VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

06 de Maio de 2008

 

GRANDES MESTRES E... TRABALHADORES

 

   

Celebramos, no dia 1º de Maio, o Dia do Trabalhador e, também, a festa de São José Operário. Portanto, é um tempo propício para nos determos no ensinamento da Sagrada Escritura sobre a dignidade e a beleza do trabalho, através de alguns luminosos exemplos que ela nos oferece.

Nas duas descrições que temos da criação do mundo, Deus aparece como o grande trabalhador. Amolda a terra, para dela fazer o ser humano, no qual infunde o sopro de vida. É o Autor de toda a beleza da criação, que confia ao homem e à mulher, para continuarem a sua obra. Evidentemente, trata-se de uma imagem figurativa e pedagógica, que visa a ensinar-nos a dignidade do trabalho: “Frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28).

Não se trata de “escravizar” a matéria, ou de explorar a natureza de forma predatória. Deus entregou ao homem a criação, para que ele continue a aprimorá-la, tornando este mundo mais humano e formoso. Quando a primeira geração humana introduziu a discórdia e o desregramento nas suas relações com Deus, com os semelhantes e com o mundo criado, o trabalho também foi atingido. Nossa participação na obra criadora passou a ser cansativa, dolorosa e, freqüentemente, destrutiva, em conseqüência da desordem que se introduziu no mundo.

Entretanto, o homem permanece um ser trabalhador por natureza, inteligente, livre, hábil – homo faber – como dizem os filósofos e antropólogos. O trabalho faz parte da nossa dignidade e do nosso desenvolvimento humano. Por isso, jamais haveremos de considerá-lo como castigo, acalentando o sonho de não trabalhar mais. Esta é uma idéia que nunca me agradou ouvir de tantos. A Bíblia diz que “a ociosidade ensina muitos males” (Eclo 33,29). Quem vive no ócio, sem fazer nada, geralmente acumula muitos defeitos e pratica atos condenáveis. Por isso, o trabalho aparece na Sagrada Escritura e nos ensinamentos da Igreja como a condição ideal do ser humano, até mesmo, de felicidade.

Jesus foi o maior e melhor dos trabalhadores. Humanamente, aprendeu o ofício de seu pai adotivo, São José. Mas, como Filho de Deus, Ele próprio, Pessoa divina, realizou a obra salvífica que o plano do Pai previra: “Meu Pai continua trabalhando até agora, e eu também trabalho” (Jo 5,17). Esta palavra situa-se no contexto da discussão com os fariseus, a respeito de fazer o bem num dia de sábado.

Observemos, ainda, dois exemplos de trabalhadores, que fizeram de suas tarefas meios para a glorificação de Deus. O primeiro não poderia deixar de ser outro do que São José. Ele foi o modelo do trabalhador simples, mas competente. Na melhor definição que São Marcos nos dá do pai adotivo de Jesus, ele é chamado tektôn, isto é, operário. Daí se originou a tradição de que ele fora carpinteiro. Na verdade, São José era um operário qualificado, construtor, mestre de obras, diríamos hoje.

Ele trabalhava ao lado de Jesus. Não podemos colocar melhor ideal para nossas tarefas: estar junto à mão do Senhor, que nos abençoa e que dignifica tudo aquilo que fazemos. Imaginemos uma cena diária naquela oficina: rezavam de manhã, antes de começarem o trabalho, depois, durante o dia, faziam breves pausas para recitar algum Salmo. Ou até cantavam... Certamente, Nossa Senhora também participava, enquanto dava conta de seus afazeres domésticos. Assim transcorriam os dias daquela família, até o final da vida de José. E, possivelmente, por mais alguns anos, antes de Jesus começar sua pregação pública.

São José tornou-se instrutor do Filho adotivo, na arte de seu ofício. Esta é uma das atribuições mais nobres de quem domina uma ciência ou uma técnica: poder ensinar a outros. Assim foi São José para com Jesus. Hoje ele é Padroeiro de todos os trabalhadores. Portanto, invoquemo-lo, sempre, como nosso protetor nas tarefas que desempenhamos.

Outro modelo de trabalhador foi São Paulo. Assimilou a cultura hebraica, tornando-se mestre (raboni) no judaísmo. Aprofundou-se, também, na cultura helênica, florescente na sua cidade natal de Tarso, na Cilícia. A grande interdependência entre aquele centro cultural da antigüidade e a cidade de Roma, favoreceu a influência latina na síntese da formação, recebida pelo Apóstolo dos Gentios.

Além de ser mestre, Paulo também dominava um ofício, que lhe garantia o próprio sustento: “Vós mesmos sabeis: estas mãos proveram às minhas necessidades e às dos meus companheiros” (At 20,34). Para não ser pesado às comunidades, fabricava tendas, tecendo roupas feitas de peles de cabra. Era um material muito resistente, de boa qualidade, porém rústico, o que deve ter provocado diversos calos nas mãos de Paulo. Porém, o Apóstolo só deixou de trabalhar quando ficou prisioneiro, em Cesaréia e Roma.

O seu tempo livre era dedicado à evangelização, que deve ter lhe roubado muitas horas de descanso, considerando-se a quantidade e a profundidade dos escritos que nos deixou. Além disso, ninguém pregava como Paulo, excetuando-se Jesus, a própria Verdade humana e divina, que nos fala em nome do Pai e do divino Espírito Santo. Impulsionado pelo mesmo Espírito, era essa Verdade que o Apóstolo anunciava.

Em nosso dia-a-dia, encontramos outros exemplos de trabalho dedicado, que enobrece quem o executa e frutifica para a sociedade. Conheço um médico que já tem mais de 100 anos, e vai ao hospital toda manhã. É certo que não consegue mais atuar na sua área, a cirurgia, mas se faz presente, dignificando, ainda, o trabalho que realizou por tão longo tempo. E assim tantos outros que conhecemos.

Como se poderia definir um “bom trabalho”? Hodiernamente, do ponto de vista empresarial, poderíamos dizer que o bom trabalho é o que alcança os resultados pretendidos, ou seja, produtividade: prestar um serviço, ou produzir algum bem, mas tendo em vista, primeiramente, meu próprio lucro e benefício.

Mas, na realidade, o bom trabalho é aquele que se espelha no modelo de Jesus: trabalho é missão. Assim, em qualquer oportunidade que se apresenta, deve-se anunciar o Evangelho, seja na pregação, através de todo tipo de mídia disponível, seja nas obras sociais. Quantos consagraram suas vidas a este ideal! Dentre eles, todos nós que buscamos conduzir o rebanho de Cristo, segundo a vontade do próprio Supremo Pastor.

Enfim, se o Senhor está ao nosso lado, e se é em seu nome que agimos, tendo em vista o bem daqueles que precisam da nossa obra, qualquer trabalho honesto nos dignifica e se converte em missão, propícia ao bem comum.