Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo
Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
08/02/2008
SUBSTITUIÇÃO DE DEUS PELO HOMEM
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Uma clara visão da realidade que vivemos contribui eficazmente para nosso caminhar tranqüilo. Percebe-se a rota certa e também é ajuda na solução dos problemas decorrentes da confusão reinante.
Antigamente, o homem possuía um ponto de referência: a verdade objetiva. Podia errar, mas sabia que assim agindo estava fora dos valores autênticos. Nos últimos tempos, penetraram profundamente, na cultura dos povos, conceitos que outorgam ao subjetivo a elaboração da verdade. Cada um julga, segundo parâmetros por ele construídos, o que deve fazer ou omitir. No fundo, é a substituição de Deus pelo homem. O que era prerrogativa daquele, a elaboração dos mandamentos a ser seguidos e a revelação da doutrina a ser aceita, passou à esfera da criatura humana.
Produto desse subjetivismo, nasce o relativismo pelo qual nada mais é irreformável ou seguro. Hoje, poderá ser proclamado certo o que ontem era errôneo.
A sociedade civil e religiosa sofrem a nefasta influência dessas idéias tão em voga, embora, muitas vezes, bem dissimuladas.
Felizmente, há sinais de um retorno aos princípios que antes regiam a sociedade. Ao menos, alguns já reconhecem serem errados vários conceitos, frutos dessa pseudo-cultura moderna. Não se trata de volta a antigas posições, tomadas em bloco, pois nelas haveria certamente elementos ultrapassados. Sente-se, hoje, em muitos ambientes, a necessidade de uma retificação de rota. Por exemplo, no passado, propugnou-se pela união entre a Igreja e o Estado como forma ideal de convivência. Recordo que, em um seminário realizado no verão de 1991, em Moscou, com a participação da Pontifícia Comissão para a Cultura, afirmou-se publicamente que, em uma sociedade pluralista, o Estado deve ser separado da Igreja, mas não dos sentimentos religiosos do povo. A sociedade não subsiste sem os valores éticos e estes desaparecem sem a vivência que decorre da Fé. Além disso, várias conferencias episcopais têm tido a oportunidade de lembrar que “Estado leigo” não significa “Estado ateu” ou anti-religioso.
Apesar disso, sopram no mundo e, portanto, no Brasil, os ventos da secularização e da autonomia do homem diante de Deus. Em conseqüência, os que fazem as leis e as executam, muitas vezes agem como se desconhecessem o sagrado, atendendo apenas às exigências do mundo. A opinião pública, eivada desses princípios, pressiona fortemente na direção dos valores meramente terrenos, desconhecendo os eternos. A consciência da capacidade da criatura leva a negar a submissão ao Criador, às suas prescrições, quer no direito natural, quer no positivo.
Assim, tantos cidadãos responsáveis pela direção do País, às vezes de boa fé, enveredam por soluções frontalmente contrárias às normas divinas. Como exemplo, cito a pressão em favor do aborto, ao mesmo tempo que defendem os direitos humanos. Ora, o fundamento destes é a garantia da preservação da vida, desde a concepção até a morte natural. Aprovando o abortamento, em conseqüência lógica do desprezo à existência humana, nascem os movimentos que defendem a eutanásia, já uma realidade na Holanda e alhures. Acobertam essa distorção com o belo título: morrer com dignidade. Quando se despreza a vida do nascituro, tentando “legalizar” o infanticídio e obrigando os hospitais, mantidos com o dinheiro público, a cometer tal crime, nada mais causa surpresa! Assim, não é de surpreender o surgimento do que tanto nos aflige e envergonha: a violência, os morticínios, os cadáveres de irmãos nossos anônimos jogados nas ruas e nas estradas, em lugares até mesmo previamente escolhidos para essa macabra destinação.
Sente-se uma forte tendência à acomodação, quer ao ambiente comunitário, quer às idéias que formam a opinião pública. A fraqueza da fé não alimenta o cristão para testemunhar Jesus Cristo e sua Doutrina e também proclamar a Moral evangélica diante da pressão do mundo materializado. Teme-se ser diferente, não se ousa enfrentar a maneira de pensar e agir em voga. E quem possui os recursos para orientar essas correntes de pensamento, os meios de comunicação social e outros se torna, então, verdadeiro ditador. Pode fazer um grande bem ou mal, se utilizar esses instrumentos para a edificação de uma sociedade fundamentada nos princípios éticos ou, pelo contrário, para destruir os valores cristãos.
Há um pavor de ser ridicularizado em razão da fidelidade às leis eclesiásticas. Entre os que se julgam seguidores do Mestre, surge uma aberração que tende a se expandir. Aceitam Cristo, louvam-no, mas negam respeito e obediência à Igreja. Ou ainda, criam um modelo religioso à própria imagem e segundo os conceitos em voga. A estrutura querida pelo Salvador – “quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10,16) – é rejeitada.
Além disso, foge-se do sacrifício pessoal, busca-se esquecer a realidade da morte; o alvo a ser atingido a qualquer custo é a felicidade neste mundo. Os meios não importam.
Em resumo, trata-se de uma cultura da morte, pois a ela levam tais princípios.
Em todo esse conjunto, há um círculo vicioso. A falência da Fé cristã se manifesta nas obras, na vida particular e pública. Impera uma cultura eivada de paganismo, de liberdade sem peias, de subjetivismo. O ambiente que se respira é fator de decomposição moral. Para exemplificar, lembro-me de uma pesquisa feito ao final de 1991: a resposta à pergunta sobre “o que mais se desejava”, em 1992, foi sempre dinheiro e outros bens materiais. Nela, verifiquei que, não houve uma só referência ao espiritual. Se alguém só procura o que é terreno, ignora Deus, por que se surpreender com tantos escândalos administrativo-financeiros, violência, drogas, AIDS? Se hoje repetíssemos essa pesquisa, com toda certeza a resposta seria a mesma.
Felizmente, há um pequeno grupo, um fermento, que sabe dizer o “não” quando necessário e o “sim”, mesmo com sacrifício. São esses homens que edificam uma sociedade, inclusive a religiosa.
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Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
08/02/2008
SUBSTITUIÇÃO DE DEUS PELO HOMEM Uma clara visão da
realidade que vivemos contribui eficazmente para nosso caminhar tranqüilo.
Percebe-se a rota certa e também é ajuda na solução dos problemas decorrentes da
confusão reinante. Antigamente, o homem
possuía um ponto de referência: a verdade objetiva. Podia errar, mas sabia que
assim agindo estava fora dos valores autênticos. Nos últimos tempos, penetraram
profundamente, na cultura dos povos, conceitos que outorgam ao subjetivo a
elaboração da verdade. Cada um julga, segundo parâmetros por ele construídos, o
que deve fazer ou omitir. No fundo, é a substituição de Deus pelo homem. O que
era prerrogativa daquele, a elaboração dos mandamentos a ser seguidos e a
revelação da doutrina a ser aceita, passou à esfera da criatura humana. Produto desse subjetivismo,
nasce o relativismo pelo qual nada mais é irreformável ou seguro. Hoje, poderá
ser proclamado certo o que ontem era errôneo. A sociedade civil e
religiosa sofrem a nefasta influência dessas idéias tão em voga, embora, muitas
vezes, bem dissimuladas. Felizmente, há sinais de um
retorno aos princípios que antes regiam a sociedade. Ao menos, alguns já
reconhecem serem errados vários conceitos, frutos dessa pseudo-cultura moderna.
Não se trata de volta a antigas posições, tomadas em bloco, pois nelas haveria
certamente elementos ultrapassados. Sente-se, hoje, em muitos ambientes, a
necessidade de uma retificação de rota. Por exemplo, no passado, propugnou-se
pela união entre a Igreja e o Estado como forma ideal de convivência. Recordo
que, em um seminário realizado no verão de 1991, em Moscou, com a participação
da Pontifícia Comissão para a Cultura, afirmou-se publicamente que, em uma
sociedade pluralista, o Estado deve ser separado da Igreja, mas não dos
sentimentos religiosos do povo. A sociedade não subsiste sem os valores éticos e
estes desaparecem sem a vivência que decorre da Fé. Além disso, várias
conferencias episcopais têm tido a oportunidade de lembrar que “Estado leigo”
não significa “Estado ateu” ou anti-religioso. Apesar disso, sopram no
mundo e, portanto, no Brasil, os ventos da secularização e da autonomia do homem
diante de Deus. Em conseqüência, os que fazem as leis e as executam, muitas
vezes agem como se desconhecessem o sagrado, atendendo apenas às exigências do
mundo. A opinião pública, eivada desses princípios, pressiona fortemente na
direção dos valores meramente terrenos, desconhecendo os eternos. A consciência
da capacidade da criatura leva a negar a submissão ao Criador, às suas
prescrições, quer no direito natural, quer no positivo. Assim, tantos cidadãos
responsáveis pela direção do País, às vezes de boa fé, enveredam por soluções
frontalmente contrárias às normas divinas. Como exemplo, cito a pressão em favor
do aborto, ao mesmo tempo que defendem os direitos humanos. Ora, o fundamento
destes é a garantia da preservação da vida, desde a concepção até a morte
natural. Aprovando o abortamento, em conseqüência lógica do desprezo à
existência humana, nascem os movimentos que defendem a eutanásia, já uma
realidade na Holanda e alhures. Acobertam essa distorção com o belo título:
morrer com dignidade. Quando se despreza a vida do nascituro, tentando
“legalizar” o infanticídio e obrigando os hospitais, mantidos com o dinheiro
público, a cometer tal crime, nada mais causa surpresa! Assim, não é de
surpreender o surgimento do que tanto nos aflige e envergonha: a violência, os
morticínios, os cadáveres de irmãos nossos anônimos jogados nas ruas e nas
estradas, em lugares até mesmo previamente escolhidos para essa macabra
destinação. Sente-se uma forte
tendência à acomodação, quer ao ambiente comunitário, quer às idéias que formam
a opinião pública. A fraqueza da fé não alimenta o cristão para testemunhar
Jesus Cristo e sua Doutrina e também proclamar a Moral evangélica diante da
pressão do mundo materializado. Teme-se ser diferente, não se ousa enfrentar a
maneira de pensar e agir em voga. E quem possui os recursos para orientar essas
correntes de pensamento, os meios de comunicação social e outros se torna,
então, verdadeiro ditador. Pode fazer um grande bem ou mal, se utilizar esses
instrumentos para a edificação de uma sociedade fundamentada nos princípios
éticos ou, pelo contrário, para destruir os valores cristãos. Há um pavor de ser
ridicularizado em razão da fidelidade às leis eclesiásticas. Entre os que se
julgam seguidores do Mestre, surge uma aberração que tende a se expandir.
Aceitam Cristo, louvam-no, mas negam respeito e obediência à Igreja. Ou ainda,
criam um modelo religioso à própria imagem e segundo os conceitos em voga. A
estrutura querida pelo Salvador – “quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10,16) – é
rejeitada. Além disso, foge-se do
sacrifício pessoal, busca-se esquecer a realidade da morte; o alvo a ser
atingido a qualquer custo é a felicidade neste mundo. Os meios não importam. Em resumo, trata-se de uma
cultura da morte, pois a ela levam tais princípios. Em todo esse conjunto, há
um círculo vicioso. A falência da Fé cristã se manifesta nas obras, na vida
particular e pública. Impera uma cultura eivada de paganismo, de liberdade sem
peias, de subjetivismo. O ambiente que se respira é fator de decomposição moral.
Para exemplificar, lembro-me de uma pesquisa feito ao final de 1991: a resposta
à pergunta sobre “o que mais se desejava”, em 1992, foi sempre dinheiro e outros
bens materiais. Nela, verifiquei que, não houve uma só referência ao espiritual.
Se alguém só procura o que é terreno, ignora Deus, por que se surpreender com
tantos escândalos administrativo-financeiros, violência, drogas, AIDS? Se hoje
repetíssemos essa pesquisa, com toda certeza a resposta seria a mesma. Felizmente, há um pequeno
grupo, um fermento, que sabe dizer o “não” quando necessário e o “sim”, mesmo
com sacrifício. São esses homens que edificam uma sociedade, inclusive a
religiosa.
Arcebispo
Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
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