VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
12 de Agosto de 2008
A IMPORTÂNCIA DA PASTORAL DO MENOR NA NA
SOCIEDADE E NA IGREJA
Esta semana, quero voltar ao tema da Pastoral do Menor, por se tratar de uma iniciativa que trago muito a peito, desde o início do meu Ministério Sacerdotal, quando tive a alegria de dirigir uma obra social que atendia mais de 500 crianças.
Além disso, trata-se de uma Pastoral de atuação destacada, envolvendo a participação de outras pastorais e entidades, que integram a chamada Pastoral da Caridade Social. Neste campo, a tarefa da Igreja é irrenunciável, uma vez que nasce diretamente da exortação de Jesus no Evangelho: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40). Pequenino é o carente, o de tenra idade e, até, o marginalizado.
Como a Pastoral do Menor é muito ampla, abrangendo o menor infrator, ela supõe a colaboração entre a Federação, o Estado e o próprio Município. Requer, também, o auxílio de entidades civis de grande porte e publicamente reconhecidas pela sua idoneidade e competência. Aqui apontamos, particularmente, os empresários católicos e cristãos, em geral, que têm o dever de se debruçar sobre o que fica, por vezes, à sombra das nossas estruturas sociais.
Efetivamente, a urgência dos problemas nessa área clama pela integração de todas as forças da sociedade, sem o quê será impossível solucioná-los condignamente. Daí a importância dos convênios, co-responsavelmente assumidos e executados. A sociedade tem que se engajar, a Igreja tem que inspirar e, talvez até, impulsionar, mas as realizações, em si, competem aos próprios governos. A eles cabe a responsabilidade final sobre os menores desassistidos. A Igreja exerce aí um papel de suplência.
O trabalho na Pastoral do Menor requer sensibilidade para com o sofrimento das crianças e adolescentes. Sensibilidade ativa, que se torne solidária. Não solidariedade aqui ou acolá, com esse ou aquele, fruto de ações isoladas. Mas solidariedade como um todo, um espírito de motivação que é preciso ter, antes de se implementar qualquer planejamento, verdadeiramente eficaz.
Assim também, a consciência da justiça deve iluminar todos os nossos propósitos. Justiça não só quanto aos direitos, mas também quanto aos deveres. Isto inclui os deveres da família, da escola, das instituições de promoção humana, dos órgãos da saúde. Enfim, são todas áreas muito amplas e exigentes, cada uma em si e no todo.
A Pastoral do Menor sempre se desenvolveu graças, principalmente, à atuação das lideranças voluntárias, às quais somos profundamente gratos. Não cessamos de convocá-las, para enfrentarmos juntos os desafios atuais e futuros. Os adolescentes são, por vezes, chamados para assumir a responsabilidade pela sua própria Pastoral. Essa missão prematura não dá bons frutos. Por outro lado, não se quer a passividade. Que eles promovam a Pastoral, que se integrem, apresentem sugestões e participem ativamente do trabalho, este é o ideal que aprovamos e assumimos com eles, e não só por eles.
Graças a Deus, jamais deixamos de contar com muitos voluntários, especialmente mulheres, para este trabalho de assistência, que deve se estender à formação e se realizar na vida e no agir das crianças e jovens atendidos. Nossos voluntários são bem preparados para assumir sua missão. Fundamentam-se nos princípios evangélicos e no conhecimento das diretrizes que a nossa Constituição Federal estabelece quanto aos deveres da família, da sociedade e do Estado para com a criança e o adolescente (Artigo 227) e do próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº8069 de 13 de julho de 1990). Seu conteúdo é integrado ao trabalho da Pastoral do Menor. Este é o princípio que estabelece a diferença entre uma Pastoral efetiva e eficaz, e um conjunto, apenas, de belas palavras e ideais, dentro do universo da caridade social.
Tratando-se de crianças e adolescentes, nosso olhar se volta, primeiramente, para a família, cuja Pastoral precisa estar unida e integrada à Pastoral do Menor. Entretanto, este é um ideal ainda não plenamente atingido em nossa Arquidiocese. Tampouco se pode negligenciar o apoio ao Conselho Tutelar, que atua, exatamente, nesta área, a fim de que sejam eleitos bons representantes, que se devotem com empenho a esta causa.
Faço, ainda, referência ao nosso 10º Plano de Pastoral de Conjunto. Este Plano levou mais de um ano para ser elaborado, com a participação de quase todas as lideranças das nossas comunidades: paróquias, de modo especial, representantes do clero e do laicato engajado nas mais diversas áreas de atuação. O 10º PPC congregou o melhor de nosso planejamento e esforços conjugados para se tornar a diretriz de nosso trabalho pastoral.
Norteamo-nos, também, pelas orientações da CNBB, cujo planejamento nunca deixa de contemplar a Pastoral do Menor com valiosos subsídios. A co-participação naquela Conferência nos oferece meios de conscientização sobre a nossa realidade, e a capacitação para desenvolver um trabalho melhor, tendo como nosso primeiro ponto de apoio o Evangelho, através da atuação da Igreja, que dele haure sua própria força e consistência.
Há que traçar um esboço realístico da cruel situação em que se encontram muitas de nossas crianças e adolescentes: abandono pelos pais, exploração sexual, dependência química, trabalho pesado e precoce... Antes mesmo do nascimento, já sofrem ataques à própria vida. Este é um risco gravíssimo, que surge a partir das políticas a favor da matança de inocentes: o descuido pela mãe gestante e pela criança que está se desenvolvendo no útero materno, devido às precárias condições de saúde e, até, a inaceitável defesa da prática criminosa do aborto.
Depois do nascimento, ronda o perigo da desnutrição. A Pastoral da Criança da Igreja Católica, através de parcerias e com o auxílio do voluntariado, conforme já acentuamos, vem desenvolvendo um trabalho inestimável de assistência à infância. Cabe ressaltar o mérito da Dra. Zilda Arns, cujo empenho e competência têm obtido expressivos resultados na redução da desnutrição e da mortalidade infantil em nosso país.
Para os mais velhos, as iniciativas visando à integração social também têm se mostrado eficazes como, por exemplo, escolas profissionalizantes, cursos de computação, prática de esportes, formação artística na área da música e das artes plásticas. Acima de tudo, uma evangelização que se fundamente no testemunho e no acolhimento.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro formou um Conselho para dirigir a Pastoral do Menor. Não bastam uma ou duas pessoas, ainda que tenham o carisma. É preciso juntar as competências de pessoas com grande capacidade - liderança, proeminência social, formação cultural – movidas pela caridade fraterna, para podermos dar aos adolescentes e às crianças aquilo a que elas têm direito, na medida em que nos for possível. Para atingir estes objetivos é que estamos reestruturando nossa Pastoral do Menor. Reafirmo que esta é uma questão prioritária para nós, tanto do ponto de vista do menor prazo possível, quanto da seriedade dos nossos propósitos. Que Deus nos conduza e ajude!
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