Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

06/06/2008

 

A IMPORTÂNCIA DA ESPERANÇA

 

  

A humanidade vive imersa em perturbadora atmosfera. São terremotos, seqüestros, guerras em diversos países. Também entre nós, assaltos, violências, os escândalos na política, os desvios de dinheiro, o roubo. Muitos poderão ser levados a um estado de espírito onde predominem o pessimismo, a angústia e o desalento.

Frente aos males deste mundo, o cristão deve assumir uma posição coerente com o Evangelho. Assim, diante de tantas nuvens escuras, ergue ainda mais alto a bandeira da esperança, atiça aquela chama interior que possui como energia o impulso de grande importância para seu peregrinar nesta terra.

Ante fatos dolorosos, o cristão contrapõe o ensinamento do seu Mestre. Somente assim podemos sobreviver. Sem essa visão transcendente e fundamentada na Fé, a realidade que nos cerca torna-se um peso esmagador.

Os meios de comunicação social trazem, a cada dia, ao nosso conhecimento acontecimentos estarrecedores. Estes sempre existiram, em maior ou menor escala na história dos homens. A facilidade em transmitir notícias e a seleção das que causam maior admiração e despertam curiosidade, terminam por gerar um clima verdadeiramente angustiante, assim como uma luz bruxoleante que projeta imagens fantasmagóricas e, em parte, irreais.

A permanente constatação de eventos chocantes nos pode levar ao desespero, se nos falta a compreensão da ação divina ou o que se denomina economia de Deus. A Sagrada Escritura se refere, muitas vezes, a essa situação esdrúxula.

A própria instituição de Cristo é submetida a sofrimentos vindos de onde não deveriam ter origem. O ataque do inimigo por ser esperado, fere menos e provoca menor dano.

Naquele quadro podemos incluir a pobreza e a fome de tantos, a doença de outros, os males físicos, morais e psicológicos.

O veemente desejo de justiça social com a constatação de fatos realmente constrangedores à dignidade humana, sem essa força cristã, leva tanto as vítimas quanto certos idealistas a posições inaceitáveis. Surgem o ódio e a luta de classe. A Igreja, que é essencialmente comunhão entre os homens pode ser deformada em seus filhos, quando vazios de uma concepção evangélica.

Há um remédio insubstituível: a Esperança. Ela se torna o alicerce sem o qual o edifício termina por ruir. Antepõe-se ao desespero. Essa virtude nos faz confiar ilimitadamente, mesmo contra todas as aparências, na Bondade de Deus. Não se trata de se apoiar nas criaturas, em seu poder ou inteligência, na ciência ou nas promessas temporais. Tudo isso tem seu valor mas, por ser relativo, também falha. E se isso acontece, o ser humano é lançado ainda mais ao fundo de seu desespero. Alguém que está suspenso sobre um precipício, deve ter junto a si um amparo: a Esperança cristã, garantia que vem do Alto, que o salvará no momento em que o sustentáculo terreno se romper. Ela não se identifica com a paciência, nem impede o esforço para correção dos males. Age, contudo, com a elevação conforme o exemplo dado pelo Redentor.

Indispensável a nosso viver, ela é uma das três virtudes teologais, juntamente com a Fé e a Caridade. Brota do Pai, onde encontra sua origem e a Ele conduz. São Paulo, ao se referir à espera da vinda do Senhor, afirma: “Nós, revestidos com o capacete da esperança da salvação” (1 Tes 5,8). Escrevendo aos coríntios (1 Cor 9,10), mostra o papel dessa virtude, como valioso estímulo: “Aquele que trabalha, deve trabalhar com esperança e aquele que pisa o grão, deve ter a esperança de sua parte”.

O mundo julga por valores profundamente diversos de nossa Fé, direi melhor: contraditórios à Mensagem de Cristo. Assim, vale o imediato, as aparências enganosas com suas riquezas e prazeres sobre a realidade prometida por Deus. Na escolha ou no entrechoque, a decisão de muitos se inclina para o que é transitório e não ao assegurado pelo Mestre.

Esse é o ambiente em que vivemos, a atmosfera que respiramos. Toda a vida cristã, entretanto, está fundamentada em uma perspectiva do eterno. E é aí que se insere a função dessa virtude: trazer o futuro para o presente, para que exerça o seu papel catalisador e influencie na balança das decisões, que se operam no âmago das consciências.

Quanto mais trágico o clima mundial, mais necessária é a confiança em Deus. Ele é o sustentáculo no esforço pela transformação deste mundo. São Paulo, na Epístola aos Hebreus (11,16), elogiando a esperança dos antigos patriarcas, explica sua vitória: “Eles aspiram com efeito a uma pátria melhor, isto é, a uma pátria celestial”.

Nesta época perturbada conservemos o vigor da esperança. Com ela seremos fortes e imbatíveis. Aparentemente derrotados, cantaremos a vitória final, pois o cristão pode se “alegrar na esperança de participar da glória de Deus” (Rom 5,2).

Na Mensagem preparatória da recente viagem aos Estados Unidos, o Papa Bento XVI assim se expressou: “Levarei a mensagem da esperança cristã também à grande Assembléia das Nações Unidas, aos Representantes dos povos do mundo. De fato, o mundo tem necessidade como nunca de esperança: esperança de paz, de justiça, de liberdade, mas não poderá realizar esta esperança sem obedecer à lei de Deus, que Cristo levou a cumprimento no mandamento de nos amarmos uns aos outros”.

Na carta encíclica “Spe Salvi” que podemos traduzir: “É na esperança que somos Salvos”, de 30 de novembro de 2007, o Santo Padre nos adverte: Na idade moderna, “ao considerarem que o homem teria sido redimido através da ciência incorriam em erro. Com uma tal expectativa, está-se a pedir demasiado à ciência; esta espécie de esperança é falaz. A ciência pode contribuir muito para a humanização do mundo e dos povos. Mas pode também destruir o homem e o mundo, se não for orientada por forças que se encontram fora dela” (nº 25).

Diante dos males que nos angustiam conservemos a tranqüilidade que nos vem dos valores eternos.