Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

18/01/2008

 

O PADROEIRO DO RIO

      

A celebração da festa de um Padroeiro ultrapassa o terreno estritamente religioso. Costuma ser um fato cultural e assim atinge horizontes vastos e exerce influência benéfica e variada na formação de uma comunidade.

Esta comemoração, além do aspecto fundamental, nascido da Fé, contém valores de grande importância na preservação da identidade de um povo.

As solenidades a 20 de janeiro, dia de São Sebastião Mártir, fazem parte de nossas tradições. Esse santo tem sido a testemunha muda e eloqüente de toda uma história do Rio de Janeiro.

Valorizar este evento é dar à Cidade do Rio, cujos limites se identificam com os da Arquidiocese, um conhecimento maior de um significado e trazer através de seu exemplo, novas energias na direção de um futuro melhor.

Evidentemente, por se tratar de uma ocorrência religiosa, proporciona a abordagem, sob esse prisma, de assuntos importantes.

Inegavelmente, desde muito a Igreja vive dias difíceis, que exigem de seus fiéis atitudes e compromissos claros e corajosos. Já o Papa Paulo VI, na audiência de 4 de agosto de 1976, dizia: “O nosso tempo tem necessidade de empreender novamente a construção da Igreja (...). Construir a Igreja, isto é, a sociedade dos crentes, unidos pela mesma fé (...) e governado neste mundo por uma autoridade delegada, visível, humana, hierárquica, que recebe o seu poder (...) não da base, isto é, dos fiéis (...) tal poder deriva de Cristo”.

O Brasil não está fora desse quadro dramático, exposto pelo saudoso Papa. Vez por outra, há ensinamentos frontalmente contrários às diretrizes do Sucessor de Pedro.

Nestas circunstâncias, a figura de São Sebastião se impõe. Ela traz um oportuno exemplo de constância e intrepidez nas atitudes, de fidelidade à nossa Fé.

Ele é o  testemunho de coragem. Essa virtude é incluída, com o nome de fortaleza, no Catecismo da Doutrina Cristã, quando responde à pergunta sobre os dons do Espírito Santo. E acrescenta, ao tratar dos efeitos do recebimento do Paráclito, especialmente no sacramento da crisma: “o dom da fortaleza nos sustenta nos perigos, nos temores e tentações e nos faz triunfar das dificuldades que se opõem à nossa salvação”.

Como são freqüentes as reuniões e assembléias, em que as minorias têm a oportunidade de transformar-se em força coercitiva e demolidora. Um pequeno grupo, hábil em manobras, pode levar toda uma coletividade a assumir posições que lhe interessam. Reagir, por coerência à própria consciência ou à Fé, requer firmeza e até audácia. E isto é necessário em nossos dias com maior freqüência.

Torna-se necessário o testemunho de fidelidade. Com o relativismo subjetivista facilmente as verdades ensinadas pelo Magistério eclesiástico são deformadas. E os meios de comunicação social, em si veículos para o bem ou para o mal, caso sirvam a determinado projeto contrário à Doutrina, tornam-se poderosa pressão sobre muitos. Constroem uma atmosfera adversa, que exige grande discernimento e adesão ao mesmo Magistério, para resistir, principalmente em público.

Trago um exemplo: lemos, vez por outra, classificação de bispos, sacerdotes, religiosas e leigos como “conservadores” e “progressistas”. Dentro dessa perspectiva, chamam de “avançados” os que amam os pobres, dedicam sua vida à justiça social. Os outros, estão à margem dessa problemática ou se aliaram aos poderosos. Nada mais falso, errado e calunioso! A Igreja como tal defende os desprotegidos, prega o combate às injustiças, promove o bem-estar do homem como um todo. No entanto, muitos identificam com o amor aos desamparados os que seguem ideologias inaceitáveis e os demais como comprometidos com as estruturas injustas, embora sejam fiéis à Doutrina Social católica. Essas caricaturas são um válido instrumento para atacar a Obra de Jesus Cristo e prejudicar a pregação do Evangelho.

São Sebastião é um modelo de vida cristã, em meio a contradições, atribulada pela adesão destemida à Igreja. Como oficial romano, lembra a disposição para a luta, inerente a um autêntico militar. Sua vocação a isso conduz; sem tergiversar, enfrenta as adversidades, as ameaças à própria vida, não teme a morte. Vai além. Em vez de ficar em Milão, dirige-se a Roma, para animar os cristãos perseguidos. Assim, Santo Ambrósio, em seu “Comentário ao Salmo 118”, que lemos no Ofício das Leituras do dia 20 de janeiro, diz: “Sebastião compreendeu que aqui ou não haveria luta, ou ela seria insignificante. Partiu para Roma, onde grassavam severas perseguições por causa da Fé; aí foi martirizado, isto é, aí foi coroado”.

Essas virtudes, vividas até ao heroísmo por nosso Padroeiro, se fazem necessárias de modo particular nos dias atuais.

Nesta festa do Padroeiro, que deu admiráveis exemplos de coragem na prática da Fé e fidelidade à sã doutrina, pareceu-me certo relembrar aquelas palavras de Paulo VI sobre a situação da Igreja e incluir-nos nessa advertência. Ele, repetidas vezes, insistiu em dizer que o Concílio estava sendo desvirtuado por alguns, com graves prejuízos para a Igreja.

Uma certeza nos acompanha: a vitória, no final das tribulações! São Sebastião, morto, parecia derrotado. No entanto, está vivo em Deus, no coração de seus devotos, presente em nossa cidade e em muitas outras por esse imenso Brasil, que também o têm como padroeiro.