Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro

01/08/2008

 

MODELO DE SACERDOTE

  

   

Já se tornou frutuosa tradição na Igreja do Brasil aproveitar o mês de agosto para incentivar e promover a pastoral vocacional. Isto se deve, em parte, à festa de São João Maria Vianney, celebrada anualmente no dia 4 de agosto. Pároco na pequena cidade de Ars, na diocese de Belley, na França, faleceu, já com fama de santidade, em 1859. A Igreja reconheceu suas virtudes e o promulgou modelo e patrono dos párocos, porque, apesar de suas limitadas qualidades intelectuais, deixou-se moldar pela Graça, que o fez pregador, homem de oração, de caridade e mortificação. Destarte, conseguiu insuflar vida nova à sua paróquia e atrair, de regiões vizinhas e distantes, multidões ávidas dos seus conselhos e ensinamentos, ministrados, tanto no púlpito, como no confessionário.

Tendo São João Maria Vianney, o Cura d’Ars diante dos olhos, a figura do padre abre o leque das atenções para os demais ministérios ordenados ou não, bem como sobre a vida religiosa que a Igreja não cessa de apreciar e apoiar. Os dons de Deus são distribuídos de maneira diversa, para edificar o conjunto do Corpo da Igreja (cf. Ef 4,16).

Muito se insiste na oração pelas vocações. Aliás, é o desejo expresso pelo Salvador: “Pedi ao senhor da messe que mande trabalhadores para a sua messe” (Lc 10,2). Essa atitude supõe também a resposta de Fé e de Amor, tanto dos vocacionados, quanto da comunidade que os acolhe.

O Código de Direito Canônico (cc. 232 e ss.) inclui a matéria “da formação dos clérigos” na legislação eclesiástica, ficando claro que a tarefa de incentivar as vocações é compromisso da Igreja toda.

Hoje, há um louvável otimismo em face do aumento do número das vocações, mas cumpre, contudo, seja examinado à luz de algumas verdades básicas. “Ao dar novo impulso ao primeiro dever de vossa solicitude pastoral no cultivo e formação dos vocacionados, faz-se necessária uma especial atenção às motivações profundas que levam um jovem a bater à porta do Seminário”, disse João Paulo II.

O modelo que orienta a preparação dos consagrados ao serviço do Senhor só é válido, se estiver em perfeita sintonia com o Concílio e o Papa. A fidelidade ao Romano Pontífice abrange os organismos através dos quais exerce o mandato, recebido de Cristo, de governar a Igreja. Falando aos Bispos brasileiros de Goiás e Mato Grosso, em visita “ad limina” em 4 de junho de 1985, João Paulo II, assim se expressa: “A História religiosa do Brasil revela um traço característico, componente essencial da piedade do povo brasileiro: um afeto sincero e filial ao Sucessor de Pedro (...)”.

Este mesmo afeto envolve necessariamente as pessoas e organismos que colaboram intimamente com o Papa e trabalham em seu nome e com sua autoridade.

O Seminário e outras casas congêneres se destinam a formar verdadeiros pastores para atender o Povo de Deus. Assim, só merecem esse nome se obedecerem e preservarem as normas dadas pelo Pastor Supremo. Caso contrário, um maior número de vocações constituirá ameaça à Igreja de amanhã.

Importa ser devidamente considerado o primado do sobrenatural nessas casas de formação. Na atmosfera materialista que respiramos na sociedade, a presença viva do sobrenatural deve marcar profundamente a educação dos seminaristas e pessoas consagradas à difusão da Mensagem Cristã. A convivência, o estilo de vida, a disciplina, os estudos conforme as diretrizes da Santa Sé contribuem eficazmente para ser alcançado o modelo proposto pelo Mestre aos que chama ao Seu serviço.

Para isso, concorre igualmente a clareza da Doutrina sobre as funções específicas do clero, superando qualquer obscuridade entre as atribuições do sacerdócio comum aos fiéis e o ministerial. Sem essa distinção, “os ministros leigos”, uma bênção em si mesmos, em um clima de confusão geram dificuldades.

Outro aspecto a ser observado é o meio profano onde vai exercer o seu ministério o padre de amanhã. Para ele deve preparar-se, não como especialista na solução dos problemas temporais e financeiros, mas como apóstolos de Cristo, a converter os homens ao Evangelho e levá-lo à vida pública e privada.

Embora deva familiarizar-se com as graves questões que afligem as pessoas, sua missão transcende tais dificuldades. Trata-se de alguém formado para viver no mundo, mas sem ser do mundo. Toda a tendência em nivelar esses consagrados a quem ele é enviado, esteriliza os esforços, deixa sem alimento os que têm fome de Deus. A identidade do padre com Jesus Cristo é o alicerce de frutuosa atividade sacerdotal.

A obra vocacional não é exclusiva de alguns setores dentro da Igreja. Ela se torna extensiva a todo e qualquer tipo de pastoral. A 15 de junho de 1985, em Visita pastoral à Região Veneto, Itália, assim se expressou o Santo Padre João Paulo II: “Não me canso de afirmar que a vitalidade de uma Igreja local se avalia pelo número de vocações”.

Da qualidade da formação dependerá, em grande parte, o futuro religioso em nossa Terra. Recordo que, falando aos Bispos do Regional Leste 2 da CNBB, João Paulo II assim se expressou: “Não tenhais receio de serdes rigorosos na seleção: é o bem da Igreja e dos próprios jovens que o exige. É melhor ter poucos candidatos, mas com os quais se poderá iniciar um caminho formativo sério, do que ver cheios os seminários com candidatos que, na sua deficiência pessoal, tornam inviável a própria formação e dificultam a dos demais”. Nesse esforço pelo reino de Deus conta mais a qualidade que a quantidade. Assim, o pobre pároco de Ars fez muito mais pelo bem dos cristãos que legiões de ministros medíocres.

A tarefa não é fácil, mas urgente e necessária. Neste mês de agosto é bom que a comunidade eclesial se conscientize disto, valorizando o Seminário, incentivando os seus responsáveis, colaborando ativamente com o inestimável dom de sua oração e com o seu contributo material.