VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

25 de Março de 2008

 

O SENTIDO DA PÁSCOA

 

Neste tempo radioso da Páscoa, vamos refletir sobre o sentido da maior festa litúrgica da Igreja. Para Israel a Páscoa era, inicialmente, uma festa pastoril, na qual levavam ao Senhor as primícias do rebanho. Os melhores animais eram oferecidos e aspergiam-se com seu sangue os portais das casas, relembrando a saída do Egito para a Terra Prometida. Naquela noite do Êxodo, Deus castigou os Egípcios por não libertarem o povo eleito, enviando seu anjo para matar todos os primogênitos das famílias e dos animais (cf. Ex 12,1-42). Assim, o primeiro sentido da Páscoa é a proteção que Deus propicia àqueles que lhe pertencem.

Posteriormente, a Páscoa passou a ser uma festa agrária. Celebrava-se a doação das primícias da agricultura a Deus: frutas e cereais, dentre estes, a flor dos cereais, que é o trigo. O pão é o alimento primordial da humanidade. Na Páscoa, ofertava-se, então, o pão primicial. Era a festa dos pães novos. O rico e forte simbolismo do pão adquiriu um sentido especialíssimo no Novo Testamento, conforme nos ensina o Evangelho de São João (cf. Jo 6), do qual trataremos adiante.

Somente no templo faziam-se as oferendas a Deus, anualmente. Os Evangelhos registram três viagens de Jesus a Jerusalém, por ocasião da Páscoa. No primeiro relato, Jesus aparece no templo aos doze anos, discutindo com os escribas e doutores da lei (cf. Lc 2,41-52). Donde lhe vem toda essa sabedoria? Somente se pode responder pelo reconhecimento da Sabedoria eterna, presente naquele jovem, que assumira a natureza humana para estar conosco e nos salvar.

Na segunda ocasião, Jesus não se mostra publicamente, somente a pessoas particulares, porque os judeus tinham decidido matá-lo. Celebra a festa da Páscoa, mantém diálogo com os que lhe são fiéis e, à noite, recolhe-se junto a seus amigos.

A terceira ida é a mais importante. Representa o termo da missão e da vida de Jesus, o ponto máximo a que Ele queria chegar. Ele se refere a isto como a um batismo: “Devo ser batizado num batismo; e quanto anseio até que ele se cumpra!” (Lc 12,50). Este momento é exatamente o da sua Morte, começando com a agonia no Horto de Getsêmani, continuando com o vexame do processo sumário, conduzido por Pilatos e, concluindo com a Paixão, o caminho do Calvário, a Crucifixão e o Falecimento. Mas, toda essa aparente tragédia foi, afinal, iluminada pela gloriosa Ressurreição do Cordeiro Imolado.

 Voltando à festa pastoril, encontramos em o Novo Testamento a analogia fundamental e definitiva entre o sangue de animais imolados, marcando as casas, com o Sangue de Cristo, derramado por nós na cruz. Já não se assinalam os portais, mas cada pessoa é impregnada desse precioso Sangue. São Paulo chega a afirmar: “No Filho, pelo seu sangue, temos a Redenção, a remissão dos pecados, segundo as riquezas da sua graça que derramou profusamente sobre nós, em torrentes de sabedoria e de prudência” (Ef 1,7). A viagem final do Senhor a Jerusalém é o início do nosso caminho de Salvação.

A Páscoa de Jesus Cristo uniu a festa pastoril à festa do pão novo, dando-lhes pleno sentido. Surgem uma nova realidade de vida e um novo sustento para a humanidade, que transcendem a dimensão material, apontando para o Absoluto. Especialmente, no capítulo 6 do Evangelho de São João, Jesus fala da “Vida eterna” e do “Pão novo”: “Eu sou o Pão da Vida: aquele que vem a mim não terá fome, e aquele que crê em mim jamais terá sede. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo” (Jo 6,35.51). Eis a promessa da Eucaristia.

A manutenção desta “Vida nova” precisa do sustento que nos vem através do Pão da Eucaristia e do Pão da Palavra: a doutrina da Verdade, que desmascara toda ilusão, mentira e embuste. Precisa-se, também, da graça, infundida em nós pelos Sacramentos. O cristão é alguém que não se acomoda ao que “já era”, simplesmente. Sua vida é um contínuo dinamismo, em busca de ideais, perspectivas e horizontes novos, firmemente alicerçados na “pedra angular”, o Senhor Jesus, e firmados pelo Espírito Santo.

Até nas Alianças anteriores que Deus fez com seu povo, encontramos alusões a esta novidade. As primeiras alianças precisavam ser constantemente renovadas, por causa da infidelidade de Israel. Foram quatro: com nossos primeiros pais, no paraíso; com Noé, caracterizada pelo arco-íris; com Abraão, prometendo-lhe uma descendência perene; com Moisés, explicitando-lhe a lei natural através do Decálogo.

Finalmente, Deus estabeleceu com a humanidade a Nova Aliança, definitiva e eterna, que não será jamais rompida, pois fundamenta-se no Sangue de infinito valor do próprio Filho, Jesus Cristo. Ele mesmo o atesta, na última Ceia com os Apóstolos, ao instituir a Eucaristia: “Este cálice é a Nova Aliança no meu sangue, derramado por vós” (Lc 22,20).

Por isso, estaremos sempre bem conscientes da importância ímpar de comungarmos o Corpo e o Sangue do Senhor. São Paulo alerta: “Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que o come e bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação” (1Cor 11,28-29).

Numa oração preparatória, antes de receber a Eucaristia, o celebrante expressa a súplica, que podemos repetir em nossa prece diária: “Senhor, não permitais que eu me separe de Vós”. Como nos separamos? Por rejeição total do senhorio de Deus em nossa vida, dedicando-nos a coisas exclusivamente materiais e, não raro, opostas aos ideais supremos do Evangelho, que nos levam a fechar ao amor e à justiça para com os irmãos e irmãs, resultante do fechamento hermético ao próprio Deus.

Agora, no auge da Campanha da Fraternidade, reitero minhas exortações, publicadas em reflexões anteriores, sobre o apreço que devemos dar à vida. Começando pela nossa própria vida, através da prática da temperança e do domínio, em relação às coisas que nos cercam. Preservemos nossa saúde e nossa paz interior, pois são dons maravilhosos de Deus para cada um dos seus filhos e filhas.

Defendamos o direito dos nascituros, pois são pessoas humanas como nós, e não podem ser rebaixadas à condição de meros doadores de células ou de conseqüências de paixões afetivas. Respeitemos a vida do próximo que, mesmo sem ser, ainda, nosso irmão ou irmã em Cristo, é imagem e semelhança do Deus uno e trino. Cuidemos dos idosos, propiciando-lhes um despedir desta vida para a eternidade na paz de terem cumprido sua missão na terra. À semelhança das palavras de Jesus, possam dizer: “Nas tuas mãos, Senhor, entrego a minha vida”.

Neste tempo pascal, com intensa alegria, celebramos a vida, que nos é dada pelo Criador, e é restaurada, após o pecado, pela Paixão e pela Ressurreição de Cristo!