ao mesmo assunto: “Pedi e recebereis; buscai e achareis,
batei e vos será aberto” (Mt 7,7).
Ao orarmos,
deixamos todo o resto de lado, praticando um ato de autêntica religião. Tudo
passa a segundo plano. Deus preenche tudo o que buscamos: “Procurai em primeiro
lugar o Reino de Deus; o resto será apenas um acréscimo” (Mt 6,36).
A linda
natureza aí está como um convite para a oração. Ela nos convida ao louvor, como
nos demonstraram diversos autores dos Salmos e uma multidão de Santos e Santas,
que passam a ser nossos modelos, como o Cântico das Criaturas de São Francisco
de Assis, o cântico dos jovens na fornalha ardente (Dn 3, 52-90), os Salmos:
8,18,102 e outros. Santa Teresa d’Ávila, Doutora da Igreja, nos surpreende com a
singeleza de sua prece:
“Nada me perturbe,
Nada me amedronte.
Tudo passa.
Só Deus não muda.
A paciência tudo alcança.
A quem tem Deus, nada falta.
Só Deus me basta!”
Talvez nos perguntemos, apesar do que vimos, qual é a verdadeira
razão de nossas preces? A resposta é muito simples e prática: Jesus orou e
mandou orar sempre (Lc 18,1). A Virgem Santa, Os Apóstolos, todos os Santos e
Santas foram pessoas de muita e santa oração. Das primeiras comunidades dos
Mártires, se refere, que eram perseverantes na oração (cf. At 2,43). A Igreja de
Cristo, por ser uma comunidade de caridade, é necessariamente uma comunidade de
prece e de culto. Nele se celebra, sem cessar, do nascer ao pôr do Sol, o
Mistério Pascal de Cristo.
Santa Teresa
d’Ávila considera a oração como a “elevação da alma (e de tudo o que existe)
para Deus”. De minha parte, prefiro a definição de Santa Teresinha do Menino
Jesus: “A oração é um impulso do coração, um simples olhar para o céu, um grito
de amor e gratidão na provação e na alegria; é algo enorme e divino que dilata o
nosso íntimo e une a Jesus”. Um dia, uma pessoa muito simples do campo me deu
esta definição de sua prece: “Rezar é estar todo ali só para Deus, porque Ele
está todo ali só para mim” (Ele acabara de rezar diante do Crucificado).
Perguntando a um bom teólogo a definição de oração, ele me deu esta resposta:
“Não sei, realmente, dizer o que é a oração. Só lhe posso afirmar, que me sinto
muito melhor quando falo com Deus, do que quando falo de Deus”.
A etiologia,
a causalidade da prece está em Deus e não em nós. Ele nos convida a orar e nos
possibilita a oração através da sua graça. Cabe-nos abrir o nosso íntimo, de par
em par, para que a misericórdia divina nos penetre até os mais profundos
refolhos do ser. Como a terra amainada se agracia com o rocio e a chuva, assim a
nossa pessoa – pela abertura ao Altíssimo – é invadida pela santidade, pelo
mistério e pela insondável riqueza da própria Trindade Divina: “Viremos a ele e
faremos nele a nossa morada” (Jo 14, 23).
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