VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

19 de Agosto de 2008

 

O SENTIDO DO PECADO

 

   

Permitam-me refletir sobre um tema, freqüentemente desacreditado pela mentalidade contemporânea: o sentido do pecado. O assunto não é agradável, pois nos coloca diante de nossas próprias fraquezas. Talvez por isso, o mundo esteja envolvido num clima de pecado que, pouco a pouco, passa desapercebido para os que não têm uma consciência ética e moral bem formada.

O querido Papa Pio XII, Pastor Supremo da Igreja durante o período da Segunda Guerra Mundial, dizia que o maior pecado da época atual é haver perdido o sentido do pecado. Ao que Bento XVI acrescenta, num discurso dirigido a sacerdotes participantes de um curso da Penitenciaria Apostólica: “Parece que hoje se perdeu o sentido do pecado mas, em compensação, aumentaram os complexos de culpa”. Como cristãos, somos instados a viver e a agir dentro desse clima adverso, procurando o que de bom se possa encontrar e, ainda mais, semeando o bem.

Antes de ser um conceito, o pecado é uma experiência, que o povo eleito de Israel e nós, até hoje, fazemos, no dia-a-dia de nossa história. Com base na vivência, que a Bíblia nos apresenta, a primeira acepção do pecado é errar o alvo, perder o rumo, sentir-se desnorteado, esvaziado daquilo que deveria ser o sentido da própria vida. Não se pode colocar a causalidade em Deus, porque Ele é absolutamente bom. Portanto, o mal vem de fora e age sobre o ser humano, tentando-o; quando encontra sua adesão, desvirtua-lhe o modo de agir.

O pecado é aversão a Deus e conversão às criaturas. Em vez de ter seu pensamento e seu coração voltados para o Criador, o homem volta-se para as coisas criadas. Este é o materialismo, verdadeiramente condenável. A rejeição do senhorio de Deus é o que existe de pior. Nós o afastamos de nossa vida e colocamos, em seu lugar, um ídolo, um deus  falso, como fez Israel, construindo um bezerro de ouro, enquanto Moisés demorava para retornar do Sinai (cf. Ex 32).

Esse ídolo pode ser o nosso próprio eu. Errar o alvo significa, justamente, ter em vista a própria autonomia, em lugar da Vontade de Deus. Tanto é verdade que a Bíblia, quando descreve o pecado das origens, aponta o cerne da tentação: “Vós sereis como deuses”. Essa é a idolatria de si mesmo, como pessoa que se arroga o direito de dirigir o próprio destino, ser autônoma. Isso vem simbolizado na árvore do paraíso, diante da qual os primeiros pais tomaram atitude errônea, auto-determinante, com resultado desastroso... (cf. Gn 3). 

A segunda acepção do pecado é invadir a propriedade alheia. Configura-se como um roubo, um latrocínio: entrar na propriedade de alguém e fazer ali todo tipo de estrago. São Paulo diz: “Tudo é vosso! Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1Cor 3,22-23). A propriedade das coisas é de Deus, que no-las deu para usá-las e aperfeiçoá-las, tendo em vista a glória dele e o serviço ao ser humano. Quando usamos das criaturas, dentre elas nós mesmos, e as afastamos da finalidade para a qual Deus as destinou, estamos dessacralizando ou, até, profanando aquilo que, de per si, está destinado a fazer parte da criação redimida, integrada na vitória de Cristo.

São Paulo escreve aos Romanos: “A criação aguarda, ansiosamente, a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criação foi sujeita à vaidade (não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou), todavia com a esperança de ser também ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8,20-21).

Recordando a palavra do Papa Bento XVI sobre os “complexos de culpa”, no início deste artigo, observamos que uma terceira acepção do pecado é a de carregar um peso insuportável. A ação má, desviada de sua finalidade e de seu termo, sobretudo quando conduz à egolatria, isto é, à idolatria de si mesmo, acarreta um fardo acachapante para o ser humano, averiguável pela própria psicologia. Sua conseqüência é o remorso, o peso da consciência.

É importante verificar que “complexo de culpa” e “remorso” são diferentes de arrependimento, embora os mal informados costumem associá-los de maneira errônea, acusando a reta formação moral de dar origem a estados emocionais patológicos. Nos dois primeiros casos, a pessoa lamenta a situação em que se encontra, pelo sofrimento que lhe causa. Não busca, entretanto, averiguar as causas do problema, ou transformar sua maneira de ser e de agir. Por outro lado, quem se arrepende, no sentido bíblico e teológico do termo, reconhece o mal causado pelo pecado e a própria fraqueza ao praticá-lo. Porém, a partir daí, clama pela misericórdia e o auxílio divinos, para chegar à libertação e à conversão.

Assim, São João Batista anuncia que “o Cordeiro de Deus tira o pecado do mundo” (Jo 1,29), ou seja, assume todo o peso da nossa culpa, conforme já afirmara o profeta: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos. O castigo que nos salva pesou sobre Ele; fomos curados graças às suas chagas” (Is 53,4-5).

Jesus nunca passou por remorso, porque sempre fez o que foi do agrado do Pai (cf. Jo 8,29). Porém, sofreu todas as conseqüências dolorosas do pecado na sua Pessoa, totalmente divina, infinitamente santa. Por isso, conhecendo a miséria do ser humano, oferece-lhe sua misericórdia: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11,28.30).

Apesar de tudo, o amor de Deus nunca deixa de se dirigir ao pecador. Aliás, Ele ama o pecador com tanto amor, que esse amor torna-se transformante, exceto quando o próprio homem interpõe um obstáculo, cria um bloqueio, impedindo-o de realizar sua obra. É preciso retirar esses obstáculos que, por vezes, são muitos. Cito, por exemplo, o próprio orgulho, o ateísmo, a heresia, os substitutivos do amor de Deus como a ideologia, o chamado deus-sexo, o materialismo crasso, o poder, até a comida e a bebida, para quem não pratica a temperança. E, enfim, a droga. O amor de Deus é bloqueado pela droga, pois ela aliena, afasta de tudo. É terrível!

Finalmente, o pecado mais grave dentre todos é o pecado contra o Espírito Santo: não crer na misericórdia de Deus. Não há pecado que Deus não possa perdoar, a não ser quando se rejeita a misericórdia e o perdão, negando essa possibilidade. Então, ao encontrar o fechamento do coração, Deus não pode entrar, porque respeita a sua liberdade.

São Paulo recomenda aos Efésios: “Não entristeçais o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção” (Ef 4,30). Entristecer o Espírito Santo! Ele que é alegria, é amor, que é, enfim, a própria santidade, substituindo tudo isso pelas nossas veleidades, os nossos defeitos... Nada pode diminuir mais o ser humano do que tentar se colocar no lugar do próprio Deus!