VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
18 de Março de 2008
Tenho a alegria de dirigir-me aos amigos para partilhar algumas reflexões sobre o último Domingo, tão cheio de significado, por festejar a entrada de Jesus em Jerusalém. Diante da perspectiva do terrível sofrimento que se seguirá, o modo de Jesus agir nos deixa um tanto perplexos: por que Ele preparou sua entrada em Jerusalém, embora de forma tão simples, mas solene? O que suscitou naquele povo tanto entusiasmo e tantas demonstrações de respeito e de apreço, ao acompanhá-lo rumo à Capital? Finalmente, nós nos perguntamos: Quais as melhores lições que podemos tirar deste episódio?
Jesus quis manifestar publicamente o que Ele já tinha afirmado em particular: ser o Messias esperado. Contudo, Ele faz uma entrada completamente diferente da que era costume em Jerusalém, ou em outras grandes cidades. Em Roma, por exemplo, o retorno dos conquistadores vitoriosos, ou a chegada de alguém muito importante eram verdadeiros festivais de ostentação. Jesus vem, mansamente, montado num jumentinho, talvez saudando à direita e à esquerda, à medida que o povo colocava os mantos, ramos de oliveira e ostentava palmas, para homenageá-lo. Não foi uma entrada triunfal, no sentido profano. Evidentemente, esta é uma imagem profética, conforme o próprio Evangelho de São João registra: “Tendo Jesus encontrado um jumentinho, montou nele, segundo o que está escrito: ‘Não temas, filha de Sião, eis que vem o teu Rei montado num filho de jumenta’ (Zc 9,9)” (Jo 12,14-15).
Se Jesus tivesse manifestado, claramente, sua messianidade aos Judeus, a maioria o teria rejeitado. Sua figura contrariava a expectativa deles sobre o Messias: esperavam um libertador político, aquele que iria restaurar o esplendor da realeza davídica. É claro que essa idéia se chocava, essencialmente, com o que Jesus afirmou sobre sua missão. Ele veio para nos revelar o Mistério de Deus: do Pai, que o envia ao mundo, de si próprio como seu Filho, nosso Salvador, e do Espírito Santo, Consolador e Mestre da Verdade. Abrindo-nos as portas a essa comunhão divina de amor, Jesus também nos ensina o caminho da verdadeira caridade fraterna.
Ele é, de fato, o Libertador, não no sentido político, mas no sentido pleno de nos anunciar e proporcionar a Salvação: “E Jesus dizia aos Judeus que nele creram: ‘Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará’”. E acrescenta: “Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres” (Jo 8,31-32.36).
Aqueles que o ovacionaram, às portas de Jerusalém, ainda não haviam adentrado o Mistério de sua Pessoa, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A princípio, reconheceram nele um grande taumaturgo, alguém cuja singularidade o destacava dentre os demais. Todos viam as ações de Jesus: “Ele andou por toda a parte fazendo o bem” (At 10,38). A respeito de si mesmo, Ele afirma: “Eu sempre faço aquilo que é do agrado de meu Pai” (Jo 8,29), a tal ponto que a vontade do Pai é como que um verdadeiro “alimento” (cf. Jo 4,34). Cumpri-la significava para Ele um prazer, como deveria ser, também, para nós.
O ensinamento e os atos de Jesus se complementavam. Suas palavras eram a interpretação daquilo que fazia, e os seus atos confirmavam o que falava. Podemos recordar diversos de seus discursos, sobretudo, no Evangelho de Mateus: o “Sermão da Montanha” (cf. Mt 5-7), uma espécie de conteúdo programático de todo o seu Evangelho; o “Discurso Missionário” (cf. Mt 10 e paralelos), que contém instruções sobre a evangelização; o “Discurso sobre o Reino de Deus” (cf. Mt 13), que se identifica com a própria Igreja; os “Discursos Apocalípticos” (cf. Mt 24-25), de cunho escatológico, que antecedem a narrativa do Mistério da sua Paixão. Finalmente, São Mateus conclui com o “envio às nações”, pelo qual Jesus confere à sua Igreja um perene perfil missionário universal (cf. Mt 28,19-20).
A concluir por tudo isto, não havia como não reconhecer que ali estava o Messias. Tanto é verdade, que os primeiros discípulos, quando se defrontaram com Cristo, pela primeira vez, e depois de terem ficado com Ele até à tarde daquele dia, testemunharam: “Encontramos o Messias” (Jo 1,41). Entretanto, a simplicidade da Pessoa e da mensagem de Jesus se manifestavam na sua maneira direta e concreta de ensinar as coisas, sempre com a delicadeza e a ternura, que nos atraem para Ele.
Jesus chama aqueles que o procuram “sedentos”: “Se alguém tem sede venha a mim e beba” (Jo 7,37), pois Ele pode saciar toda carência de verdade, de justiça, de amor, de tudo, enfim, que nos torna autenticamente humanos. “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13), isto é, todos os que estão humana, e até moralmente, desnorteados. Ele veio chamá-los de modo todo particular.
Jesus também se refere à nossa união com Ele como à dos ramos com a videira. O ramo separado seca e não pode produzir: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). Como neófitos, neo-nascidos, somos enxertados nesse tronco, que é Cristo, e dele haurimos toda a seiva para o nosso sustento e crescimento. Tão bela e singular videira não tem raiz fincada na terra, mas engolfada no céu, dado que Jesus foi enviado pelo Pai, no amor do Espírito, para nos transformar como plantas novas e nos levar para a eternidade feliz.
O Mistério Pascal de Cristo também nos recorda o nosso Batismo: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade” (Ef 4,22-24). Em cada irmão batizado, quer dizer, “revestido de Cristo” já não posso enxergar outro, a não ser o próprio Cristo.
Portanto, deixaremos de lado tudo o que em nós se corrompeu pelo pecado e pelas inclinações viciosas, para que resplandeça em nós a verdadeira veste da graça. “Revestir-se de Cristo” é muito mais profundo do que somente imitar-lhe a aparência. O amor divino, quando encontra a aquiescência da nossa liberdade, promove em nós uma transformação ontológica - configura o nosso próprio ser ao de nosso Senhor. É o que a Teologia chama de “divinização”.
Que nesta Semana Santa, iniciada no Domingo de Ramos, confirmemos nossa ascese quaresmal, deixando-nos “cristificar”, segundo a vontade do Pai e segundo a força do seu Espírito. O ramo, com o qual saudamos o Senhor, seja símbolo da vitória e, ao mesmo tempo, um sinal de que estamos, realmente, firmados nEle, trilhando o caminho reto da justiça, da verdade, da fraternidade e da paz.
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