Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

11/07/2008

 

O PASSADO E O PRESENTE NA IGREJA

  

   

A História não se repete: ela é construída pelo homem, que é livre. Contudo, é mestra e preciosos são seus ensinamentos.

Muito útil aos cristãos contemporâneos, vivendo em meio a turbulências, ao sentir-se desnorteados, relembrar dois períodos – o passado e o presente - que ajudam na compreensão dos problemas atuais. E, assim, reduzir às suas verdadeiras dimensões as dificuldades eclesiais de nossos dias.

No Natal de 1969, o então Professor Joseph Ratzinger, pronunciou uma erudita conferência. Nela, interrogou o futuro e buscou, no passado, explicações para o presente. Seu estudo se aplica, ainda hoje, à nossa realidade e merece uma reflexão dos fiéis sobre a similitude entre a conjuntura hodierna e o iluminismo, além do modernismo, correntes de pensamento que exerceram profunda influência nos séculos XVIII, XIX e XX.

Ao morrer Pio VI, prisioneiro em Valence, França, raptado em decorrência da Revolução Francesa, um dos dirigentes da República esperava que ficasse sem sucessor o Trono de Pedro: o fim, portanto, do Papado. A situação religiosa era semelhante, em vários aspectos, à nossa. Dizia o futuro Papa Bento XVI: “O iluminismo tinha seu movimento episcopal em oposição a um centralismo unilateral de Roma. Queria salientar a importância dos bispos. Ele tinha seus componentes democráticos. (...) Exige-se a eliminação do celibato” (“Fé e Futuro”, pág. 70).

Lembro ainda que o Sínodo de Pistóia, Itália, reunido em 1786, com 234 bispos, e condenado por Pio VI em 1794, propugnou por teses iguais a certas correntes teológicas em voga no momento.

A analogia com aquela época, na Alemanha, está resumida na seguinte citação: “O sacerdote deveria ser, sobretudo, assistente social e servir à construção de uma sociedade racional, purificada de irracionalismos” (Idem, pág. 72).

Poderia multiplicar os exemplos. Entretanto, para simples referência, é o suficiente.

A crise do modernismo perdura, apesar do rude golpe aplicado por Pio X, com a encíclica “Pascendi”, de 8 de setembro de 1907. O nome “modernismo” encobre uma variedade de proposições, cujas raízes mergulham no liberalismo do século XIX. Incluía o conceito de “Igreja” em relação à ordem política e social; a renovação da teologia e exegese; o tipo de inserção da pastoral no mundo; a atualização das instituições eclesiásticas. Ao lado de aspectos positivos, essa corrente de pensamento, condenada pela Santa Sé, induzia ao esvaziamento do conteúdo da mesma Fé. Predomina a ambigüidade, como hoje. Na França, as conseqüências foram desastrosas, de modo particular, para o clero jovem.

No modernismo, havia o que vemos atualmente: a pretensão de permanecer na comunidade eclesial, com a esperança de reformá-la, a partir do interior. Essa expectativa terminou com a “Pascendi” e quase todos se submeteram.

A afirmação de que, nos dias de hoje, há fatores novos que anulam qualquer comparação histórica vem apenas corroborar as semelhanças. Eles também diziam o mesmo.

Estas rápidas alusões a fatos de ontem são importantes. Eles fortificam a certeza dos fiéis na perenidade da Igreja e os conduzem na busca de remédios que ajudem a superar as dificuldades hodiernas.

O brilho e o vigor da vida religiosa, em muitos países; a pregação da Palavra de Deus em todos os quadrantes da terra; a força moral, ímpar na Humanidade, dos últimos Romanos Pontífices; a ação visível do Espírito Santo, através do Concílio Vaticano II, geram ilimitada confiança, dando-nos a serenidade que tem seu fundamento na promessa do Redentor.

Entre nós, há um elemento de grande valia para nos assistir. Além de seus pronunciamentos durante viagens ao Brasil, o Santo Padre João Paulo II traçou, para nós, um roteiro seguro. Deu diretrizes claras que, obedecidas, nos guiam tranquilamente, através das turbulências do momento.

Após receber os bispos do Brasil em visita “ad limina”, em 1980, falou com cada um, ouvindo a todos, colhendo informações e registrando impressões, João Paulo II enviou-lhes uma carta pessoal, em 10 de dezembro do mesmo ano. Nela, enfatizou com vigor a missão essencialmente religiosa da Igreja: “Através de minha viagem ao Brasil, eu quis reafirmar a convicção primeira, profundamente enraizada em meu espírito, de que a Igreja é portadora de uma missão essencialmente religiosa. E, cumprir essa missão, é seu dever prioritário”.

O outro ensinamento que nos deve nortear é que a Igreja de Cristo, instituição de salvação, tem por encargo dar testemunho da Fé. Nenhuma contingência histórica a exime dessa responsabilidade: “(...) a Igreja perderia sua identidade mais profunda – e, com a identidade, a sua credibilidade e a sua eficácia verdadeira em todos os campos – se sua legítima atenção às questões sociais a distraísse daquela missão essencialmente religiosa que não é primordialmente a construção de um mundo perfeito, mas a edificação do Reino, que começa aqui, para manifestar-se plenamente na parusia”. Muitas outras instâncias têm o objetivo, o dever e a capacidade de promover o bem-estar social e a justiça. Contudo, nenhuma urgência ou desejos pessoais podem dispensar os Pastores, mesmo temporariamente, da tarefa que é sua, a qual têm direito de exigir-lhes os fiéis de hoje: “A Igreja cometeria uma traição ao homem se, com as melhores intenções, lhe oferecesse bem-estar social, mas lhe sonegasse ou lhe desse escassamente o que mais aspira (por vezes, até, sem o perceber), aquilo a que tem direito, que espera da Igreja e que só ela lhe pode dar” (Carta de João Paulo II aos Bispos do Brasil).

Assim, quando o católico se sente confuso e atordoado, lembre-se das lições da História. As dificuldades também existiram ontem e foram vencidas. Além disso, o Sucessor de Pedro sempre nos ajuda a ver claro o caminho certo. Dependerá apenas de nós mesmos permanecer nele e superar os problemas, com a graça divina.

O Santo Padre quer a prática religiosa comprometida com a realidade, mas determina que a inserção no mundo tenha como base e motivação a nossa fé, evitando tudo que seja incompatível com ela. Somente assim construiremos o Reino de Deus.