VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
10 de Junho de 2008
O CORAÇÃO DE JESUS
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Encerramos o mês de maio, celebrando a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Todo o mês de junho é, tradicionalmente, dedicado a esta comemoração. Portanto, é tempo oportuno para voltarmos a refletir sobre o infinito amor de Deus, que brota do Coração aberto do Cristo Senhor e o culto para com Ele.
É interessante iniciarmos com uma visão antropológica do que seja coração. Fala-se muito de coração, freqüentemente com um ranço de pieguice sentimental. O coração, de fato, no seu simbolismo mais denso, distingue a nobreza de sentimentos de uma pessoa e sua grandeza de atitudes. A consciência das próprias limitações nos obriga a ter o coração aberto às carências dos outros, dedicando-nos, sobretudo, aos mais fracos, humildes e pequenos. Dentre estes, encontram-se os abandonados pela sociedade, os doentes e, até, as crianças, inclusive as que estão por nascer. Há que se considerar tudo isto, para entender um pouco melhor a profundidade do mistério do Coração de Cristo.
A mentalidade bíblica, segundo a tradição judaica, não trata do coração como mero órgão físico. Esta é, aliás, a sua acepção menos importante. A Bíblia considera o coração (leb-lebab) como centro de nossas faculdades espirituais, sede dos pensamentos e da reflexão, da vontade e das nossas decisões, aquilo que, normalmente, consideramos inteligência.
O cérebro, na época da Antiga Aliança, não era tido como centro destas funções. Nossa linguagem figurada herdou esta forma de expressão: sente-se com o coração. Mas a sabedoria também se aninha no íntimo. Diz-se que a luz da verdade brilha nos corações dos homens sábios. Todas estas expressões, que muitas vezes empregamos, têm origem na Sagrada Escritura sob o termo “coração” (kardía, em grego e cor, em latim).
Tais disposições internas da alma não são fáceis de se manifestar ou interpretar. Quando lemos um livro como o de Jó, ficamos perplexos com tantos sentimentos que se entrechocam! Naquele homem fiel, Deus aprofunda sua obra, pelo doloroso rompimento das últimas barreiras do coração. Sua vida feliz vai, gradativamente, deteriorando, em meio a problemas e desgraças, como a perda dos bens materiais, o perecimento dos filhos e filhas, e, até, a perda da própria saúde. Em meio a tudo isso, Jó continua a proclamar: “O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1,21).
Mas, diante da mulher, que o incita a blasfemar, ou diante dos falsos amigos, que duvidam de sua inocência, Jó lamenta-se amargamente e começa a questionar os desígnios divinos. Deus, então, dirige-se a ele, demonstrando a distância abissal entre sua Sabedoria e Onipotência e a limitação do pobre ser humano: “Aquele que disputa com o Todo-Poderoso apresente suas críticas! Aquele que discute com Deus, responda!” (Jó 39,32). Afinal, Jó reconhece a própria condição: “Falei, sem compreendê-las, sobre maravilhas que me superam e que não conheço. É por isso que me retrato, e arrependo-me no pó e na cinza ” (Jó 42,3.6). Atinge, assim, a abertura de coração essencial à ação de Deus que, a seu termo, “o restabeleceu de novo em seu primeiro estado e lhe devolveu em dobro tudo quanto tinha possuído” (Jó 42,10).
Quando nos referimos ao Coração de Jesus, o tema se torna muito mais complexo do que a Psicologia, ou a Antropologia, poderiam exprimir. Esse Coração nos revela o profundo mistério de Deus que se fez homem – mistério pessoal e mistério de sua obra salvífica. O próprio Jesus nos diz: “Ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo” (Mt 11,27).
As atitudes de Jesus manifestam e explicam a profundeza do seu Coração. Em primeiro lugar, a atitude para com o Pai, cuja vontade é sua missão primordial: “O meu alimento é fazer a vontade dAquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,34). Não se vê maior hino de amor e, ao mesmo tempo, de reverência do Filho de Deus, para com o Pai eterno, igualmente Deus.
Nesta perspectiva, podemos entender como Jesus misericordioso se relaciona com os pecadores e pecadoras. Além disso, o seu zelo protetor pelos mais frágeis, especialmente, os enfermos era constante. E o jeito carinhoso de se relacionar com as crianças, quando as abraçava e abençoava, impondo-lhes as mãos, indicava sua predileção pelos pequeninos. Apresentou-as, inclusive, como modelo de atitude no acolhimento dos valores evangélicos (cf. Jo 9,46-48).
Também era admirável a paciência de nosso Senhor com os Apóstolos, a princípio, nada notáveis por nobreza de sentimentos. Eles foram, pouco a pouco, se convertendo, mediante o ensinamento do Mestre e seu relacionamento com Ele. Tudo isto, foi consolidado pelo dom do Espírito Santo, transformando-os de modo radical, a ponto de morrerem todos mártires, testemunhando o seu amor a Cristo.
O grande oferecimento do seu Coração se dá na Eucaristia, o gesto supremo do Amor-doação: presença nas nossas igrejas, dia e noite, aguardando para se doar a nós como comida e bebida, isto é, força vital para nossa vida, Amigo que nos acompanha em todos os momentos.
Todos os Sacramentos, tendo como centro a Eucaristia, nos revelam uma faceta do Coração de Jesus. Ele quer que tenhamos a plenitude da vida e, assim, nascemos para a graça, através do Batismo e somos fortalecidos pelo alimento celeste da Eucaristia, para amadurecer na caminhada de fé pelo compromisso da Crisma, Sacramento do Testemunho. Quando erramos, o Senhor nos oferece o Sacramento do Perdão; se ficamos doentes, do corpo ou da alma, Ele concede a Unção, para nos soerguer. Para melhor servirmos ao seu Reino, Ele instituiu o Matrimônio, sacralizando e perpetuando o amor, na dignidade da verdadeira família. Por fim, garantiu-nos o acesso a todas essas graças ao comunicar seu próprio Sacerdócio àqueles que chama a segui-lo mais de perto.
Contemplemos uma última imagem de Cristo, na humilhação infame da cruz, com o Coração atravessado pela lança. Citando o profeta Zacarias, São João diz: “Olharão para Aquele que transpassaram” (Jo 19,37). Lá está o Coração, machucado de amor pelo abandono dos seres humanos, e até pela experiência do aparente distanciamento do Pai, provocada pelas conseqüências de nossos pecados.
Temos que olhar para Aquele que foi transpassado, sobretudo nos momentos mais difíceis: a própria morte, a perda de amigos e de entes queridos... Qual a resposta a tudo isto? Somente se encontra no olhar para Aquele que foi transpassado. Foi desse Coração, cheio de infinito amor, que nasceu a Igreja, nasceram os Sacramentos e tudo o que de mais sublime experimentamos, pela fé e pela prática religiosa, em nossa vida.
Quando rezamos: “Coração de Jesus, cheio de misericórdia, tenha compaixão de nós, abençoe-nos e perdoe-nos”, não fazemos outra coisa do que reconhecer o infinito amor que se aninha nesse Coração, aberto por amor de nós. O seu Reino é o triunfo do amor, da misericórdia e do perdão.
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