VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
22 de Abril de 2008
RECORDANDO...
A primeira recordação deste artigo é dedicada a um dos mais preciosos luminares da Igreja Católica no Brasil, falecido no dia 14 deste mês, aos 88 anos de idade: D. Estêvão Bettencourt. A saudade e a lacuna que deixa entre nós só pode ser compensada pela alegria espiritual, que se fundamenta na certeza da retribuição divina para aquele Servo fiel.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro teve o privilégio de contar com a colaboração de D.Estêvão, usufruindo da intensa atividade intelectual e espiritual, que o animou até o fim da sua vida. Foi professor e escritor, articulista, principalmente, em publicações nacionais e internacionais, pois era versado em vários idiomas. Mantinha, além disso, sua própria revista “Pergunte e Responderemos”, conhecida pelo país inteiro, e cujo conteúdo ele também divulgava através da Internet e de um programa em nossa Rádio Catedral.
Ofereceu marcantes contribuições à Teologia e à Exegese. Seu perfil de apologeta inclinou-o ao diálogo com o mundo contemporâneo, em sintonia com os grandes desafios que interpelam nossa fé, para confrontá-los com a Verdade do Evangelho e oferecer ao povo uma segura orientação eclesial. Promoveu o desenvolvimento das Escolas de Fé Mater Ecclesiae e Luz e Vida, e a sua implantação em diversos núcleos, aqui no Rio de Janeiro e, também, em outras Dioceses, trabalhando com o Ensino à Distância.
Acima de tudo, deixa-nos edificante exemplo de santidade, pela consagração de sua vida aos ideais da Ordem Beneditina. Serviu a Cristo e à Igreja com um notável devotamento, fecundado pela oração e pela ascese, e expresso num perseverante e tranqüilo dinamismo. Certamente, continuará a nos dedicar seu desvelo e carinho, como nosso intercessor junto a Deus.
A seguir, recordo algumas reflexões, sobre problemas atuais de Pastoral, desenvolvidas na 46ª Assembléia Geral da CNBB, realizada em Itaici, também neste mês. Antes, porém, não posso deixar de registrar o clima fraterno que uniu, aproximadamente, 400 Bispos de todos os recantos do país, naquela memorável ocasião. Um dos pontos mais positivos da Assembléia foi, como sempre, a convivência na partilha, na cordialidade e no respeito e admiração pelo trabalho do outro. O nosso testemunho de fé enraiza-se na caridade pois, de outro modo, seríamos como o “bronze que soa ou o tímbalo que retine” (1Cor 13,1): fazendo muito barulho, sem produzir nada.
Outra nota característica desta 46ª Assembléia Geral foi a temática, pautada pelo “Documento de Aparecida” – texto conclusivo da Vª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, aprovado pelo Papa. Trabalhamos no sentido de aproximar, ainda mais, da nossa realidade aquele excelente texto. Assim, elaboramos as “Diretrizes para a Ação Pastoral”, cujo objetivo é aplicar os princípios do Documento de Aparecida à prática do trabalho pastoral. Como diz o próprio texto, citando o Salmo 22[23]: É o Pastor que dá a seu rebanho a comida sólida, substancial e saborosa, no tempo e no modo mais condizente.
Estas Diretrizes foram preparadas por uma equipe, na forma de um documento preliminar e, a seguir, lapidadas pelos membros da Assembléia. O microfone do auditório estava aberto a todos. Muitos expuseram suas críticas e opiniões, com vozes até dissonantes, porém, jamais adversárias. Foram discussões muito produtivas, sob a Presidência de D.Geraldo Lyrio Rocha e coordenadas pelo Secretário-Geral D.Dimas Lara Barbosa, nosso caríssimo Bispo Auxiliar.
Entrementes, aconteciam as comunicações de vários Bispos, muito bem preparadas, utilizando modernos recursos audiovisuais. Assim, ficamos a par de quase tudo o que vem acontecendo na ação pastoral pelo Brasil em fora, incluindo trabalhos específicos dessa ou daquela Diocese / Arquidiocese.
Dentre os temas tratados, cito alguns que mereceram destaque, por parte do Papa Bento XVI, quando de sua aprovação do Documento de Aparecida. Primeiramente, o acento que se dá à celebração do Dia do Senhor e, no centro desta celebração, a proeminência pastoral da Eucaristia. Receber Cristo eucarístico glorioso, permanecendo conosco na ação pastoral, é a garantia, também, da assistência do Espírito Santo. Além disso, o Papa enfatizou a proposta de uma Evangelização Continental, que nós temos a missão de colocar em prática, em âmbito nacional.
Um terceiro elemento a se acentuar foi a prévia das “Diretrizes para a Formação do Clero”. A Arquidiocese do Rio de Janeiro tem sido muito abençoada com vocações sacerdotais. Estamos com cerca de 120 candidatos no Seminário Maior, propondo-se a cursar três anos de Filosofia e mais quatro de Teologia, para receber o Bacharelado, conferido pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, e encaminhar-se à Ordenação Sacerdotal.
Como formar estes jovens, cheios de entusiasmo, para desenvolver-lhes a personalidade e promover a visão de Igreja em suas mentes e atividades pastorais? Eles nos chegam idealistas e puros, na sua maioria, porém, trazendo consigo as características dos seus respectivos ambientes de origem, nem sempre favoráveis. Portanto, tais Diretrizes serão uma valiosa orientação para os dirigentes de Seminários e coordenadores da Pastoral Vocacional. Depositamos muitas esperanças na equipe que está elaborando o documento.
Além disso, não podemos esquecer que a Igreja conta com um texto fundamental sobre a formação do clero: a Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis, de João Paulo II, firmada na rica experiência de vida sacerdotal daquele saudoso Papa. (Futuramente, voltarei a tratar do assunto).
A Assembléia elaborou uma declaração a respeito de um tema muito discutido na mídia, mas sem qualquer polêmica entre nós, dada a clareza da Moral cristã quanto à questão: o uso de células-tronco embrionárias em experiências científicas. A ciência e a fé são duas instâncias da cultura humana, mas que se harmonizam, perfeitamente, dentro da Ética e da Moral: humana e cristã.
O óvulo concebido é pessoa humana, com todas as potencialidades que vai desenvolvendo, gradativamente. Portanto, aos embriões tomados como meros doadores de células é negado o direito à vida, garantido a qualquer ser humano. Isto é um erro gravíssimo, causador de mortes e mais mortes, que não passam de assassinatos em nome da ciência.
A questão assemelha-se ao aborto, enquanto crime contra a vida de pessoas, ainda mais inocentes e indefesas. As pesquisas têm demonstrado que o aborto é rejeitado pela maioria do povo brasileiro. Esperamos que nossos legisladores, se não têm a consciência cristã, precavenham-se, pelo menos, de contrariar a vontade do povo que representam.
Foram elaboradas outras declarações importantes, como a dos Bispos do Regional Leste 1 contra a situação calamitosa da dengue, que tem colocado em risco toda a nossa população. Houve, também, um manifesto de solidariedade aos Bispos ameaçados de morte por contrariarem interesses escusos. Finalmente, foram estabelecidas algumas orientações sobre as eleições, outro tema que abordarei, mais especificamente, em tempo oportuno.
A Assembléia da CNBB é um grande acontecimento eclesial, promovido anualmente. Agradeço àqueles que estiveram em comunhão conosco, através de suas orações, e peço a solidariedade ativa de todos que se empenham na pastoral, pela aplicação dos ideais que nos movem e entusiasmam.
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