Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo
Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
22/08/2008
O ANO PAULINO I
Com o intuito de despertar maior interesse na celebração do Ano Jubilar, comemorando os 2000 anos do nascimento de São Paulo, retorno hoje ao assunto sobre sua admirável vida.
Quando visitei, em 1985, em peregrinação a cidade de Antioquia da Síria, hoje Turquia, pensava em São Paulo, vivendo na terceira cidade do Império Romano, uma grande metrópole, com seu anfiteatro, o maior de então. //Porém, a fama da imoralidade reinante levou o poeta latino Juvenal a declarar que uma corrente, inclusive de superstição, passou do Orontes (o rio que atravessa a cidade) ao Tibre, na Itália.
Ouvi a reclamação do único padre católico residente: “São raros os peregrinos que aqui vêm!”. Contudo, este lugar, tão importante na antigüidade, foi a segunda sede de Pedro, de onde governou a Igreja, e o palco de um longo trabalho evangelizador do Apóstolo Paulo. Dizem-nos os Atos dos Apóstolos (11,25-26): “Dirigiu-se Barnabé a Tarso, em busca de Saulo; encontrou-o e o levou para Antioquia. Passaram todo o ano nesta igreja e instruíram grande número de pessoas”. Retornando à Antioquia, foi aí que recebeu a confirmação de sua missão (At 13,2).//
A visão mundial de Paulo, sua angústia por divulgar a Mensagem do Senhor não apenas a quem lhe era vizinho, mas de abranger o mundo inteiro, na ânsia de levar Cristo aos homens, certamente foram influenciadas por este ambiente cosmopolita.
//Dirigi-me, de automóvel, a Tarso. Olhei o panorama que a emoldura, inclusive o Monte Taurus, recoberto de neve. Recuei dois milênios. Na capital da província romana da Cilícia, parecia escutar Paulo, com argúcia, pronunciando a própria defesa: “Sou natural de Tarso, uma cidade não sem importância” (At 21,39). Evocando recordações sobre o Rio Cydnus, a presença de Cleópatra e Marco Antônio, os privilégios de que gozava quem ali nasceu: “Paulo perguntou (...) ‘É permitido açoitar um cidadão romano que nem sequer foi julgado?’ (...) eu o sou de nascimento” (At 22,25.28).
Pensei no tráfego marítimo e nas caravanas, no mundo helênico e sua elevada cultura. O próprio Imperador Augusto tivera como professor um filósofo estóico, de Tarso.//
Eis a atmosfera da infância de Paulo. Hoje, fora o nome da cidade, quase nada restou que fale do seu grande filho. Encontrei apenas um poço, com algumas escavações e uma modesta indicação, em inglês.
Neste rincão nasceu um homem que foi instrumento de Deus para levar aos judeus e gentios do universo conhecido de então a mensagem salvífica do Evangelho.
Fui a Éfeso, local onde a presença de Paulo está vinculada à de Nossa Senhora. Ela, após a morte de seu Filho, viveu ali em companhia de João, o Evangelista. E foi aí que ele redigiu, diretamente ou através de discípulos, o quarto Evangelho. As ruínas da imensa basílica bizantina, onde está o túmulo do Discípulo Amado, revelam uma Igreja florescente na Antigüidade. Vi as placas comemorativas da visita de Paulo VI, a 26 de junho de 1967, e a de João Paulo II, na manhã de 30 de novembro de 1979. Essas inscrições falam da continuidade da Igreja de Cristo, a mesma ontem e hoje.
No anoitecer, estive no local onde se realizou o Concílio Ecumênico que declarou dogma de Fé a Maternidade Divina de Maria, no ano 431. Aliás, a Igreja já, há tempos, celebrava essa prerrogativa de Nossa Senhora. //Na redondeza, o único templo cristão em uso é o Santuário edificado nas montanhas que circundam o lugar. Datam do I século os alicerces e se discute se a Virgem, aí ou em Jerusalém, morreu. Os orientais usam outra expressão, plena de delicadeza: “dormitio” (“dormição”).//
Nestas paragens é viva a sombra de Paulo. //Passara por aqui: “Se Deus quiser, voltarei para vós outros. E, embarcando, partiu de Éfeso” (At 18,21). E retornou: “Paulo, depois de ter atravessado a região alta, chegou a Éfeso (...) Como alguns não cressem (...) reuniu à parte os discípulos (...) na escola de um certo Tirano. Assim prosseguiu durante dois anos, até que todos os habitantes da Ásia, judeus e gregos, puderam ouvir a palavra do Senhor” (At 19,1.9-10).// Parecia ainda escutar o grito do Apóstolo (Ef 5,14): “Ó tu que dormes, desperta! E levanta-te de entre os mortos, que Cristo te iluminará”. Este brado continua. Quem sabe, um dia, voltará a ter sucesso, como ocorreu há dois mil anos.
Ali, ele teve vitórias admiráveis. Entretanto, o ourives Demétrio conseguiu agitar a cidade contra Paulo. Por motivos comerciais, o Evangelho foi impedido (cf. At 19,24-41). Nesse episódio, Paulo demonstra sua coragem, desejando enfrentar a multidão. Aprisionado, termina por deixar Éfeso, aonde nunca mais regressou. A pregação, contudo, continuou sem desfalecimentos.
Neste período da História, tendo-se iniciado um novo milênio, a figura de Paulo, sua dedicação inexcedível a uma causa tão nobre quanto a divulgação da mensagem salvífica e sua incorporação na vida dos povos, adquiriram importância invulgar. Observando os lugares onde viveu, as distâncias percorridas, o ambiente hostil e as reações contra ele, vindas, como afirma, inclusive de “falsos irmãos” (2Cor 11,26) cresce o respeito e a devoção por ele. Maravilhosa a atitude deste homem que defende a pureza da Fé a qualquer preço; não cede a pretexto de evitar a perda de discípulos; e, ao mesmo tempo, no acidental, atende à fraqueza dos irmãos (Gl 2,4-5).
Assume proporções admiráveis o comportamento do Apóstolo que, mesmo recebendo diretamente de Deus uma missão, julga-se no dever de conferir com os outros, colunas da Igreja, - e Pedro, em particular -, sua atuação e seu ensinamento.
Diante desse modelo que Cristo deixou para toda a seqüência dos séculos na vida de seu povo, cabe-nos o dever de comparar nosso procedimento com essa figura ímpar. Aprender as lições e incorporá-las em nossa vida. A celebração do Ano Paulino é uma excelente oportunidade para deixar que nossa vida religiosa se molde pelos exemplos deixados por São Paulo.
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