Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo
Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
15/08/2008
O ANO PAULINO
A 28 de junho último, foi solenemente aberto o Ano Paulino, comemorando os 2.000 anos do nascimento de São Paulo Apóstolo, que juntamente com Pedro e João, exerceu a maior influência na Igreja, corpo místico de Cristo. Nasceu em Tarso da Cilícia, na atual Turquia. Cidadão romano, por nascimento, e judeu, conforme suas próprias palavras: “mas fui educado nesta cidade (Jerusalém), instruído aos pés de Gamaliel, em todo o rigor da Lei de nossos pais e cheio de zelo pelas coisas de Deus” (Atos dos Apóstolos 22,3) e no fim da vida declara: “Ele (Cristo Jesus) não só destruiu a morte, mas também fez brilhar a vida e a imortalidade pelo evangelho, para o qual eu fui constituído pregador, apóstolo e doutor” (2 Tim 1,10-11).
Qual o objetivo do Ano Paulino? Em sua homilia por ocasião das primeiras vésperas da solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, o Papa Bento XVI declara: “Estamos, portanto, reunidos não para refletir sobre uma história do passado. Paulo quer falar conosco hoje. Por isso, quis proclamar este especial ‘Ano Paulino’: para ouvir e para aprender agora dele, como nosso mestre, ‘a fé e a verdade’, nas quais estão radicadas as razões da unidade entre os discípulos de Cristo”. O Santo Padre afirma: “É para mim motivo de profunda alegria que a abertura do ‘Ano Paulino’ assuma um particular caráter ecumênico pela presença de numerosos delegados e representantes de outras Igrejas e Comunidades eclesiais, que recebo de braços abertos. Saúdo em primeiro lugar Sua Santidade o Patriarca Bartolomeu I e os membros da Delegação que o acompanha, assim como o numeroso grupo de leigos que de diversas partes do mundo vieram a Roma para viver, com ele e com todos nós, estes momentos de oração e de reflexão”. A seguir, recordo uma experiência por mim vivida no ano de 1985 e que ajuda na celebração deste Ano Jubilar.
Era noite, quando cheguei ao aeroporto de Damasco. Iniciava uma peregrinação, seguindo os passos de São Paulo. Em vez de ir diretamente à Nunciatura, dirigi-me à parte antiga da cidade. E, a pé, caminhei pela Rua Direita, importante marco na história da difusão do cristianismo. Ainda hoje conserva o nome. Fui à porta da muralha por onde, cego, entrara Saulo, levado por seus companheiros. Segundo a tradição, fora naqueles arredores que, “caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo! Por que me persegues?’” (At 9,4).
Certamente por ali passara o grande Apóstolo. O fascínio de sua extraordinária personalidade perdura inalterado até hoje e assim será sempre, pois Deus o constituiu, com Pedro, pilar da Igreja.
Há séculos os israelitas estão estabelecidos neste trecho da Rua Direita, conforme me explicou o Núncio. “Levanta-te, vai à Rua Direita e procura, na casa de Judas, um homem chamado Saulo, de Tarso” (At 9,11). Da casa de Judas nada se sabe, mas a tradição indica a de Ananias. Entrei e rezei. Podia não ser exatamente aquele lugar, mas era certo que, nessa área, ocorreu um fato que repercute perenemente. Nas imediações, começou a vocação do grande pregador do Evangelho e teriam início os seus sofrimentos.
Em certa altura das muralhas, há um marco indicando o local da fuga, quando São Paulo desceu em uma cesta com auxílio de antigos perseguidos e, agora, irmãos na Fé: “Em Damasco, o etnarca do rei Aretas guardava a cidade dos damascenos, no intuito de me prender mas, por uma janela, fizeram-me descer em um cesto, ao longo da muralha, e escapei às suas mãos” (2Cor 11,32-33). Todo o cenário dá novo sabor e eficácia à leitura dos Atos dos Apóstolos e Epístolas paulinas.
A transformação operada em sua vida mostra o poder de Deus. Em meio às dificuldades, a nova conduta desse homem é de uma riqueza extraordinária e de uma atualidade excepcional. Tinha entranhas de misericórdia, como vemos no seu hino à caridade, no capítulo 13 da Primeira Epístola aos Coríntios, e revela ternura na sua Epístola aos Filipenses: “Foi grande a minha alegria no Senhor, porque, finalmente, vi florescer o vosso interesse por mim” (Fl 4,10). E, ao mesmo tempo, possui a firmeza do defensor da Fé. Ao excomungar o incestuoso de Corinto: “Já julguei, como se estivesse presente, aquele que assim procedeu. É preciso que, em nome do Senhor Jesus (...) entreguemos tal homem a satanás” (1Cor 5,3-5).
Ao proceder assim, não era menos bondoso que em outras circunstâncias onde avulta sua paciência e generosidade. Muito oportuno meditar estas atitudes pastorais; muitos nelas hoje se podem inspirar.
Ele exercia sua autoridade como serviço, sim, mas sem se omitir, fosse quais fossem as conseqüências. Essa coragem na condução dos fiéis, no governo daqueles que gerara em Cristo, merece uma profunda reflexão. Diante do perigo de perder a rota, inquinados por erros doutrinários, ele faz explodir sua indignação aos gálatas: “Ó gálatas insensatos, quem vos fascinou? (...) Sois tão insensatos que, tendo começado com o espírito, agora acabais na carne?” (Gl 3,1-3).
O dinamismo e a combatividade se unem à rapidez na ação: “Apressa-te, sai de Jerusalém (...) Vai ao longe, aos gentios é que eu quero te enviar (At 22,18.21). Ele imediatamente deixa tudo. É pregador itinerante de uma crença estranha à mentalidade em voga.
Nada o demove: “Somos atribulados por todos os lados, mas não esmagados; postos em extrema dificuldade, mas não vencidos pelos impasses” (2Cor 4,8). Ele mesmo faz impressionante relato dos riscos e dificuldades: “Muitas vezes vi a morte de perto (...) Trabalhos e fadigas, repetidas vigílias, com fome e sede, freqüentes jejuns, frio e nudez!” (2Cor 11,23-27). Por onde passava em nome de Cristo, não lhe faltavam obstáculos, nem esmorecia sua constância: “Apedrejaram Paulo e arrastaram-no para fora da cidade (Listra), tendo-o por morto. Mas, enquanto os discípulos o rodeavam, ele se ergueu e entrou na cidade” (At 14,19-20). Depois faz referência, em 2Tm 3,11-13: “Que perseguições eu sofri! E de todas me livrou o Senhor! Aliás, todos os que quiserem viver com piedade, em Cristo Jesus serão perseguidos”.
Nos dias de hoje, as tribulações do Apóstolo nos lembram a vitória de Cristo após o Calvário. Essa certeza fortalece o ânimo dos cristãos, no esforço de seguir, na fidelidade, os passos do Redentor. Voltarei ao assunto.
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