VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
22 de Julho de 2008
REFLETINDO SOBRE SÃO PAULO
Esta semana, vamos prosseguir, aprofundando o nosso conhecimento a respeito de São Paulo, conforme nos propõe o Papa Bento XVI. Em um artigo anterior, sobre a abertura do Ano Paulino, há quase um mês, recordei minha última visita a Roma.
Naquela ocasião, estive na grande Basílica de São Paulo fora dos muros, uma das mais bonitas da cidade, pela arte e pela concepção arquitetônica. Ela se encontra próxima ao local onde o Apóstolo foi martirizado. Há mosteiros e casas religiosas ao seu redor, convidando ao silêncio e ao recolhimento.
O local do martírio recebeu o nome de Tre Fontane (“Três Fontes”). Conforme a tradição, quando Paulo foi decapitado, sua cabeça teria sofrido três choques sucessivos contra o solo, vertendo sangue, copiosamente. Naqueles pontos, surgiram três fontes. Daí me veio a inspiração para este artigo: refletir sobre as três grandes fontes da espiritualidade paulina. Nelas podemos abeberar-nos, matar a sede de conhecer melhor a Cristo e aprender como segui-lo.
A primeira das fontes brota do encontro de Paulo com Cristo, no caminho de Damasco. Lá ele lhe pergunta: “Quem és, Senhor?” e “Que queres que eu faça?” (At 9,5-6). Para alguém que, até àquele momento, transpirava ódio contra os cristãos, comandava perseguições e os arrastava para a prisão, trata-se de uma pergunta decisiva. Mais tarde, essas atitudes lhe acarretariam profundo arrependimento: “Sou o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus” (1Cor 15,9).
Embora nunca se tenham encontrado, pessoalmente, o contacto de São Paulo com Cristo foi de uma profundidade incomparável. Para ele, Cristo tornou-se fonte das riquezas inesgotáveis, descritas em suas Cartas, e para as quais nos quer conduzir, “a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus” (Ef 3,18-19).
Na Igreja primitiva, a vida das comunidades, de acordo com o que Cristo mostrou, viveu e ensinou, era então chamada o “Caminho”. Hoje falamos de seguir o Cristianismo, a mensagem evangélica, e assim por diante. Naquele tempo, falava-se, simplesmente, de aderir ao “Caminho”. Foi este Caminho que Paulo encontrou, na continuidade da sua estrada para Damasco.
Antes de se tornar o precursor dos teólogos cristãos, Paulo se dedicara ao estudo das tradições de seu povo, tornando-se Rabi ou Raboni, isto é, doutor, dentro do judaísmo. Ele mesmo afirma: “Avantajava-me no judaísmo a muitos dos meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meus pais” (Gl 1,14).
A partir de sua conversão a Cristo, continuou progredindo na ciência de Deus, a passos cada vez mais largos. Mas, isto lhe custou grande sofrimento pessoal e, até, perseguições promovidas pelos próprios irmãos na fé judaica. Inspirado pelo Espírito Santo, rompeu com o jugo das antigas tradições, a ponto de reconhecer, e ensinar, que a mera prática da lei não nos salva. É preciso viver o espírito da lei, reconhecer as tonalidades que assume, nas diversas circunstâncias.
Profundo conhecedor da moral judaica, São Paulo chegou à conclusão de que nenhum de nós pode observar a lei, pois ela nos recomenda o que deve ser feito, ou evitado, mas não nos dá a força para realizá-lo. “Agora, mortos para essa lei que nos mantinha sujeitos, dela nos temos libertado, e nosso serviço realiza-se conforme a renovação do Espírito e não mais sob a autoridade envelhecida da lei” (Rm 7,6). “O que era impossível à lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez” (Rm 8,3), através da graça que nos concedeu.
Aqui entra a novidade ensinada por Paulo: a lei, por si só, não tem grande valor. Ela vale pela caridade, que vai animá-la na sua prática, pois a graça acompanha cada ato bom que se faz. Vivemos de acordo com a lei, mas não por causa da lei, e sim por causa da força que recebemos do próprio Deus para executar aquilo que Ele nos pede. “A caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10).
A segunda fonte paulina é o próprio Cristo. Mas não o Cristo como proposta de fé, delineado pelas teses de Teologia. São Paulo nos apresenta o Cristo na sua autêntica maneira de se relacionar com a humanidade, a ponto de se tornar tão pobre e miserável quanto qualquer um de nós. Assumiu a nossa natureza que, embora estraçalhada pelos sofrimentos da Paixão, ressuscitou gloriosa e está unida à sua divindade para todo o sempre (cf. Fl 2,5-11).
A experiência no caminho de Damasco, seguida dos 3 anos de silêncio e ascese, passados no deserto da Arábia, fizeram com que ele penetrasse, profundamente, na realidade e na beleza da Pessoa de Cristo. Ficou, definitivamente, fascinado, a tal ponto que chega a dizer: “Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,21), pois “eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Daí que o próprio Paulo nos aponta um outro caminho, que ele chama de “meu Evangelho”. Não é diferente dos outros Evangelhos, mas sua maneira típica de interpretar, com rigor e sabedoria, a mensagem de Cristo: “Nós pregamos Cristo crucificado, para os eleitos, força de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23-24).
Existe, ainda, uma terceira fonte: são as atitudes que devem animar quem queira seguir os passos de Paulo. E adianto que não é fácil. Ele foi flagelado 5 vezes pelos judeus, 3 vezes pelos carrascos romanos, que eram ainda piores, naufragou 3 vezes, passou jejuns, esteve em torno de 8 anos preso (3 em Cesaréia, mais 3 na primeira fase em Roma, e mais 2, numa segunda fase).
Calculem tudo isso. Imaginem a solidão, o sofrimento, as privações de todo tipo. Ao contrário de abatê-lo, cada revés lhe aumentava o ardor e o zelo. Sentia a fraqueza do corpo, penava com os jejuns, mas seguia em frente. Viajou, de barco e a pé, milhares de quilômetros, a tal ponto que Marcos, seu companheiro da primeira hora, não quis prosseguir com ele. Finalmente, a reconciliação consolidou sua amizade.
Não se pode esquecer a figura de Lucas, amigo fiel e solidário, discípulo que muito aprendeu com Paulo, conforme demonstram as influências paulinas contidas no seu Evangelho. Acompanhou o Apóstolo, até o fim de sua vida (cf. 2Tm 4,11).
Ainda haveria muito a falar sobre Paulo. Mas a melhor maneira de estreitar a amizade com ele é ler as suas Cartas e praticar os seus ensinamentos, que nada mais são do que o eco das próprias palavras de Cristo. Peçamos a Deus que apliquemos à leitura o mesmo ardor que o Apóstolo tinha na pregação.
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