Mensagem do Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales
Arcebispo
Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro
01/02/2008
A ESPERANÇA CRISTÃ
Em meio aos problemas que nos afligem tem um especial lugar a Carta encíclica “Spes Salvi” sobre “A esperança cristã”, recentemente publicada. O Sumo Pontífice Bento XVI se dirige aos Bispos, aos presbíteros, aos diáconos, às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos.
Eis alguns tópicos. O Santo Padre, na introdução cita São Paulo (Rm 8,24 ss): “Pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que se espera não é esperado. Acaso alguém espera o que vê? E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos”. Nossa salvação é objeto de esperança, a ponto de, em várias passagens, ser possível intercambiar os termos “fé” e “esperança”. Assim, a Carta aos Hebreus liga estreitamente a “plenitude da fé” (10,22) com a “imutável profissão da esperança” (10,23): “esperança equivale a fé” (3,15). São Paulo lembra aos Efésios que, antes de seu encontro com Cristo, estavam “sem esperança e sem Deus no mundo” (Efésios 2,12).
O Santo Padre coloca “a questão em que consiste esta esperança que, enquanto esperança, é a redenção”. Dá como exemplo a santa canonizada pelo Papa João Paulo II, Josefina Bakhita. Nascida por volta de 1869 - ela mesma não sabia a data precisa – no Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, vendida cinco vezes nos mercados do Sudão. Por último, acabou escrava ao serviço da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue, resultando 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Em 1882 foi comprada pelo cônsul italiano. Toda sua vida se transformou. Obteve a liberdade. Em 9 de janeiro de 1890, foi batizada e crismada. Recebeu a Primeira Comunhão administrada pelo Patriarca de Veneza. Ingressou na Congregação das Irmãs Canossianas e viveu intensamente sua vida religiosa. Foi canonizada pelo Papa João Paulo II.
O Senhor Jesus não veio trazer uma mensagem sócio-revolucionária para abolir a escravatura, mas transformou o mundo a partir de dentro como se lê na Epístola a Filémon, levada pelo escravo fugitivo, a Onésimo, seu proprietário. Os homens não se relacionam entre si como patrões e escravos,mas se transformam em irmãos.
O século XIX não perdeu sua fé no progresso, como nova forma de esperança humana e continuou a considerar a razão e liberdade como as estrelas-guia para seguir no caminho da esperança.
Na aprendizagem em uma escola da esperança, está a oração. Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve. Quando já não posso falar com ninguém, a Deus sempre posso fazer-me ouvir: Se não há mais ninguém que me possa ajudar por tratar-se de uma necessidade ou de uma expectativa que supera a capacidade humana de esperar, Ele vem em meu socorro. Se me encontro confinado numa extrema solidão (...) o orante jamais está totalmente só. Dos seus 13 anos de prisão, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível Cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: “Orações de esperança”. Durante esses 13 anos, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites de solidão.
O sofrimento é um lugar da aprendizagem da esperança. “Tal como o agir, também ele faz parte da existência humana. Deriva, por um lado, da nossa finitude e, por outro, do volume de culpa que se acumulou ao longo da história e, mesmo atualmente, cresce de modo irreprimível. Certamente é preciso fazer todo o possível para diminuir o padecimento: impedir, na medida do viável, a dor dos inocentes, amenizá-las, ajudar a superar os sofrimentos psíquicos. Todos estes são deveres, tanto da justiça como da caridade, que se inserem nas exigências fundamentais da existência cristã e de cada vida verdadeiramente humana. Na luta contra a dor física conseguiu-se realizar grandes progressos; mas o sofrimento dos inocentes, inclusive os psíquicos, aumentaram durante os últimos decênios. Devemos – é verdade – fazer tudo por superá-lo, mas eliminá-lo completamente do mundo não entra nas nossas possibilidades; simplesmente não podemos desfazer-nos da nossa finitude, nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, da culpa. Isto só Deus o poderia fazer: só um Deus que pessoalmente entra na história fazendo-se homem e sofre. Nós sabemos que este Deus existe e que é o poder que “tira os pecados do mundo” (Jo 1,29) e está presente entre nós. Com a fé na existência deste poder, surgiu na História a esperança da cura do mundo. Mas trata-se precisamente de esperança, e não ainda de cumprimento; esperança que nos dá a coragem de nos colocarmos da parte do bem, inclusive onde a realidade parece sem esperança, cientes de que, olhando o desenrolar da História tal como nos aparece exteriormente, o poder da culpa vai continuar sendo uma presença terrível ainda no futuro.
Podemos lutar contra o sofrimento, mas não eliminá-lo. Precisamente onde os homens, na tentativa de evitar qualquer sofrimento, procuram esquivar-se de tudo o que poderia significar padecimento, onde querem evitar a canseira e o sofrimento por causa da verdade, do amor, do bem, descambam numa vida vazia, na qual provavelmente já quase não existe a dor, mas experimenta-se muito mais a obscura sensação da falta de sentido e a solidão. Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que salva o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor.
A nossa esperança é também para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim. Como cristãos, não basta perguntar: como posso salvar-me a mim mesmo? O que posso fazer a fim de que os outros sejam salvos e nasça também para eles a estrela da esperança. Então terei feito também o máximo pela minha salvação pessoal.
Estes são alguns tópicos da encíclica “Spes salvi”; é na esperança que fomos salvos. Sirvam de estímulos à leitura do texto integral da Encíclica sobre a esperança, tão importante em nossos dias.
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