VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

15 de Abril de 2008

 

O BOM PASTOR

 

   

Continuando em clima pascal, acabamos de celebrar, neste 4ºdomingo, o Cristo Senhor ressuscitado, na figura do Bom Pastor. A classe dos pastores não era muito considerada em Israel, por ser composta de gente pobre, à margem das camadas mais privilegiadas da sociedade. Entretanto, o pastor é uma figura tradicional na Sagrada Escritura, seja em diversas passagens da Antiga Aliança, como no ensinamento do próprio Cristo, que atribui a si mesmo o título de Bom Pastor.

A imagem do pastor é, essencialmente, dinâmica. Trata-se de alguém que está sempre junto ao seu rebanho, conduzindo-o com carinhosa autoridade. O rebanho, por sua vez, é desnorteado por natureza. À cata de comida, aqui e ali, acaba enveredando por qualquer caminho, perdido em montanhas e vales, se lhe falta alguém que o pastoreie.

O Pastor busca as ovelhas e as reúne no aprisco. Vai procurar, também, a que esteja perdida, freqüentemente caída num abismo. A ela nada resta, a não ser fazer-se ouvir, lá do fundo de sua miséria, como nós rezamos no Salmo 129[130],1-2: “Das profundezas eu clamo a Vós, Senhor, escutai a minha voz! Vossos ouvidos estejam bem atentos ao clamor da minha prece!”

O Salmo 22[23] descreve o modo como o Pastor trata suas ovelhas, infundindo-lhes confiança na sua proteção. Além disto, proporciona-lhes alimento sadio e águas límpidas. Aconselho a todos que se encontrarem desanimados, deprimidos, a leitura orante das palavras confortadoras deste Salmo: “Em verdes prados Ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma” (Sl 22[23],2-3).

Há que prestar muita atenção, porque estamos, constantemente, sujeitos aos alimentos envenenados e às águas conspurcadas das ideologias, que infestam o mundo contemporâneo. Elas são fruto de posturas anti-eclesiais, que se colocam em choque com a verdadeira fé e em contradição com o que Jesus falou e fez. Espalham em nosso meio o veneno da heresia.

Os profetas também recorrem à figura do Pastor para exortar Israel ao reconhecimento do cuidado divino pelo seu povo (cf. Is 40,11; Jr 31,10; Ez 34, só para citar alguns). Deus proclama, no oráculo contra os pastores infiéis: “Vou tomar eu próprio o cuidado de minhas ovelhas, velarei sobre elas. Como o pastor se inquieta por seu rebanho, quando se acha no meio de suas ovelhas tresmalhadas, assim me inquietarei por causa do meu; eu o reconduzirei de todos os lugares por onde tinha sido disperso num dia de nuvens e de trevas” (Ez 34,11-12).

Passando aos Evangelhos, vemos que Jesus afirma, categoricamente, “Eu sou o Bom Pastor” (Jo 10,11). Ele procura a ovelha perdida com muito amor e coloca-a sobre os ombros, a fim de reconduzi-la ao redil. Esta imagem é retratada pela arte cristã, desde os tempos mais antigos do Cristianismo. Não há figura mais significativa do auxílio que o Senhor presta àquele que está ferido: física, emocional ou espiritualmente.

Depois, é interessante a descrição que o Evangelho faz da alegria do Pastor: “Voltando para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: ‘Regozijai-vos comigo, achei a minha ovelha que se havia perdido’”. E acrescenta: “Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um só pecador que fizer penitência do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15,6-7).

Confirmando o tema das antigas profecias sobre o cuidado do pastor pelo seu rebanho, Jesus acrescenta à Nova Aliança a radicalidade de sua missão: “Eu vim para que as ovelhas tenham vida e para que a tenham em abundância. Dou a minha vida pelas minhas ovelhas” (Jo 10,10-11.15). Nenhum outro pastor o fizera, até então.

Seguindo o Bom Pastor, assumimos sua trajetória. São Lucas descreve a missão de Cristo como um longo caminho, percorrido desde a Galiléia até à Judéia, do Rio Jordão do batismo até Jerusalém, culminando no Monte das Oliveiras. E tudo acontece ao longo dessa peregrinação: o anúncio do Reino e os atos salvíficos. É como que um símbolo da nossa vida, que São Lucas quer espelhar na vida do próprio Cristo. Ele caminha junto àqueles que O seguem.

Porém, durante o longo percurso da vida, quando as consolações escasseiam e o caminho se torna árido, as ovelhas se cansam. Então, prosseguir significa um grande empenho da vontade. Para nos alentar, Cristo oferece às suas ovelhas um alimento infinitamente superior às “verdes pastagens” do rebanho da Antiga Aliança. O Senhor nos dá seu próprio Corpo e seu próprio Sangue para ser nosso sustento, na Eucaristia.

O rebanho é coletividade. Um dos grandes esforços do Pastor é manter o rebanho unido. Infelizmente, ao longo da história do Cristianismo, houve fraturas na unidade. Hoje, a Igreja se empenha no ecumenismo, pela busca da verdade e a prática da caridade, para cumprir o desejo de Cristo: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10,16).

Quantos de nossos irmãos e irmãs encontram-se, ainda, distantes do verdadeiro rebanho - a Igreja de Cristo? O que pode trazê-los à unidade? O caminho mais seguro é a caridade afetiva e efetiva. Mas, em primeiro lugar, a união há que fundamentar-se na verdade. Não pode existir união falseando a verdade, limitando-a ou restringindo-a somente àquilo que nos interessa. Isto não é realmente irenismo, quer dizer, busca da paz. Tampouco reflete uma estratégia correta; é, antes, uma falha de metodologia essencial. 

A promessa do Senhor permanece: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18,20). Cientes disto, tenhamos o Cristo presente em todas as nossas iniciativas, em nossos lábios, em nossa inteligência mas, especialmente, em nossos corações, que se devem abrir de par em par, a fim de que esta seja a porta de acesso para quem se encontra distante da verdadeira Igreja.

Queira Deus que caminhemos, sempre, norteados pelas pegadas do Bom Pastor, mesmo chegando até à cruz. Naquele momento, saibamos reconhecer, ali, a síntese do amor do Pai por nós, manifestado em Cristo, pela atuação do Espírito Santo. Se os nossos passos estão ficando ensangüentados, é sinal de que trilhamos o caminho certo, que se faz sobre as pegadas tingidas do Sangue derramado por Cristo. Nada temos a temer, pois o Bom Pastor nos levará a habitar na sua casa, onde nos vai preparar a mesa do banquete, ungirá de perfume nossas cabeças e nos servirá taças transbordantes de alegria, paz e amor (cf. Sl 22[23]).