Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

15/02/2008

 

QUARESMA

  Na Quarta-feira de Cinzas teve início o período litúrgico denominado Quaresma. Essas semanas que antecedem a Páscoa preparam a comunidade cristã e cada fiel para celebrar a Ressurreição do Senhor. Os mais antigos vestígios desse tempo que precede a Redenção da humanidade pela morte e Ressurreição de Cristo, incluindo jejum, revividos cada ano, datam do século II. Uma referência clara e formal aparece no Oriente, no princípio do século IV e, no Ocidente, no fim da mesma centúria. Já então a estrutura era de 40 dias, nos quais se inserem a prática penitencial, a reconciliação dos pecadores e o batismo dos catecúmenos.
  A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II fez sobressair essas características do mais remoto costume. Assim, é dado o relevo na liturgia à Palavra de Deus, à oração, à penitência e às obras caritativas. A Constituição “Sacrosanctum Concilium” (nº 1009) afirma: “Quanto à catequese, seja inculcada nas almas dos fiéis, juntamente com as conseqüências sociais do pecado, a natureza própria da penitência, que detesta o pecado, como ofensa feita a Deus”. A Campanha da Fraternidade, iniciada na Arquidiocese de Natal em 1962 e, hoje, estendida a todo o Brasil pela Conferência Nacional dos Bispos, tem aí suas raízes. “As conseqüências sociais do pecado” são objeto de reflexão, cada ano sob um ângulo especial, acrescido de uma coleta destinada ao atendimento à Pastoral. Para este ano de 2008 o tema é “Fraternidade e defesa da vida”, com o lema: “Escolhe, pois, a vida” (Dt 30,19).

   Obedecemos à orientação de São Paulo, na Epístola aos Romanos (8,12): “Participamos dos sofrimentos de Cristo, para participarmos também de sua glória”. De acordo com essa determinação, a Igreja prescreve, nesse período que antecede a Semana Santa e o Tríduo Sacro (de Quinta-feira Santa à vigília do Sábado da Ressurreição), obras penitenciais, especialmente o jejum e a abstinência de carne na Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa, além de atos apropriados ao espírito de cada sexta-feira, também em todo o ano.

  Muito útil meditar sobre esses aspectos da Quaresma. A leitura mais assídua da Sagrada Escritura, refletindo sobre ela e relacionando-a com nossa vida cotidiana. Diante da enxurrada dos exemplos negativos que se nos antepõem a cada dia e repetidas vezes, a Palavra de Deus lida e ouvida religiosamente exerce grande influência sobre nosso comportamento e na formação de nosso julgamento sobre o que ocorre em derredor. A oração mais assídua nos põe à disposição a força de Deus, que prometeu atender às súplicas de seus filhos. A recitação do terço, preferencialmente em comum, no recesso do lar, opera maravilhas em favor da família. Numa atmosfera eivada de convites a uma vida em desacordo com os mandamentos do Senhor, a prece freqüente e fervorosa é um antídoto eficaz e nos assegura a sobrevivência. O jejum e outras formas de mortificar nossa tendência ao prazer, fortificam a vontade e nos asseguram a fidelidade no cumprimento das normas do Evangelho. Saber dizer “não” ao que é permitido, fortalece a resistência necessária quando o que nos é proposto fere as determinações divinas. A restrição voluntária nos garante e facilita igual atitude diante do proibido. A prática de ações caritativas nos faz caminhar segundo os conselhos divinos. Há uma imensa variedade de atos que nos enobrecem, desde a solidariedade com os materialmente necessitados, como até um simples gesto de acolhimento diante de alguém que sofre pelo isolamento, a tristeza e abandono. Um sorriso, especialmente em certas circunstâncias, vale mais que o dinheiro para o carente.
  A Quaresma é, assim, uma ocasião de renovar e robustecer a vida cristã em um mundo dessacralizado e longe de Deus. Nós sabemos o que fazer, mas falta-nos a decisão de nossa vontade. Esse período do ano nos oferece uma oportunidade para crescer espiritualmente. Vale a pena tentar. Aumenta a importância desse tempo, segundo a medida em que avança a busca do prazer a qualquer custo e o hedonismo cresce em uma sociedade paganizada. Penso no papel do fermento que é inerente à vida cristã. Um punhado de discípulos conseguiu se espalhar por todo o mundo, após a morte de Cristo, levando aos quadrantes da terra uma mensagem oposta ao clima reinante. Recordemos a ordem do Senhor: ”Ide e ensinai a todos os povos” (Mt 28,19). É trágico verificar que são milhões os que se afastaram do Cristo ou o ignoram. Essa constatação, longe de nos levar ao desânimo, deve ser um apelo para a nova evangelização, à qual todos nós somos chamados. A novidade está no modo de apresentar a mensagem de Jesus aos homens de hoje. O conteúdo permanece inalterável.
  O tempo quaresmal é uma espécie de retiro anual, purificando comportamentos, fortificando vontades, dispondo os fiéis para um renovado esforço no afervoramento da vida cristã. Assim, predispostos para as celebrações pascais, todos participarão das riquezas que nos são oferecidas cada ano, por ocasião da Páscoa do Senhor.
  Essas considerações parecerão, para uns, inoportunas; para outros, inexeqüíveis, ou, ainda, merecerá apenas o silêncio como resposta. No entanto, a missão de todos nós é anunciar Jesus Cristo, dizer que ele é nossa salvação. Ser santo em um mundo adverso é possível. E vale a pena tentar! A alegria que se obtém, mesmo em meio à tribulação, é um sinal de Deus na vida de seus filhos.