Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

02/05/2008

 

MEIOS DE COMUNICAÇÃO

       

O Concílio Vaticano II, pelo Decreto “Inter Mirifica”, determina: “Comemore-se em todas as Dioceses um dia, no decorrer do ano, no qual os fiéis sejam instruídos acerca de suas obrigações nesta matéria, sejam convidados a rezar por esta causa e a dar esmolas para este fim” (nº18). Trata-se do Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado na festa da Ascensão do Senhor, que, neste ano de 2008, ocorre a 4 de maio pela 42ª  vez na longa série e tem como tema “Os meios de comunicação social: na encruzilhada entre protagonismo e serviço. Buscar a verdade para partilhá-la”. Como de costume, o Santo Padre envia uma mensagem aos homens de boa vontade, sobre o assunto. Diz o Papa Bento XVI: “Graças a uma vertiginosa evolução tecnológica, os referidos meios de comunicação levantam novas e inéditas interrogações e problemas. É inegável a contribuição que podem dar para a circulação das notícias, o conhecimento dos fatos e a difusão do saber; por exemplo, contribuíram de modo decisivo para a alfabetização e a socialização, como também para o avanço da democracia e do diálogo entre os povos” (nº2). Ao lado desses aspectos altamente positivos, “infelizmente é bem real o risco de, pelo contrário, se transformarem em sistemas que visam submeter o homem a lógicas ditadas pelos interesses predominantes do momento. É o caso de uma comunicação usada para fins ideológicos ou para a venda de produtos de consumo mediante uma publicação obsessiva. Com o pretexto de se apresentar a realidade, de fato tende-se a legitimar e a impor modelos errados de vida pessoal, familiar ou social (...) por vezes não se hesita em recorrer à transgressão, à vulgaridade e à violência” (ibidem).

O extraordinário progresso dos “mass midia” também abre possibilidades abissais para o mal, que antes não existiam. Por isso, há que interrogar-se se é sensato deixar que os instrumentos de comunicação social se ponham ao serviço de um protagonismo indisciplinado ou acabem em poder de quem se serve deles para manipular as consciências. Não se deveria, antes, fazer com que permaneçam ao serviço da pessoa e do bem comum e favoreçam a formação ética do homem, seu crescimento interior?

“O papel que os instrumentos de comunicação assumiram na sociedade é já considerado parte integrante da questão antropológica, que surge como desafio crucial do terceiro milênio. De modo semelhante ao que se verifica no âmbito da vida humana, do matrimônio e da família, nas grandes questões contemporâneas relativas à paz, à justiça e à defesa da criação, também no setor das comunicações sociais estão em jogo dimensões constitutivas do homem e da verdade sobre ele. Quando a comunicação perde as amarras éticas e se esquiva ao controle social, acaba por deixar de ter em conta a centralidade e a dignidade inviolável do homem, arriscando-se a influir negativamente sobre a sua consciência, as suas decisões, e a condicionar, em última análise, a liberdade e a própria vida das pessoas. Por esse motivo é indispensável que as comunicações sociais defendam ciosamente a pessoa humana e respeitem plenamente a sua dignidade. São muitos a pensar que, neste âmbito, seja atualmente necessária uma ‘info-ética’ tal como existe a bioética no campo da medicina e da pesquisa científica relacionada com a vida” (nº4).

É preciso evitar que os “mass midia” se tornem o megafone do materialismo econômico e do relativismo ético, verdadeiras pragas do nosso tempo. Pelo contrário, eles podem e devem contribuir para dar a conhecer a verdade sobre o homem, defendendo-a ante aqueles que tendem a negá-la ou a destruí-la. Pode-se mesmo afirmar que a busca e a apresentação da verdade sobre o homem constituem a vocação mais sublime da comunicação social. Usar para tal fim as linguagens todas e cada vez mais belas e primorosas de que dispõem os “mass midia” é uma tarefa grandiosa, confiada em primeiro lugar aos responsáveis e operadores do setor. (...) Os novos “midia”, sobretudo telefonia e internet, estão a modificar a própria fisionomia da comunicação, e talvez esta seja uma ocasião preciosa para redesenhá-la, ou seja, para tornar mais visíveis (...) os traços essenciais e irrenunciáveis da verdade sobre a pessoa humana” (João Paulo II, Carta Apostólica “O rápido desenvolvimento”,10).

Um grande encargo pesa sobre os católicos que detêm em suas mãos instrumentos que transmitem conceitos, imagens e toda uma concepção de vida aos seus semelhantes. A vocação do comunicador, vivida segundo as orientações do Evangelho muito poderia realizar pela expansão do Reino de Jesus, mesmo em se tratando de assunto inteiramente profano. A presença invisível de Cristo será um fator valioso para a paz, a justiça e a concórdia entre os povos.

Aproveitemos o Dia Mundial das Comunicações Sociais para reconhecer a sua importância. Aos que neles trabalham recorda nossas responsabilidades em apoiá-los e o dever de ajudar, inclusive materialmente e pela palavra, o jornal, a emissora de rádio e a TV que servem ao Evangelho. Sem dúvida, entre as obrigações de um fiel, de modo particular em nossos dias, está a cooperação com esses veículos que transmitem a doutrina de Jesus Cristo.

Recordemos a exortação que nos propõe o Papa Paulo VI em “Evangelii Nuntiandi” (45 e 46): “Lançar mão desses meios potentes de comunicação social que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoado para o primeiro anúncio, a catequese ou o aperfeiçoamento ulterior da fé. Busquemos através da imprensa, rádio, cinema, televisão e outros recentes e valiosos meios levar a todos os homens a Mensagem de Cristo”.

Na Encíclica “Redemptoris Missio”, o Papa João Paulo II referindo-se ao centro cultural dos atenienses, afirma: “O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações (...) alcançaram tamanha importância que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos” (38). Valorizemos estes instrumentos na difusão do Reino de Deus entre nós.