Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

09/05/2008

 

BENTO XVI NOS ESTADOS UNIDOS

 

 

  A recente visita do Papa Bento XVI a Washington e Nova York, transmitida pelos meios de comunicação social, especialmente a televisão, oferece excelente oportunidade para a divulgação da verdade em um mundo conturbado. A convite do Secretário-geral da ONU, Senhor Ban Ki-Moon, o Papa Bento XVI ocupou a mesma tribuna de seus antecessores Paulo VI e João Paulo II. Este, na Assembléia Geral das Nações Unidas, a 9 de outubro de 1995, reconheceu ser a Organização um “centro moral, no qual todas as nações do mundo se sintam em sua casa desenvolvendo a consciência comum de ser, por assim dizer, uma ‘família de nações’”.

Por sua vez, o Santo Padre Bento XVI reconhece que, através das Nações Unidas, os Estados estabeleceram objetivos universais que, ainda que não coincidam com o bem comum total da família humana, representam sem dúvida uma parte fundamental deste próprio bem. Os princípios fundamentais da Organização (...) expressam as justas aspirações do espírito humano e constituem os ideais que deverão estar subjacentes nas relações internacionais (...). Como meus predecessores, Paulo VI e João Paulo II,, fizeram notar aqui nesta mesma tribuna, são questões que a Igreja Católica e a Santa Sé acompanham com atenção e interesse, pois vêem em vossa atividade um exemplo de como os problemas e conflitos relativos à comunidade mundial podem estar sujeitos a uma regulamentação comum”.

E afirmou ainda: “Certamente, questões de segurança, os objetivos do desenvolvimento, a redução das desigualdades locais e globais, a proteção do meio ambiente, dos recursos e do clima, requerem que todos os responsáveis internacionais atuem conjuntamente e demonstrem uma disponibilidade para atuar de boa fé, respeitando a lei e promovendo a solidariedade com as regiões mais fracas do planeta”. E acrescentou: “Isso nunca requer optar entre ciência e ética: trata-se mais de adotar um método científico que respeite realmente os imperativos éticos”.

Disse o Santo Padre, dirigindo-se aos representantes de todas as nações: “O que é preciso é uma busca mais profunda dos meios para prevenir e controlar os conflitos, explorando qualquer via diplomática possível e prestando atenção e estímulo também aos mais tênues sinais de diálogo ou desejo de reconciliação (...). A referência à dignidade humana, que é o fundamento e o objetivo da responsabilidade de proteger, leva-nos ao tema sobre o qual fomos convidados a centrar-nos este ano, em que se completa o 60º aniversário da “Declaração Universal dos Direitos do Homem”. O documento foi o resultado de uma convergência de tradições religiosas e culturais, todas elas motivadas pelo desejo comum de colocar a pessoa humana no coração das instituições, leis e atuações da sociedade, e de considerar a pessoa humana essencial para o mundo da cultura, da religião e da ciência (...). Não obstante, hoje é preciso redobrar os esforços ante as pressões para reinterpretar os fundamentos da “Declaração” e comprometer com isso sua íntima unidade, facilitando assim seu afastamento da proteção da dignidade humana para satisfazer meros interesses, com freqüência particulares”. E acrescentou: “Obviamente, os direitos humanos devem incluir o direito à liberdade religiosa, entendido como expressão de uma dimensão que é ao mesmo tempo individual e comunitária”. E reconhece que “a atividade das Nações Unidas nos anos recentes assegurou que o debate público ofereça espaço a pontos de vista inspirados em uma visão religiosa em todas as suas dimensões, incluindo a de rito, culto, educação, difusão de informações, assim como a liberdade de professar ou escolher uma religião. É inconcebível, portanto, que os fiéis tenham de suprimir uma parte de si mesmos – sua fé – para ser cidadãos ativos. Nunca deveria ser necessário renegar a Deus para poder usufruir os próprios direitos”.

   Eis alguns tópicos do pronunciamento do Papa Bento XVI no Plenário das Nações Unidas. Ele mostrou que ser laico não é promover o laicismo.

A seguir, vejamos o ensinamento do Santo Padre à Igreja nos Estados Unidos, no discurso na Universidade Católica, em Washington, a 17 de abril último: “A identidade de uma Universidade ou de uma Escola católica não é simplesmente uma questão de números de alunos”. (...) “a autêntica liberdade não pode jamais ser alcançada com o afastamento de Deus. Uma escolha semelhante significaria, em conclusão, subestimar a genuína verdade de que precisamos para entender nós mesmos. Por isso, suscitar entre os jovens o desejo de um ato de fé, encorajando-os a engajar-se na vida eclesial que deriva deste ato de fé, é uma responsabilidade especial de cada um e de seus colegas (...). Claramente, portanto, a identidade católica não depende das estatísticas. Nem pode ser simplesmente equiparada com a ortodoxia do conteúdo dos cursos. Isto requer e inspira muito mais: ou seja, que todos os aspectos de suas comunidades de estudo se reflitam na vida eclesial de fé”.

   Estes são tópicos de alguns ensinamentos do Papa Bento XVI em sua visita a Washington e Nova York. Graças aos meios de comunicação social, principalmente televisão, esses e outros pronunciamentos nessa oportunidade, ultrapassaram os limites de um país. Os vários discursos e homilias do Santo Padre interessam principalmente aos católicos, mas também aos homens de boa vontade.   Na audiência geral da quarta-feira 30 de abril o Papa Bento XVI no balanço da sua viagem aos Estados Unidos assim se expressou: “pude prestar homenagem a esse grande país, que desde o início se edificou a partir de uma feliz conjugação entre princípios religiosos, éticos e políticos, e continua sendo um válido exemplo de sã laicidade, onde a dimensão religiosa, na diversidade de suas expressões, não só é tolerada, mas valorizada como ‘alma’ da nação e garantia fundamental dos direitos e dos deveres do ser humano (pág. 16 do Zenit de 30 de abril). Voltaremos ao assunto.