Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

08/08/2008

 

OLIMPÍADAS

  

   

A 8 de agosto teve início em Pequim, na China, a 29ª Olimpíada dos tempos modernos, acompanhada por milhões de pessoas em todo o mundo. Os meios de comunicação social, principalmente as televisões através dos satélites alargam enormemente o cenário onde, até ao dia 24 de agosto, realiza-se esse evento. Este ano 28 são as modalidades esportivas, incluídas no programa olímpico, com a participação de mais de 10.500 atletas provenientes de 204 países. Com raízes na antiga Grécia, renasceu em fins do XIX século com o mesmo espírito. Cada quatro anos reúne milhares de atletas de todo o Universo que lutam, nos mais diversos esportes, para demonstrarem sua destreza e somente alguns recebem a medalha, símbolo da vitória alcançada. Há um íntimo relacionamento entre esses feitos e a dimensão espiritual, que sempre deve estar presente nas atividades humanas.

São Paulo se serve dessas competições para ilustrar a doutrina cristã quando diz: “Não sabeis que aqueles que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Todos os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível. Quanto a mim, é assim que corro, não ao incerto; é assim que pratico o pugilato, mas não como quem fere o ar. Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado” (1Cor 9,24-27).

Ao presenciarmos esses jogos, em nível mundial, é-nos proporcionada excelente oportunidade para comparar nossa dedicação à causa de Deus ou à Igreja de Cristo. A propósito das competições como a atual, confrontemos nosso zelo pela santificação pessoal e serviço do Evangelho, com as renúncias alegremente aceitas pelos participantes no particularmente longo período de treinamento. Eles se abstêm de usufruir o que é permitido, para obter melhor preparo físico, embora mais importante seja competir lealmente, que mesmo vencer. No entanto, muitos são avaros na doação pronta de sua vontade ante as restrições pedidas pela Lei de Deus e da Igreja. Muitas vezes, os que adestram o seu corpo são mais generosos com o esporte do que os atletas da Fé, com a pregação do Evangelho.

As Olimpíadas são também uma especial ocasião para aprendermos uma escala de valores e praticar uma pacífica convivência humana.

Há regras e penalidades severas impostas igualmente a todos os transgressores. Em um mundo que nega qualquer cerceamento de liberdade, admiramos a presença de jovens que se exercitam na rigorosa obediência às determinações impostas. A paz e a concórdia entre os indivíduos e nações devem ser fruto dessas competições.

Paralelamente a essa festa, cabe relembrar com mágoa os tristes espetáculos em alguns estádios e também fora deles. A pretexto de estimular os clubes em competição, cometem-se violências e se fere profundamente a desportividade.

De modo particular, no futebol, indivíduos desordeiros, que, mostrando incapacidade de um trato normal entre pessoas civilizadas, extravasam seus bárbaros instintos. O comportamento anti-social merece repressão enérgica das autoridades e uma atuação, a longo prazo, dos educadores. A destruição revela o baixo nível moral de seus promotores.

O atletismo, além de educar os homens para que controlem seus impulsos desvairados, contribui para a prática de uma sadia convivência. Um campo de jogos esportivos é um espaço de leal competição que serve de proveitosa lição para todos.

As Olimpíadas, festas de extraordinária repercussão mundial e de bela apresentação artística, promovem não só a alegria, mas também a concórdia entre os povos.

Algumas nações, às vezes em luta armada ou violando os direitos dos cidadãos, esquecem-se de suas querelas e se irmanam em torno de sãos propósitos. Isso constitui um fator de benéfico entendimento entre elas. A paz é um ideal olímpico. E, ao mesmo tempo que se destacam as qualidades físicas e a capacidade de cada atleta, recordam-nos, ao menos indiretamente, a importância dos valores éticos.

Como o homem é composto de alma e corpo, quando este é exaltado sob aspectos positivos, a outra parte, a espiritual, por ser componente indivisível, é valorizada e estimulada. Para obter a energia necessária às duras provas e a indispensável preparação que as precede, é urgente o rigor moral. Libertino algum alcançará sucesso duradouro no ambiente esportivo. Embora não venha a público, a virtude da castidade, firmemente integrada à vida religiosa, é um dos pilares no esforço em busca do êxito nas competições. Por outro lado, a tradição cristã sempre considerou o esporte uma ajuda natural para cultivar a virtude.

O Servo de Deus João Paulo II, antigo esportista, em seu discurso aos participantes do Encontro Internacional sobre Desporto, em 28 de outubro de 2000, assim se expressou: “As potencialidades do fenômeno desportivo tornam-no um significativo instrumento para o desenvolvimento global da pessoa e um fator mais útil do que nunca para a construção de uma sociedade mais à medida do homem. O sentido de fraternidade, a magnanimidade, a honestidade e o respeito pelo corpo virtudes sem dúvida indispensáveis a todo o bom atleta contribuem para a edificação de uma sociedade civil, onde o antagonismo é substituído pela competição, onde ao confronto se prefere o encontro e à contraposição rancorosa, o confronto leal. Desta forma, o desporto não é um fim, mas um meio; pode tornar-se veículo de civilização e de genuíno entretenimento, estimulando a pessoa a dar o melhor de si e a evitar o que pode ser perigoso ou de grave prejuízo para si ou para o próximo”.

Aproveitemos as lições desses dias, especialmente a união de todos os indivíduos, a exaltação da paz e da concórdia, a importância do aspecto espiritual nessas manifestações da capacidade humana.

As competições olímpicas recordam as palavras do Apóstolo: “Todos os atletas se abstêm de tudo, eles, para ganharem uma coroa perecível; nós, porém, para ganharmos uma coroa imperecível”.