VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
26 de Fevereiro de 2008
Ainda estamos no início do ano letivo, tempo em que se renovam Reitorias, Diretorias, corpos docentes e discentes das mais diversas instituições de ensino. Assuntos como grades curriculares e conteúdos de disciplinas estão na ordem do dia.
Dentro desse quadro, vamos fazer uma breve reflexão sobre os nossos Seminários. São escolas de formação presbiteral, em regime de internato, com vida comunitária. Entretanto, não são comunidades fechadas, dado que nossos Seminaristas, nos finais de semana, vão trabalhar nas diversas Pastorais, em nossas Paróquias do Rio de Janeiro.
A formação começa pelo Curso Propedêutico (pro paideo significa “ser conduzido pela mão”). Trata-se de um ano preparatório, que a Arquidiocese do Rio de Janeiro ministra no Seminário Propedêutico Rainha dos Apóstolos, localizado no bairro da Tijuca. São oferecidas vagas para 30 a 40 jovens, integralmente ocupadas, graças ao bom Deus. Lá os nossos jovens vocacionados, tendo concluído o Ensino Médio, aprimoram determinados conteúdos, que são fundamentais para ingressarem na formação acadêmica propriamente dita, a formação presbiteral de nível superior.
As disciplinas ministradas durante o ano propedêutico visam a aprofundar o conhecimento do Português, e iniciar um estudo básico de Latim e de Espanhol, língua escolhida para facilitar o intercâmbio intelectual com os demais países latino-americanos. Muitos jovens também precisam de um melhor embasamento sobre a doutrina católica. Além disso, mesmo provindo, freqüentemente, de grupos engajados em Paróquias e Movimentos, ainda não amadureceram a formação comunitária de convivência fraterna e de participação litúrgica, sobretudo na Missa e na Liturgia das Horas.
O próximo passo na formação é a Faculdade de Filosofia. Aqui no Rio de Janeiro, o curso é ministrado no Seminário São José, como extensão da PUC, durante um período de 6 semestres. Destina-se, prioritariamente, mas não exclusivamente, aos candidatos ao Diaconato e Presbiterato. Admitem-se, também, religiosas, leigos e leigas, interessados numa formação superior nesta área.
A verdadeira Filosofia, a ciência da razão, o amor à sabedoria, é um dos estudos, no meu entender, mais atraentes e, ao mesmo tempo, utilíssimo na preparação dos futuros teólogos. A formação filosófica permite-lhes percorrer a história do pensamento humano, através das vidas e obras dos grandes filósofos de todos os tempos. Os jovens também aprendem a “pensar melhor” com a Lógica Filosófica. Esta lhes ensina a ordenar idéias, conceitos e argumentação com clareza e coerência.
Outras disciplinas como a Antropologia e a Cosmologia lhes proporcionam conhecimento aprofundado sobre o homem e o universo. A Metafísica lhes abre as portas do Transcendente, pois trata do conhecimento na sua forma de abstração mais completa, a partir do concreto para o conceitual. Os Seminaristas também estudam a Ética, baseada no raciocínio filosófico, que prepara os fundamentos da Moral cristã, amparada na fé.
Não se esgota aqui a descrição das disciplinas que compõem o currículo da nossa Faculdade Eclesiástica de Filosofia. Entretanto, creio ter apresentado um breve esboço da acurada preparação, oferecida aos nossos Seminaristas, para os posteriores estudos teológicos.
Tendo obtido o certificado da Faculdade de Filosofia, os estudantes podem prosseguir para o Curso de Teologia, que se prolonga por 8 semestres de estudos. Nos mesmos moldes da Filosofia, o curso é ministrado nas próprias dependências do Seminário São José, mas como extensão da PUC. Nosso Seminário Arquidiocesano fica no bairro do Rio Comprido. Atualmente, conta com, aproximadamente, 120 alunos, candidatos ao Diaconato e ao Presbiterato.
A Teologia é a ciência da fé, ou seja, a ciência sobre Deus. Há poucas semanas atrás, usei este espaço para comentar uma pergunta que me foi feita: “Por que Deus é ‘Livro fechado’”? É a Teologia, exatamente, que nos abre esse livro, de par em par, e entra a pesquisar os fundamentos da nossa fé, baseada na Revelação que o próprio Deus fez de si mesmo.
Resumidamente, podemos dizer que a Teologia abrange o estudo das Sagradas Escrituras, da Doutrina da fé, nos diversos tratados da Teologia Sistemática, da História da Igreja, da Liturgia, do Direito Canônico, da Moral e da Espiritualidade. Nossa Faculdade Teológica também prepara os candidatos para o trabalho pastoral e, inclusive, administrativo. Atualmente, estuda-se até Economia Paroquial. Ao final dos diversos ciclos de estudo, todos devem preparar uma Monografia, assistidos por um orientador. Somente após a aprovação desse texto pela Direção da Faculdade, é que o candidato obtém o certificado de conclusão, estando apto, intelectualmente, para a Ordenação: diaconal e presbiteral.
Para que a formação acadêmica possa dar bons frutos, exigem-se dos futuros Sacerdotes 4 requisitos básicos, conforme as instruções emanadas da Santa Sé:
- Ser pessoa com saúde física e mental e, preferencialmente, sem problemas familiares graves.
- Possuir aptidão intelectual, pelo menos mediana, para vencer as dificuldades dos estudos acadêmicos.
- Testemunhar piedade e vivência espiritual, na prática da oração e na freqüência aos Sacramentos.
- Ter senso comunitário, que lhe possibilite viver e trabalhar em equipe, para se acostumar, futuramente, a participar do presbitério de forma fraterna e cooperativa.
É bom, de tempos em tempos, voltarmos ao tema da formação de nossos futuros Sacerdotes. Este conhecimento dos Seminários deve suscitar o apoio das Comunidades Paroquiais, Associações, Movimentos e de outros grupos eclesiais à Pastoral Vocacional. É prova de amor à Igreja e desejo de santificação. Pois, nenhum de nós se santifica sozinho.
Cristo nos deixou a preciosa mediação humana do Sacerdote, para governar, ensinar e zelar pela santificação de seu povo. Se queremos chegar à santidade, que é o seguimento de Cristo, mesmo dentro das nossas limitações humanas, só poderemos consegui-lo com a assistência do Espírito Santo. Portanto, procuremos apoiar nossos Seminários, em tudo aquilo que nos for possível, pois “como invocarão Aquele em quem não têm fé? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” (Rm 10,14-15).
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