VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

17 de Junho de 2008

 

O TRABALHO CRISTÃO


    

Apraz-me acentuar um dos grandes valores da vida humana, o trabalho, sobretudo o trabalho cristão, orientado segundo nossa fé e a moralidade que dela procede. Dentro desta perspectiva, observaremos como nasce o trabalho e como ele se posiciona em relação à dignidade humana.

A primeira imagem que temos de Deus é a do Criador que, além de dar o ser a todas as criaturas, zela por elas, a cada uma, como Pai providente. Ao homem e à mulher, Ele conferiu a missão de continuadores da sua obra: “Enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28). Isto significa que ambos, criados à imagem divina, jamais podem se tornar escravos das criaturas, ou se deixar atrair por elas, antepondo-as ao Criador.

Por esta razão, dizemos que o trabalho é condição essencial da vida humana. Isto aparece, claramente, no livro do Gênesis, antes da narração sobre o pecado: “Deus contemplou a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Certamente, este elogio destina-se, de modo particular, ao ser humano, que as Pessoas divinas parecem ter idealizado em conselho: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26).

Nas origens da história humana, o pecado foi o desregramento que desviou a finalidade do trabalho, e pesa sobre ele, até os dias de hoje. A Bíblia traduz isso pelas imagens de suor e cansaço, atividade espinhosa, que atinge a responsabilidade masculina de ganhar o pão do sustento, e a missão feminina da maternidade. Isto decorre da própria instabilidade, da falta de equilíbrio da pessoa humana.

Entretanto, o trabalho permanece como atribuição humana irrenunciável e, fundamentalmente, dignificante. O chamado homo faber, é o homem inteligente, que opera transformações no mundo criatural, de modo a torná-lo mais útil e propício ao desenvolvimento humano.

Dentro da perspectiva da nobreza do trabalho, podemos enumerar diversos modelos bíblicos de trabalhadores. Cito apenas três, porque são irrefutáveis. O primeiro é o próprio Cristo Jesus. Sua vida oculta, em Nazaré, permanece um mistério para nós. O que Ele terá feito, durante aqueles quase 30 anos de silêncio? Com certeza, trabalhou. Tendo aprendido a mesma profissão do seu pai adotivo, São José, foi mestre de obras em construção. Por isso, sempre considero a construção de casas, especialmente para que outros possam se abrigar, uma das mais nobres tarefas, a desempenhar com muita satisfação.

Assumindo a sua missão evangelizadora, o Senhor compara a própria obra à do Pai celeste: “Meu Pai continua trabalhando até agora, e eu também trabalho” (Jo 5,17). Sendo esse trabalho autêntico e fundamental, encontramos nesta frase ressonâncias tão profundas que, talvez, nem consigamos percebê-las todas. Observemos a repetição do verbo “fazer” nos textos seguintes: “Jesus andou por toda parte fazendo o bem” (At 10,38). Em outro lugar, Ele diz: “O meu alimento é fazer a vontade dAquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4,34). Na Última Ceia, ao se despedir dos Apóstolos, após três anos de convivência, Ele ora ao Pai: “Terminei a obra que me deste para fazer” (Jo 17,4).

Temos, também, o exemplo dos Apóstolos. Antes que Jesus os chamasse a segui-lo, todos trabalhavam em tarefas conhecidas: coletor de imposto, pescadores. Moravam perto do Lago de Genesaré, chamado Mar da Galiléia, onde realizavam sua pesca. O que eles menos faziam era dormir à noite, pois lançar as redes em águas mais profundas, num lago daquele tamanho, demandava toda uma jornada noturna. Eram trabalhadores simples, não ricos de posses, mas de alegria e entusiasmo em sua tarefa, pouco lucrativa.

Exemplo clássico do Apóstolo trabalhador é Paulo de Tarso, cujo bicentenário de nascimento começaremos a celebrar no final deste mês. Ele expõe claramente: “Vós mesmos sabeis: estas mãos proveram às minhas necessidades e às dos meus companheiros” (At 20,34). De fato, suas mãos, calejadas pela fabricação de tendas, lhe conferiam a autoridade do exemplo para exortar: “Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer” (2Ts 3,10).

Todo trabalho, para ser bom, tem que ser santificado, através da consagração a Deus de tudo o que fazemos. O trabalho não pode ser visto como um fim em si mesmo, mas como meio necessário para as metas que se quer alcançar. Dentre estas, as primordiais devem ser a glória de Deus e a promoção da humanidade. Somos conclamados a colaborar na obra da criação, aprimorando-a no sentido de conduzi-la à finalidade para a qual Deus a destinou. Assim, o aperfeiçoamento do que fazemos pode nos tornar melhores naquilo que somos, como seguidores do Evangelho de Cristo.

Além disto, há que se resguardar a dignidade do trabalhador. Os empregadores compreendam que vale muito mais a dignidade das mãos que trabalham, do que o fruto que elas produzem, o resultado que alcançam. Isto é sumamente importante, pois o trabalho que não eleva a pessoa é degradante, não apenas para quem o executa, mas também para quem o fornece.

A alegria é o maior segredo do trabalho. A pessoa que realiza suas tarefas com esta atitude coloca nelas maior interesse e dedicação. Evidentemente, não se pode esquecer a competência, que requer preparo e formação adequados. Nenhum trabalho admite erro, sobretudo aqueles dos quais dependem a segurança e a vida de outros.

Por isso, também é necessário cuidar do repouso. Ele serve para recuperar as forças, traçar rumos e melhorar o desempenho profissional. Acima de tudo, é um tempo para se dedicar a Deus e à família.

As condições de trabalho são fundamentais. Nenhum trabalho pode ser escravizante ou violador da consciência moral de quem quer que seja. O ambiente onde se trabalha precisa ser seguro e sadio.  Felizmente, a Medicina do Trabalho vem dando maior atenção a isto. O salário tem que ser justo e condigno, para a própria pessoa, para sua família e, possivelmente, para se poder ajudar, ainda, a comunidade. Aliás, este sentido comunitário é pouco acentuado no trabalho. Trabalha-se, também, para ajudar a comunidade.

Todos nós, Sacerdotes ordenados e leigos, estamos unidos no mesmo sacerdócio comum, recebido no Batismo. Por este dom divino, podemos e devemos fazer, de tudo o que somos e temos, uma oferenda a Deus, consagrando-lhe o nosso ser e a nossa vida. Peçamos que Ele nos conceda a graça de fazer pelo trabalho, sempre e somente, a sua Vontade, para a glória e a construção do Reino de Cristo. É este o ideal a ser atingido!