VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

13 de Maio de 2008

 

O ESPÍRITO SANTO

 

   

Em primeiro lugar, transmito minha saudação às queridas mamães pelo seu Dia, celebrado neste último domingo. Na coincidência desta celebração com a Solenidade de Pentecostes encontramos um ponto fundamental em comum: a manifestação do amor de Deus por nós. Na Santíssima Trindade, o Amor entre o Pai e o Filho é uma Pessoa - o Espírito Santo. Analogamente, em nossas famílias, existe alguém que promove a união de amor entre todos os seus membros - as mães. Portanto, a todas elas, de nossa Arquidiocese e de todo o Brasil, e em memória de minha falecida mãe, dedico o texto desta semana.

Refletir sobre o Espírito Santo é uma necessidade, um dever para mim, e para todo cristão. Pentecostes é uma das maiores festas litúrgicas, que conclui o ciclo pascal, cinqüenta dias depois da Ressurreição de Jesus. Daí o seu nome, que significa “qüinquagésimo dia”. Era a festa da colheita do trigo e das primícias, oferecidas no templo. No Hemisfério Norte, ocorre em tempo de primavera. Por isso, também está associada à abundância de flores.

Na Sagrada Escritura, a Bíblia nos apresenta o Espírito Santo, principalmente, através do seu modo de agir. Jesus no-lo revelará como Pessoa trinitária, quase ao final do seu ministério público. Entretanto, segundo os textos inspirados, o divino Espírito já estava presente na criação. Sobre a massa informe e confusa, que os textos primitivos descreviam como anterior à criação, manifestou-se a ação do Espírito Santo, estabelecendo a harmonia e a ordem (cf. Gn 1,2). O Livro das Origens descreve o contentamento divino: “Deus [ao final da criação] contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31).

Os profetas também foram plasmados pela inspiração divina do Espírito, que os impulsionava, e neles infundia coragem e energia. Embora não fossem figuras importantes ou poderosas, sua palavra, freqüentemente, desagradava ao público e às autoridades da época, tanto temporais quanto religiosas. Por isso, eram mal vistos e perseguidos por todos. Ainda assim, nunca recuaram diante da força da verdade.

Exortaram com autoridade, sem reticências, e predisseram as obras que o Senhor iria realizar para o seu povo, especialmente o cumprimento da promessa messiânica. Para tudo isso é preciso ter a inspiração do alto, que o Espírito Santo dava aos profetas, em toda a abundância.

Na vida do Cristo o Espírito Santo aparece desde a sua concepção. Como ato pessoal do Amor de Deus, enviado pelo Pai, Ele gera o Filho divino no útero sagrado de Maria. Esta concebe pela força desse Amor, sem relacionamento humano, para dar à luz a Verdade eterna que o Pai quis nos revelar. Este é um grande Mistério, que anunciamos pela fé, mas não podemos explicar.

O próprio Jesus foi guiado pelo Espírito no cumprimento de sua missão pública, inaugurada a partir do batismo recebido de São João Batista. Na teofania daquele momento, aparece o Espírito Santo, em forma de pomba, pairando sobre o Filho, como que a revelar a presença permanente e suave da Terceira Pessoa, na ação evangelizadora de Cristo. A seguir, o Espírito o impele a passar 40 dias no deserto, experiência que Ele voluntariamente assumiu, como preparação à sua vida pública (cf. Mc 1,12-13 e paralelos).

Os seguidores de Jesus - apóstolos, discípulos e seus fiéis amigos até os dias de hoje – sempre foram conduzidos pelo Espírito Santo. Em primeiro lugar, para entenderem melhor a palavra de Jesus. Os próprios textos evangélicos refletem o modo como o Espírito inspirava seus autores, para dizerem o que era mais conveniente. Além disso, o Espírito os preparou para o testemunho que seriam chamados a dar, seja no jeito próprio de cada um anunciar o que tinha aprendido do Senhor, seja na confirmação da Verdade, com o derramamento do próprio sangue. Assim, a palavra “martírio” significa o mesmo que “testemunho”, em grego.

Essa perseverança e fidelidade a Cristo são suscitadas e garantidas pelo dom do Espírito: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça”, pois “eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” através do “Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, para vos ensinar todas as coisas e vos recordar tudo que vos tenho dito” (Jo 15,16 ; Mt 28,20 ; Jo 14,26).

Recordemos alguns símbolos, que nos aclaram sobre a ação do Espírito Santo, e sua presença em nós e nas nossas comunidades. O primeiro símbolo é a pomba, sinal da presença divina, operante de forma pacífica, serena e silenciosa, a própria paz de Deus a pairar sobre Jesus.

O ar aparece muitas vezes nas Sagradas Escrituras, como símbolo do sopro de Deus. Pode ser tão suave, que o respiramos sem mesmo notar, mas alenta, constantemente, a nossa vida. Quando o Espírito Santo nos conduz para que falemos aquilo que Deus quer, sopra com mais força. E se devemos anunciar verdades que desafiam os ditames habituais das coisas do mundo, mostrando-se contrárias ao que a maioria pensa e faz, o vento divino se torna mais forte, quase uma tempestade, como o tufão no dia de Pentecostes.

O símbolo mais marcante do Espírito é o fogo. Ele é capaz de operar grandes transformações em todas as coisas que a ele estiverem submetidas. As línguas de fogo, que pairaram sobre os fiéis, reunidos no Cenáculo, são o símbolo dessa ação forte, estimuladora de uma conversão total dos discípulos de Jesus.

Logo se viu neles o resultado. Pedro é um claro exemplo disto. Todas as vezes que se deixou guiar pelo próprio senso humano, só disse palavras inadequadas. Por outro lado, sob a ação do Espírito, proferiu os mais belos testemunhos, como atestam seus discursos no Atos dos Apóstolos, e ainda junto a Jesus: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68). “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!” Ao que Jesus responde: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16,16-17).

Definir o Espírito Santo é impossível, pois definir significa circunscrever com palavras. Mas podemos enumerar seus títulos. Jesus o apresenta como nosso Mestre, Advogado e Consolador nos momentos difíceis: o Paráclito. Podemos, ainda, distinguir os efeitos de sua ação, conforme São Paulo assinala: “O fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança” (Gl 5,22-23).

Assim como as boas árvores oferecem frutos saborosos, assim também encontramos tais qualidades nas pessoas santas, que Deus nos concede encontrar ao longo de nossa vida, a começar por nossas próprias mães. Quantas têm sido provedoras desses maravilhosos frutos, como árvores generosas no seio de suas famílias!

A todas elas envio a bênção divina, da qual sou mediador, como Sacerdote de Cristo. Peço-lhes, também, a bênção como doadoras do amor de Deus para a humanidade.