VOZ DO PASTOR

D. Eugênio de Araújo Sales

17/09/1999

 

Judeus e Cristãos

No início de uma longa peregrinação, feita por etapas, seguindo os passos do Apóstolo Paulo, a partir do lugar de sua conversão nas imediações de Damasco (At 22,6-11) encontrava-me em uma gruta no deserto da Síria. O então Núncio Apostólico naquele país, olhando o areal infindo, comentava: "Por essas paragens passou nosso pai na Fé, Abraão, vindo de Ur, na Caldéia, em busca da Terra Prometida". Era a rota das caravanas. Há uma única raiz, da qual procedem os judeus e os cristãos. Essa verdade nos deve levar a um mútuo entendimento que paira acima da diversidade entre a religião judaica e o cristianismo.

No entanto, atribuladas, por vezes, têm sido a convivência entre cristãos e israelitas. Convém lembrar que o fenômeno do anti-semitismo antecede o surgimento da Igreja ou com ela não se relaciona. Sem comparação, essa atitude por parte dos cristãos foi mais acentuada, por estarem envolvidos fatores teológicos, levando a errôneas conclusões. A mais grave é atribuir ao povo judeu a responsabilidade pela morte de Jesus e, como este é Deus, do homicídio passa a deicídio. Essa acusação é absurda e não fundamentada. Por todo o mundo então conhecido, espalhavam-se os descendentes dos Patriarcas, sem terem qualquer notícia dos fatos que ocorreram em Jerusalém, na Sexta-feira Santa. O pecado é pessoal e não coletivo. Outra afirmação destituída de veracidade é ser um povo errante, disperso pelo orbe terrestre, como portador de um castigo divino. Ora, a maior parte da população israelita no tempo de Cristo já não residia na Palestina. A diáspora judaica antecede de séculos a origem do cristianismo.

Para nós, católicos, o grande argumento contra o anti-semitismo é a Declaração "Nostra Aetate", do Concílio Ecumênico Vaticano II. Ela "recorda o vínculo pelo qual o povo do Novo Testamento está espiritualmente ligado à estirpe de Abraão" (nº 4)e de maneira incisiva indica aos fiéis as diretrizes que devem reger nosso comportamento neste assunto. Portanto, qualquer posição que fira essa orientação é colocar-se à margem da doutrina católica. Na sessão de 28 de outubro de 1965 recebeu essa Declaração 2.221 votos favoráveis, 81 contrários e 3 nulos. Foi solenemente promulgado pelo Papa Paulo VI.

O novo "Catecismo da Igreja Católica" (nº 839) orienta toda a Catequese na Igreja universal, da seguinte maneira: "A Igreja, Povo de Deus na Nova Aliança, descobre, ao perscrutar o seu próprio mistério, seus vínculos com o povo hebreu, "a quem Deus falou por primeiro". Ao contrário das outras religiões não-cristãs, a Fé hebraica já é resposta à Revelação de Deus na Antiga Aliança. É a este povo que "pertencem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto, as promessas e os patriarcas. Ele, de quem nasceu Cristo, segundo a carne (Rm 9,4-5), pois "os dons e o chamado de Deus são sem arrependimento." (Rm 11,29)

Declara ainda que os judeus não são coletivamente responsáveis pela morte de Jesus, nem devem ser apresentados como amaldiçoados por Deus, como se isso decorresse das Sagradas Escrituras (nº 597). A relação entre a liturgia judaica e a cristã pode nos ajudar a compreender melhor certos aspectos do nosso culto (nº 1.096). A Eucaristia, centro de nossa vida religiosa, lembra as bênçãos judaicas, a ceia do Senhor com os discípulos celebrando a Páscoa dos israelitas, a fração do pão, rito próprio da refeição do Povo eleito (nº 1.328). O pão e o vinho, na Antiga Aliança, oferecidos em sacrifício, são sinal de reconhecimento ao Criador (Nº 1.334).

Um caso, entre tantos outros, deve ser recordado ao tratar deste assunto. Refiro-me à visita do Santo Padre à Sinagoga de Roma, precisamente às 17 horas do domingo, 13 de abril de 1986 e acolhido calorosamente. Sua alocução pode ser resumida: um novo espírito de fraternidade e um mais profundo entendimento entre a Igreja e o Judaísmo. Ele afirma: "A visita de hoje quer trazer um decisivo contributo para consolidação das boas relações entre as nossas duas comunidades, no seguimento dos exemplos (...) de uma e outra parte para que sejam superados os antigos preconceitos e se dê espaço ao reconhecimento cada vez mais pleno (...) daquele "comum patrimônio espiritual" que existe entre judeus e cristãos" (nº 4).

O esforço por restabelecer a verdade dos fatos e suprimir as raízes de incompreensões que perduram por tantos séculos, gerações e gerações, exige continuidade e nobreza de sentimentos e um amplo sentido de perdão mútuo. Fundamental se torna a procura de bom relacionamento, antes de buscar descobrir falhas e proclamar acusações. Sem dúvida, em quase dois milênios de mágoas, há culpa de lado a lado, como conseqüência das limitações humanas de judeus e cristãos.

Infelizmente, o anti-semitismo registra aparições periódicas na História. Passado meio século do Holocausto, já surge, aqui e ali, um indesejável retorno do que deveria estar definitivamente sepultado. De outro lado, depois da exaltação da memória de Pio XII, após a sua morte, a obra "Der Stellvertreter" ("O Representante") vinda a lume em 1963, consegue lugar na mídia, para acusar injustamente a quem tanto fez pelos filhos de Abraão, em tempos tão difíceis, da Grande Guerra.

Graças a Deus, temos sólidos e eficazes instrumentos para nosso relacionamento, como, entre outros, a Pontifícia Comissão para o Diálogo Religioso com o Judaísmo. E, em escala bem menor, a Fraternidade Cristã-Judaica, que também se faz presente nesta Arquidiocese. Se é longo o caminho a ser ainda percorrido, consola verificar que é confortador o trabalho já realizado e, com a graça de Deus, promissor de muitos frutos.