VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

08 de Abril de 2008

 

RECORDANDO JOÃO PAULO II

 

   

Recordamos, nestes dias, o 3º aniversário da morte de João Paulo II, que passei a cognominar “Magno”, pela grandeza de sua pessoa e de seu pontificado. Espero que tal título seja, com muita razão, oficializado. Enquanto o corpo do saudoso Papa era levado para as grutas vaticanas, na cripta da Basílica de São Pedro, do lado de fora o povo clamava: “Santo, já! Santo, já!” Realmente, tem chovido tantas graças sobre a Igreja de Cristo, através da intercessão desse Servo de Deus, que justificam os clamores do povo.

A trajetória de vida de Karol Wojtyla impressiona, tanto do ponto de vista humano, quanto espiritual. Nasceu a 18 de maio de 1920, em Wadovice, perto de Cracóvia, na Polônia. Tendo perdido pai e mãe, ainda muito cedo, restou-lhe um irmão médico, que também faleceu, ainda jovem. Além disso, sofreu a perda de vários amigos e colegas, vitimados pela invasão dos nazistas na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial. A dolorosa experiência da solidão, certamente, levou-o a buscar em Deus a força maior, que consolidou sua personalidade para os futuros embates a que sua missão o conduziria.

A vida na Polônia, primeiramente sob o domínio nazista e, depois, comunista, obrigava-o a praticar sua fé quase em segredo. Trabalhou como mineiro e operário. A vocação ao sacerdócio floresceu naquele ambiente adverso, de modo que sua formação teve que ser conduzida na clandestinidade. Superando todas as dificuldades, tornou-se padre em 1946, Bispo Auxiliar de Cracóvia, em 1958, e Arcebispo, em 1963. Foi criado Cardeal em 1967 e, finalmente, eleito Papa a 16 de outubro de 1978, assumindo como o 264º sucessor de Pedro.

Foi uma ascensão muito rápida, ao longo da qual Deus manifestou o chamado e conferiu a missão àquele que seria um dos maiores Papas da Igreja, o grande baluarte do ideal cristão contra o domínio político e ideológico do comunismo ateu e, enfim, modelo de santidade para todos nós.

A riqueza da personalidade de João Paulo II propiciou-lhe desenvolver outras áreas de estudo e de interesse, além da Filosofia e da Teologia, na qual era doutorado. Sua forte inclinação artística levou-o a dedicar-se ao teatro, como autor e ator de vários textos. Interessava-se, também, por música popular e literatura. Tinha uma capacidade de comunicação espontânea e adequada, aprimorada pela arte teatral. Foi em meio a esse trabalho que surgiu o chamado de Deus para a vocação sacerdotal. A partir daí, João Paulo II canalizou todas as suas aptidões para o Ministério que assumiria, e isto, com a conseqüente responsabilidade.

Dominava a linguagem da comunicação como poucos e utilizou todos os recursos disponíveis da mídia para dialogar com o mundo moderno e pós-moderno. Era um grande pregador, inclusive numa enorme variedade de idiomas, nos quais era versado. Chegou a se expressar em 60 a 70 deles, aproximadamente, embora não falasse correntemente todos.

Outra qualidade fundamental, para seu êxito missionário, era a capacidade de se identificar com cada região que visitava, com o povo e seus costumes. É o que chamamos de empatia. Conseguia, assim, acolher as mais diversas culturas e, ao mesmo tempo, ser fraternalmente aceito pelos membros de todas elas. Chegou até a se declarar “carioca”, numa das visitas que fez à cidade do Rio de Janeiro. Isto muito nos honra!

Possuía grande amor pela ecologia e pela natureza, traço marcante do povo polonês. Foi atleta e desportista, tendo, inclusive, atuado como goleiro de futebol em sua cidade natal. Mas, os esportes da neve é que lhe eram, particularmente, agradáveis. Praticou o esqui até à idade madura, enquanto sua saúde e tempo lho permitiram.

Era diplomata privilegiado. A influência de suas idéias marcou o nosso tempo, e teve papel preponderante na dissolução do grande império comunista da antiga União Soviética e na queda do muro de Berlim. 

Foi mestre da verdade, em seguimento e como representante visível do próprio Cristo. Disso dão testemunho sua ativa participação no Concílio Vaticano II, os diversos Sínodos que convocou e realizou e os inúmeros documentos eclesiais que legou às futuras gerações de fiéis: católicos e não-católicos.

A grande força interior que Deus lhe infundia, foi a fonte de sua resistência aos sofrimentos que o acompanharam durante toda a vida. O período de seu pontificado foi exemplar. Após o gravíssimo atentado de maio de 1981, do qual foi salvo pela intercessão de Nossa Senhora de Fátima, passou por cirurgias delicadas e terminou sua vida, acometido pelo Mal de Parkinson. Sua reação a tantos problemas de saúde foi uma das mais belas lições de santidade que nos deixou. Jamais se ocultou da mídia ou dos fiéis, mesmo quando a aparência física já demonstrava o progressivo declínio de suas forças. Pelo contrário, foi naquela ocasião que melhor transpareceu para o mundo todo o rosto sofrido do Cristo, no seu amor pela restauração da humanidade decaída.

Eu mesmo recebi do Papa João Paulo II provas de confiança que marcaram, definitivamente, minha vida e meu ministério. Primeiramente, a nomeação para primeiro Bispo de São José dos Campos, em 1981; a posterior transferência para a Arquidiocese de Florianópolis, dez anos mais tarde e, finalmente, após outros dez anos, o governo pastoral da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Em 2003, ainda tive a honra de ser por ele inserido, como membro presbítero, no Colégio Cardinalício.

Foi como Arcebispo recém-empossado de Florianópolis, capital do meu Estado natal, que tive a alegria de recebê-lo, durante sua segunda viagem ao Brasil. Preparamos a visita do Papa com muito carinho, e esmero também, para a Beatificação daquela que, hoje, é Santa Paulina. Embora ele tenha permanecido apenas 24 horas em Florianópolis, foram momentos sublimes, dos quais guardamos recordações gratificantes e inapagáveis. Ficamos, também, com a certeza de que ele gostou daquela linda cidade, como ele próprio nos falou.

Guardamos preciosas lembranças do saudoso Papa João Paulo II, Magno, que, apesar de sua vida e obras múltiplas e grandiosas, primava pela simplicidade. Esta era uma de suas características marcantes. Queremos confidenciar aqui, com indizível gratidão, a perene saudade desse mensageiro de Deus, que a Igreja teve a graça de ter como pastor e guia, durante 26 anos.

Peçamos que ele interceda por nós, e nos dê a força de enfrentar os revezes, com a mesma coragem que ele teve, pela sua fé e seu amor a Deus e à Igreja.