VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

22 de Janeiro de 2008

 

PROCESSO DE RENOVAÇÃO


 

É impressionante ver uma procissão que vai avançando, em meio a cantos e orações. Interessam a fé, a devoção, não o cansaço, o calor, ou o suor. A procissão começa, antes de tudo, no coração: é necessário estar lá. Não se segue uma simples imagem, porquanto veneranda e antiga; persegue-se, busca-se um ideal. A devoção ao santo que deixou um exemplo, leva este nosso povo a imitar os mesmos valores, sonhar os mesmos sonhos e objetivos que levaram um jovem capitão da guarda imperial a dar sua vida em holocausto. Somos atraídos pela vida e pelo exemplo daquele que invocamos como Padroeiro da nossa querida cidade e Arquidiocese do Rio Janeiro: São Sebastião.

Contemplar uma procissão que passa leva-nos a considerar, na mente e no coração, o significado profundo que os Santos: Apóstolos, Mártires, Confessores e Santas Virgens representam para todos nós, especialmente em nossos dias. Aparecem-nos, com evidente clareza, quais testemunhas de uma fé inquebrantável, luzeiros de esperança que sinalizam o “caminho estreito da vida eterna”, o roteiro que passa pela fidelidade a Cristo e à sua Igreja, até à morte.

O Livro do Eclesiástico faz o elogio dos heróicos modelos do passado, para aprendermos a pautar a nossa vida pela deles como “glórias inapagáveis” de justiça e retidão moral. Nada os detinha, nem mesmo perseguições ou a própria morte, na adesão à verdade (Cf. Eclesiástico 40,1-15). No Livro da Sabedoria defrontamo-nos com uma grande “nuvem de testemunhas”, que souberam espelhar a eterna Sabedoria em cada passo de suas vidas. A Carta aos Hebreus nos apresenta os Santos como modelos de fé que jamais fraquejaram, pois eram guiados como que pelo “invisível” através de quaisquer sofrimentos e martírios (Hb 11,1-40).

Além disso, a vida dos Santos e Mártires evidencia a união profunda com o mistério pascal de Cristo em que se radica e donde promana todo o seu vigor e eficácia. Suas vidas e ensinamentos reproduzem a lógica do Evangelho, seus valores e imperativos. Os Santos e Santas souberam escolher “o único necessário”; compraram, ao preço de total generosidade, “a mais preciosa pérola”; completaram “em sua carne o que faltava à paixão de Cristo” (Cl 1,24), refletindo a multiforme e inesgotável riqueza do seu rosto. Para todos os que se angustiam com a vida futura, responde a voz inconfundível de Santa Teresinha: “Eu não morro: entro na verdadeira vida”.

Desta forma, venerando a memória de nossos Padroeiros, estreitamos cada vez mais os laços daquela única Família de Cristo, nascida do seu Sangue e difundida pelo sopro do Espírito: a Santa Igreja!

São Sebastião, Padroeiro e Defensor!

Pelo ano de 260 vamos encontrá-lo, ainda jovem, na cidade de Milão, na Itália, sendo educado na fé cristã pelos seus próprios pais. Essa sólida formação vinha aprimorar-lhe a extraordinária inteligência e firmeza de caráter. Como vocação, escolheu o exercício da arte militar. Bem sabia ele, que em qualquer carreira é possível e necessário seguir a Cristo, Caminho único e Verdade absoluta. Sebastião galgou diversos graus na hierarquia militar, chegando a ser escolhido como Capitão e Chefe de toda a guarda imperial.

Encontramo-nos em Roma no tempo do Imperador Maximiliano, e mais tarde Diocleciano, cruéis perseguidores e inimigos dos cristãos. Sebastião, sem esconder a sua identidade, tenta ajudar e intervir onde pode para amenizar o sofrimento de tantos irmãos e irmãs na fé: condenados, massacrados decapitados, entregues às feras... Em toda essa situação de sangue ainda encontra tempo e oportunidade para evangelizar, convertendo soldados e prisioneiros. O próprio Governador de Roma e o seu filho foram levados à fé cristã por meio dele.

Mas, essa coragem e o seu testemunho de fé e caridade tiveram o supremo momento de prova. Falsos colegas, companheiros de profissão, acusaram-no perante o imperador como traidor, isto é, cristão, seguidor de Jesus Cristo. Como sinal de desprezo é condenado como ímpio, desclassificado como militar, posto como alvo para os flecheiros. Crivado de flechas, seu corpo exangue, pendia daquele tronco como sinal de fidelidade ao supremo Chefe, Rei do Universo. O sangue inocente mais uma vez embebia o solo de Roma!...

Piedosa senhora – Irene – levou o corpo do mártir para sua casa, preparando-lhe digna sepultura. Ao notar que ainda palpitava, tentou reanimá-lo, lavando-lhe as feridas, cuidando dele com desvelos de mãe e enfermeira. Sebastião como que reviveu e, apenas refeito do primeiro suplício, apresentou-se a seu imperador, recriminando-lhe a crueldade e a injustiça para com criaturas inofensivas e inocentes, os cristãos. Foi condenado mais uma vez, golpeado até ao extremo sacrifício, em testemunho de fidelidade a seu único Senhor, Cristo, Rei dos exércitos.

Brilhe para todos nós o exemplo ímpar de seu amor e fidelidade a Cristo e a seus ensinamentos! Que a bênção de seu martírio se espalhe sobre toda a cidade do Rio de Janeiro!

Rezemos, com fervor, a prece do prefácio da Missa própria:

“Cristo, teu Filho, oferecendo sua vida por nosso resgate, amou-nos até ao fim e, assim, ensinou-nos, que não há amor maior do que o daquele que aceita a morte pelos irmãos. Nessa escola, Sebastião, discípulo verdadeiro e fiel, por seu martírio deu, diante dos homens, a prova suprema do amor. Agora a Igreja se alegra, unindo sua voz ao canto dos anjos e de todos os mártires e santos que sem fim cantam um hino à tua glória.”