VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

01 de Abril de 2008

 

A DIVINA MISERICÓRDIA

 

   

O último Domingo foi dedicado à misericórdia do Senhor. Sua celebração, dentro do tempo pascal, nos remete à importância que a Revelação, a Teologia e a Espiritualidade, com razão, dedicam a esse atributo divino.

A partir de critérios filosóficos, é bastante difícil definir a misericórdia. Encontramos a correta noção nos textos revelados da Sagrada Escritura, descrevendo a maneira como Deus se relaciona com o seu povo. Sua misericórdia manifesta-se, concreta e dinamicamente, no dia-a-dia. O trecho seguinte, extraído do Livro do Êxodo, é um bom exemplo: “O Senhor desceu na nuvem e esteve perto de Moisés, pronunciando o nome de Javé. O Senhor passou diante dele, exclamando: ‘Javé, Javé, Deus compassivo e misericordioso, lento para a cólera, rico em bondade e em fidelidade, que conserva sua graça até mil gerações, que perdoa a iniqüidade, a rebeldia e o pecado, mas não tem por inocente o culpado’” (Ex 34,5-7).  

A partir de um ambiente elevado, sobrenatural, simbolizado pela nuvem, Deus se aproxima do seu povo e o instrui. Os diversos atributos divinos, enumerados nos textos bíblicos, são como que desdobramentos do Amor em ação, que se inclina para aqueles que estão na miséria e no desalento físico, moral e, até mesmo, espiritual. O Coração de Deus se dá a todos eles (miser+cor+dare).

A compaixão (“sofrer com”) vai além da misericórdia. Deus compartilha o sofrimento dos que estão em duras provações. A propósito, seria bom repensar o conceito, freqüentemente difundido, de que Deus não poderia estar sujeito ao sofrimento, por ser imperfeição. Sofrer, especialmente por compaixão, é altamente qualificativo do amadurecimento ou da excelência de uma pessoa.

Outro conceito correlato é o de comiseração. Deus, praticamente, “entra” na miséria humana, identifica-se conosco, para ficar próximo de quem experimenta as piores condições de rebaixamento e de humilhação: “Não temos nEle um Pontífice incapaz de compadecer-se das nossas fraquezas. Ao contrário, passou pelas mesmas provações que nós, com exceção do pecado” (Hb 4,15).

A seguir, vem um grau ainda mais profundo de misericórdia, que é a empatia, ou seja, a capacidade de experimentar, pela própria sensibilidade, a situação concreta de outrem: “entrar na dele”. É o que Cristo nos ensina, através da parábola do Bom Samaritano, que se aproxima e se compadece do próximo, quase morto, e toma todas as providências para retirá-lo daquela situação lastimável, que ele sente como sua (cf. Lc 10,30-37).

A humanidade foi mortalmente ferida, a partir do instante em que se separou de Deus, e quis se erigir em igualdade, ou até superioridade ao Criador, como diz o tentador, o pai da mentira: “Vós sereis deuses” (Gn 3,5). Então, Deus entra na nossa história, assume-a e a transforma, completamente. O Filho, nosso Salvador, enviado pelo Pai, no amor do Espírito, vem ao mundo para assumir a nossa condição toda. Encontra-nos acometidos pelas feridas do pecado, machucados pelas conseqüências de nossos próprios erros, falidos em nossas tentativas de autosuperação.

O que Ele nos traz? - O perdão. Daí vem a dúvida dos doutores da Lei, diante da atitude de Jesus, ao perdoar os pecados do paralítico: “Como pode este homem falar assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?” (Mc 2,7). Com isso eles próprios declararam, dado que o perdão foi confirmado pela cura física, que Jesus, além de ser o Messias, é Deus. Só Deus perdoa. O perdão é divino. O perdão que damos, humanamente, se o damos até à profundidade do nosso ser, retirando qualquer ressentimento ou recordação das coisas passadas, certamente é inspirado pelo próprio Deus.

E como ficou a nossa dívida? Jesus entregou o preço do seu sangue, de valor infinito, para pagar as nossas culpas, que são finitas, mas atingem e ferem a própria bondade do Deus infinito. Seu Sangue nos resgatou da influência deletéria que o maligno exercia sobre nós. São Paulo explica: “Fostes comprados por um grande preço” (1Cor 6,20). E São Pedro complementa: “Porque vós sabeis que não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de Cristo” (1Pd 1,18).

Não temos merecimento algum na vinda de Cristo à terra e na graça que recebemos através do seu Espírito. Tudo é bondade gratuita, pura misericórdia de Deus. Assim, se estabelece a Nova Aliança, definitiva e eterna, selada pelo Sangue do próprio Cristo. É o que nós celebramos na Eucaristia: “Este cálice é a Nova Aliança no meu Sangue” (1Cor 11,25).

Deus continua a nos prodigalizar o perdão e a misericórdia, no dia-a-dia de nossa vida, através de outras formas de sua Presença atuante: além do Batismo, da Eucaristia e da Unção dos Enfermos, Ele atua pela Palavra, “que não volta sem ter produzido seu efeito, sem ter executado minha vontade e cumprido sua missão” (Is 55,11).

A misericórdia também se manifesta em cada graça que nos é concedida. Somos tão fracos que, embora sabendo o que devamos fazer, não temos suficiente força moral, nem espiritual, para consegui-lo. Em tais ocasiões, vem em nosso socorro esse auxílio extraordinário chamado graça, conforme São João ensina: “Todos nós recebemos da sua plenitude [do Verbo encarnado] graça sobre graça” (Jo 1,16). As graças como que se sobrepõem, para podermos concretizar o que nos é inspirado no ideal de uma vida cristã renovada, a de um “renascido” pela ação ininterrupta de Cristo, o Salvador.

A misericórdia divina se achega a nós, inspirando cada um de nossos bons propósitos e atos meritórios. São tantas as inspirações que recebemos! Elas transparecem em nosso diálogo com Deus mediante a oração, fundamentada na própria oração de Cristo ao Pai, como Mediador da nossa fé. Disto nos fala este tópico sublime da Carta aos Hebreus: “Aproximemo-nos, pois, confiadamente, do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno” (Hb 4,16).

Peçamos a Deus que fortaleça nossa confiança na sua misericórdia e alente a nossa oração, para que obtenhamos seus efeitos restauradores e divinizantes. A fé, que opera pelo amor, nos faz apelar à Trindade Santa: “Tende compaixão de mim, que sou um pobre pecador”, pois nada somos por nós mesmos, a menos que a misericórdia de Deus nos penetre e nos transforme... até chegarmos a ser “um homem adulto à medida completa da plenitude de Cristo” (Ef 4,13).