Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo
Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
04/07/2008
POLÍTICA
Aproximamo-nos das eleições. A campanha dos candidatos toma vulto com o início da propaganda eleitoral que se estende de 06 de julho a 02 de outubro. E o dia 5 de outubro, este ano, nos oferece uma ocasião de alijar dos postos todos aqueles que agiram, no uso de seu mandato, em discordância com o Evangelho de Jesus Cristo.
A Igreja não participa da política partidária, mas o católico tem o dever de votar em candidatos idôneos que possam contribuir para o bem da sociedade. A passagem dos aspirantes aos cargos eletivos do executivo ou legislativo pelos meios de comunicação social é uma excelente oportunidade para examinar cada um dos pretendentes a esses lugares. O cristão deve cultivar um espírito crítico, no sentido de discernir entre a realidade e os propósitos manifestados. Por isso, importa verificar a vida pregressa e não apenas o que cada um anuncia ou promete.
Ao mesmo tempo, observar o procedimento no plano pessoal, doméstico e a atuação na sociedade. Quem aprova posições inaceitáveis, segundo a moral católica; quem não assume compromissos de lutar decididamente contra os desvios que ferem os princípios éticos; quem não demonstra a indispensável capacidade de gerir bem a complexa administração pública e as funções legislativas deve ser recusado pela consciência cristã. Quem assim está enquadrado, não merece o voto do cidadão fiel ao Senhor.
Paralelamente aos indivíduos, necessário se faz uma avaliação cuidadosa das diretivas do partido político a que pertencem.
Cai cada vez mais sobre nosso povo uma imensa desilusão relativa aos políticos, pela atitude de uns que se servem do mandato sem ter em vista o bem comum. O descalabro provocado pelos desvios de verbas públicas em benefício próprio ou da família veio acrescer a desconfiança que ameaça as instituições.
Sem negar a gravidade dos fatos, crimes muitas vezes impunes, não devemos lançar o descrédito às instituições democráticas. Antes, dar nossa contribuição, na oportunidade do pleito eleitoral, para punir os infratores e evitar a repetição desses crimes.
Os Bispos da América Latina, na Assembléia de Medellín, em 1968, ensinaram “que os cristãos considerem sua participação na vida política nas nações como um dever de consciência” (Conclusões 1,16). Essa atividade não compete aos eclesiásticos, conforme o Concílio Vaticano II (“Gaudium et Spes”, nº 43). A política partidária é o campo próprio dos leigos.
Neste período, impõe-se um esforço que atinja todos os que têm o dever e o direito de cumprir os compromissos cívicos no sentido de exercê-los tendo em vista o bem do Brasil. O Catecismo da Igreja Católica (nº 899) nos orienta: “A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar as realidades sociais, políticas e econômicas com as exigências da doutrina e da vida cristã”.
O Brasil tem os recursos necessários, se bem utilizados, para transformar a nação, corrigir os desvios e abrir-lhe um grande futuro. Faltam-nos líderes capazes de galvanizar as forças nacionais e conduzi-las para a solução dos problemas que afligem a maioria da população. Não nos deixemos, entretanto, levar pelo pessimismo.
Há sinais positivos. Começa a se formar uma mentalidade que exige mais firmemente a honorabilidade dos homens públicos. De um lado, são muitos os aspectos negativos: o desperdício de grãos, que apodrecem afrontando a miséria e a fome; obras inacabadas onde foram investidas altas somas ou desvios de verbas do erário público; a impunidade de muitos, a absolvição de personalidades comprometidas com falcatruas; o dinheiro surrupiado que não volta ao Estado, e tantas outras sombras. Felizmente, surgem luzes que devem ser devidamente valorizadas e aproveitadas para uma mudança salvadora. Cresce e se fortalece uma mentalidade contrária à contemporização com esses males. Vozes se elevam onde reinava o silêncio. Por exemplo: o fato das emendas orçamentárias para fins fraudulentos é muito antigo, infelizmente. Hoje ele é apresentado à execração pública.
Diante desse quadro, em vez de fazer aumentar a desconfiança em políticos e dirigentes de entidades governamentais, busquemos, pelo voto, modificar a situação existente. Somente através do voto consciente poderemos preservar a democracia.
Vejamos ainda um outro aspecto do problema. A escolha de pessoas dignas e capazes não é suficiente sem o apoio da opinião pública e o alicerce de princípios morais. Uma sociedade que abandona os critérios éticos em seu comportamento constitui um grave obstáculo à correção de rota para levar o Brasil a melhores dias. Um governante ou legislador deve ser honesto, ter família bem constituída, combater a pornografia, a violência, as drogas, a jogatina. Só assim poderá obter sucesso no exercício de sua missão de servir à comunidade.
A exigência de honorabilidade nos dirigentes seja incrementada. A punição dos culpados é uma ação benemérita, pois favorece a justiça e fortalece os fundamentos da sociedade. Valiosa contribuição para atingir esse objetivo vem da formação de um clima que apóie fortemente as medidas, às vezes amargas porém necessárias, para conseguir o que beneficiará a toda nação.
O esforço na seleção dos candidatos, colocando o bem do País acima de outros interesses e um grande empenho em prol da moralização da vida nacional são indispensáveis para alcançarmos êxito em favor de um Brasil próspero e feliz.
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