Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

23/05/2008

 

BENTO XVI NOS ESTADO UNIDOS - 2

 

   Em sua recente viagem a Washington e Nova York, de 15 a 21 de abril último, o Santo Padre fez vários pronunciamentos da maior importância não só para os Estados Unidos, mas também para o mundo. Assim, respiguei aqui alguns tópicos de seus discursos e hoje acrescento outros, de utilidade para nossa Igreja e para o Brasil.

   Em seu discurso no encontro com os Bispos norte-americanos, o Santo Padre afirma: “A América é também terra de grande fé. Seu povo é bem conhecido pelo fervor religioso e é orgulhoso de pertencer a uma comunidade fiel. Tem confiança em Deus e não hesita em introduzir nos temas públicos razões morais enraizadas na fé bíblica”. No entanto, a sutil influência do secularismo dá lugar a contradições na vida prática. Assim, é preciso resistir a todas as tendências a considerar a religião como um fato privado. Somente quando a fé permeia todos os aspectos da vida, os cristãos se tornam realmente abertos ao poder transformador do Evangelho. “Para uma sociedade rica, outro obstáculo ao encontro com o Deus vivo é a sutil influência do materialismo. (...) A influência da Igreja no debate público se efetua em muitos níveis. (...) Nos Estados Unidos, como em outros lugares, existem atualmente muitas leis já em vigor ou em discussão que suscitam preocupação do ponto de vista da moralidade e a comunidade católica (...) deve oferecer um testemunho claro e unitário sobre tais matérias”. E acrescenta: “na verdade, não se deve dar como óbvio que todos os cidadãos católicos pensem segundo o ensinamento da Igreja acerca das questões éticas fundamentais de hoje. Mais uma vez, é vosso dever agir de modo que a formação moral oferecida em todos os níveis da vida eclesial reflita o autêntico ensinamento do Evangelho da vida. A propósito, um argumento de profunda preocupação para todos nós é a situação da família dentro da sociedade”. E adiante: “Entre os sinais contrários ao Evangelho da vida que se podem encontrar na América, e também em outros lugares, há um que causa profunda vergonha: o abuso sexual dos menores”. Os bispos “dão prioridade à manifestação de compaixão e suporte às vítimas: é responsabilidade que vem de Deus, como Pastores, curar as feridas causadas a cada violação da confiança. Favorecer a cura, promover a reconciliação e se aproximar com afetuosa preocupação de quem foi assim seriamente prejudicado. Responder a essa situação não foi fácil, e, como indicado pelo Presidente da Conferência Episcopal, ‘algumas vezes foi administrada de modo péssimo’. Agora que a dimensão e a gravidade do problema estão mais claros, os bispos poderão adotar medidas terapêuticas e disciplinares mais adequadas e promover um ambiente seguro, que ofereça mais proteção aos jovens”.

   O Santo Padre também tratou desse assunto na homilia da missa celebrada na Catedral de São Patrício, em Nova York. Assim se expressa: “Queria dizer umas palavras sobre os abusos sexuais que causaram tantos sofrimentos. Já tive ocasião de falar disto e do conseqüente dano para a comunidade dos fiéis. Agora desejo expressar-lhes sinceramente, queridos sacerdotes e religiosos, minha proximidade espiritual, ao mesmo tempo que se trate de responder com esperança cristã aos contínuos desafios surgidos por esta situação, também um tempo de cura. Animo a colaborar com seus Bispos, que continuam trabalhando eficazmente para resolver este problema”.

   Na tarde do sábado, 19 de abril, o Santo Padre teve um encontro com os jovens e seminaristas no Seminário São José, em Nova York. Após se referir a um passado não distante, disse: Agradecemos a Deus porque hoje muitos de sua geração podem gozar das liberdades surgidas graças à difusão da democracia e do respeito dos direitos humanos. Agradecemos a Deus por todos os que lutam para garantir que vocês possam crescer em um ambiente que cultiva coisas belas, boas e verdadeiras. Seus pais e avós, seus professores e sacerdotes, as autoridades civis buscam coisas corretas e justas. O poder destruidor, todavia, persiste. Afirmar o contrário seria enganar a si mesmos. Mas ele não triunfará jamais; ele foi derrotado. É esta a essência da esperança que nos distingue como cristãos; a Igreja o recorda de modo muito dramático durante o tríduo pascal e o celebra com grande alegria”. O Santo Padre falou sobre a vocação e concluiu: “Eu gostaria finalmente de dizer algo sobre as vocações (...). Reunidos aqui, no Seminário São José, saúdo os seminaristas presentes (...). O povo de Deus espera que vocês sejam sacerdotes santos (...). Rejeitem toda tentação de ostentação, carreirismo e vaidade. Procurem um estilo de vida caracterizado pela caridade, castidade e humildade, imitando Cristo, eterno Sumo Sacerdote”.

   A 18 de abril ocorreu o encontro com os representantes de outras religiões, quando afirmou: “Alegro-me hoje por ter a ocasião de estar com os representantes das diversas religiões presentes nos Estados Unidos (...). Este país tem uma longa história de colaboração entre as religiões (...). O dever de defender a liberdade religiosa não acaba nunca (...). O diálogo entre as religiões: tanto os que participam dela como a sociedade saem enriquecidos (...). Usando as palavras do presidente Franklin Delano Roosevelt, ‘nada maior poderia receber nossa terra que um renascimento do espírito de fé’. Que os membros de todas as religiões estejam unidos na defesa e promoção da vida e da liberdade religiosa em todo o mundo. E que, dedicando-se generosamente a este sagrado dever (...) sejamos instrumentos de paz para toda a família humana”. Assim Deus nos ajude.