VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
03 de Junho de 2008
OS DONS DE DEUS
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Refletir sobre os dons de Deus pode nos trazer muita inspiração, de modo especial para a nossa prece, este contacto de diálogo com o Pai, pelo Cristo Jesus, no Espírito.
Reportemo-nos a uma cena que nos é muito conhecida, narrada pelo Evangelista São João, no capítulo 4: o diálogo de Jesus com a Samaritana. Jesus está sentado à beira do poço de Jacó, célebre na história de Israel. Lá Ele encontra uma pessoa, cujo nome não conhecemos, mas que, doravante, será identificada pela sua terra de origem: a Samaria. Dirigindo-se a ela, Jesus pede: “Dá-me de beber”. De que sede Jesus estava acometido? Evidentemente, não era só a sede física. Ele tinha sede de lhe falar ao coração, para mudar-lhe a vida e, através daquela mulher, fazer com que o Evangelho penetrasse, mais difusamente, na Samaria.
Os Apóstolos tinham saído a fim de comprar provisões. Jesus está sentado. Sua postura significa que não tem pressa; pelo contrário, coloca-se disponível para um diálogo profundo e renovador, que Ele inicia com o pedido: “Dá-me de beber”. Jesus sabe que a Samaritana tem condições de atendê-lo, pois vai recolher água do fundo do poço e encher o cântaro que, provavelmente, levará sobre a cabeça, conforme o costume.
Ela, porém, estranha: “Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!” (A frase resume o desprezo mútuo entre os dois povos). Jesus, então, começa a aprofundar a conversa: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é Aquele que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e Ele te daria uma água viva”.
“Se conhecesses o dom de Deus”... Este é o primeiro ponto a destacar. Os dons de Deus são, a princípio, de ordem natural, a começar pelas nossas riquezas pessoais. Portanto, conhecer o dom de Deus é uma atitude que começa por assumir as qualidades que Ele nos concedeu. E todos as temos, embora de diferentes maneiras. A Samaritana, certamente, possuía a riqueza feminina da sensibilidade, do raciocínio intuitivo, do amor atuante no cuidado doméstico.
Os dons de Deus se manifestam, também, na própria criação, que está ao nosso dispor, simbolizada pela água que a Samaritana viera buscar. Deus continua agindo no sustento dessa obra, na conservação da vida e da ordem universal. De fato, contemplando tudo o que está à nossa disposição, há os que se limitam a reconhecer a dimensão da ordem natural. Mas o dom de Deus vai além, atingindo o mais profundo do ser de cada um de nós. Ao convidar a Samaritana a experimentá-lo, Jesus desejava que ela acolhesse o pleno significado daquela água em sua vida.
Ele continua: “E se conhecesses Aquele que te fala e te pede água”... Aqui Jesus já começa, passo-a-passo, sua própria revelação. Muito mais do que um profeta, ou um Messias meramente humano, Ele é o enviado do Pai: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho único” (Jo 3,16). Eis o significado da Encarnação para a história humana e para a história da salvação. Ao chegar o sacrifício extremo do Filho, São Paulo diz: “Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com Ele todas as coisas?” (Rm 8,32).
“Ele nos amou primeiro”, diz São João (1Jo 4,19). Não foi nossa a iniciativa. Ele nos amou primeiro, e com amor infinito, um amor que quer associar-nos à sua felicidade eterna, quando chegar o termo da nossa caminhada terrestre. Ninguém conseguiria amar a Deus se Ele, primeiramente, não tivesse vindo a nós, dando-nos a possibilidade de retribuir esse amor. Aliás, nós nem conseguiríamos falar com Deus, se Ele não nos capacitasse para isso.
Adentramos, assim, o mundo sobrenatural da fé e da esperança: “Se conhecesses quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e Ele te daria uma água viva”. O maior problema do homem é que ele não consegue saciar sua sede do Infinito, tornando-se peregrino para a eternidade: “Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hb 13,14). Somente o próprio Autor da vida é que pode desalterar essa sede, pois nada há no mundo criado capaz de preencher a nossa ânsia de amor verdadeiro: “Amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor” (Jr 31,3).
Para isso, em primeiro lugar, é necessário conhecer melhor a Deus. “Se conhecesses Aquele que te fala”... Nós conhecemos Deus muito mal. Quando éramos pequenos, alguns de nós ouviram falar dele sob uma forma incompleta ou, até, deturpada. Fica-se com a idéia de um “Papai do céu bonachão”, encarregado da indigna tarefa de atender nossos pedidos, como uma espécie de “quebra-galho”. Outros o vêem qual banqueiro, isto é, Aquele que distribui as riquezas, porém segundo nossa própria vontade e imaginação...
Outros, ainda, esperam um taumaturgo, curandeiro, que os impeça de sofrer, definitivamente. É evidente que Jesus nos anunciou o Reino, no qual não mais haverá doença nem morte, pois Deus irá curar tudo. Mas não é nisso que se concentra o amor de Deus. Ele é a Caridade infinita. E há que experimentar essa Caridade, que pode se desdobrar, inclusive, numa possível cura, que Deus venha a nos conceder.
Mas o pior é considerar Deus como um juiz, cuja aplicação sumária da lei se configura em julgamento cruel. E aí se fica com medo dele, como se fosse um vingador. São João, porém, diz: “No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor” (1Jo 4,18).
Deus nos amou primeiro em Cristo, e se revelou a nós, para que tenhamos condições de amá-lo como Ele merece. Mas para se chegar a reconhecer esse Deus próximo e dialogante, que nos convida à intimidade com Ele, vai uma distância muito grande. Daí a necessidade de uma autêntica e proporcional educação catequética.
Sempre podemos, e devemos, pedir, embora Deus já saiba do que nós precisamos e, “pela virtude que opera em nós, pode fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou entendemos” (Ef 3,20). Isto é uma grande verdade. Por isso, São Tiago sentencia: “Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes as vossas paixões” (Tg 4,3). Jesus, na última noite que passou com seus Apóstolos, disse-lhes: “Até agora não pedistes nada em meu nome. Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja perfeita” (Jo 16,24).
“Se conhecesses Aquele que te pede água... Ele te daria a água da vida eterna”... Essa água pode ser o próprio amor de Deus, o Pão da Eucaristia e o Pão da Palavra; pode ser a graça da oração e do perdão, que Ele nos concede e que devemos devolver aos nossos irmãos que, porventura, nos tenham ofendido. Como seria bom se todos conhecêssemos os dons de Deus! Ele nos cobriria com a plenitude daquilo que somos capazes de receber, se o deixarmos agir em nós.
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