Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

11/04/2008

 

REZAR PELAS VOCAÇÕES

       

O Papa Bento XVI enviou uma Mensagem por ocasião dos 45º Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Ocorre a 13 de abril, 4º domingo de Páscoa, e tem como tema: “As vocações a serviço da Igreja – Missão”.

Antes de subir aos céus, o Senhor Jesus deixou um mandamento aos apóstolos. “Toda autoridade sobre o céu e sobre a terra me foi entregue. Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulas (...) ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28,19-20). Jesus está presente nos discípulos aos quais confiou a missão de evangelizar.

O Concílio Vaticano II, no decreto “Ad Gentes”, ensina: “Cada discípulo de Cristo tem sua parte na tarefa de propagar a fé” (nº 23). E o Papa João Paulo II enfatizou: “A vocação especial dos missionários ‘ad vitam’ conserva toda sua validade, representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja que sempre tem necessidade de doações radicais e totais, de impulsos novos e corajosos” (“Redemptoris missio”,66).

Todo católico que ama realmente a Igreja busca incentivar o recrutamento dos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa. E, paralelamente ao número, preocupa-se com o aprimoramento da qualidade na formação dos que se consagram ao altar e ao serviço da evangelização dos filhos de Deus, daqueles que, livre e conscientemente, renunciam ao que de legítimo, poderiam usufruir deste mundo, como cristãos, para ingressarem, mediante juramento irrevogável, no trabalho exclusivo do Senhor.

Em 1997 foi o tema central desta jornada: “Uma adequada Catequese Bíblica para uma Pastoral Vocacional mais incisiva”. A mensagem, assinada pelo Santo Padre, era datada de 28 de outubro de 1996. O Papa se dirigiu de modo particular “aos responsáveis e animadores da Pastoral Vocacional, aos jovens e às jovens em busca do que Deus quer deles e a todos os chamados à especial consagração”.

A orientação que o documento dá a seus destinatários, - praticamente todos nós – é incluir, na catequese bíblica, a Pastoral Vocacional. Assim, os relatos contidos na Sagrada Escritura sobre a vida de tantos personagens a quem o Espírito chamou e deu uma missão em favor do seu Povo, ajudam os que, hoje, são convocados por Deus para objetivos tão elevados.

A escuta da Palavra de Deus, na Bíblia, abre o coração ao convite do Senhor para abraçar uma vida de especial consagração evangélica. Este convite se reveste de um aspecto eclesial. O bem-estar do indivíduo, que pode ser encontrado na constituição de uma família, é colocado no altar da renúncia, “um dom total de si à causa do Reino” (Mensagem, nº 4). Para quem não tem Fé, essa dimensão transcendente permanece ininteligível.

Os catequistas são convidados, de modo particular, a propor, em suas aulas, a coragem para abraçar o sacerdócio ou a consagração religiosa, missionária. Faltou exatamente essa disposição ao homem rico (Mc 10,17-22): “Fitando-o, Jesus o amou e disse: (...) Vem e segue-me (...). Ele, porém, contristado com esta palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens”. Cabe ao catequista explicar as lições dessa passagem aos seus alunos. Isto é de grande proveito para mostrar a relação entre Deus que chama e o homem, que deve atender a este convite.

O documento pontifício enumera outro valor ao incremento vocacional: a alegria manifestada pelas pessoas que se consagram ao serviço do Reino. Um padre feliz, uma freira que, por seus atos, demonstra ser uma pessoa realizada, é uma pregação viva e convincente da grandeza da vida sacerdotal e religiosa.

O Dia Mundial de Orações pelas Vocações não se restringe a um momento no ano. Trata-se de iluminar o trabalho e estimular os esforços para uma atividade permanente. Na Arquidiocese do Rio de Janeiro, como em muitas outras, a Comissão de Pastoral Vocacional age, sem interrupção, e colhe frutos. Este ano, os Seminários da Arquidiocese do Rio de Janeiro contam com 140 seminaristas.

Quando era Arcebispo do Rio, em uma Quinta-feira Santa, presidindo a Missa do Crisma concelebrada pelo Clero, propus uma meta a ser alcançada: a ordenação de quinze padres anualmente. Com alegria, já em 1995 ordenei 22 novos presbíteros.

Esses dados não são excepcionais. No Brasil, espero haver dioceses que, proporcionalmente, superem essa cifra. E no mundo, as últimas estatísticas publicadas pela Santa Sé revelam uma permanência, embora moderada, na retomada do crescimento de ordenações presbiterais. Há nações, especialmente do Primeiro Mundo, onde perdura a crise. Os dados são os seguintes: o número total de sacerdotes em 2005, era de 406.411. Continuava a aumentar o número de seminaristas, na Filosofia e na Teologia e, ainda em 2005, eram 114.439. Comparemos estas informações com as notícias sensacionalistas periodicamente divulgadas contra o celibato sacerdotal.

Não somente a prece pelos padres, religiosas, pessoas consagradas a Deus e candidatos é estimulada na celebração deste Dia Mundial. Ele nos leva a melhor conhecer a dignidade que envolve quem oferece todo o seu ser ao Senhor. Esse ato possui um significado da mais alta relevância em um mundo cujos horizontes se circunscrevem aos estreitos limites do temporal. Tais pessoas passam a ser um sinal do sagrado e um apelo à valorização do transcendente.

Outro aspecto a considerar é a missão que desempenham, pela palavra e pelo exemplo. Mesmo a vida contemplativa, aparentemente distanciada dos indivíduos, num ambiente alheio à comunidade, exerce notável e benéfica influência. À fonte de água pura acorre quem é vítima da poluição moral que nos circunda. Pensemos em uma paróquia, uma comunidade religiosa e no imenso bem que irradiam, mesmo junto aos que não têm fé.

Por estas razões, a presença do sacerdote, o número suficiente, a qualidade exigida, interessa não apenas à Igreja, mas a toda a sociedade civil.