VOZ
DO PASTOR
CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID
Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro
15 de Janeiro de 2008
A festa do Batismo de Jesus encerra o tempo do Natal. Sabemos que o Senhor não precisava ser batizado, uma vez que nunca poderia estar sujeito ao pecado. Assumiu, isto sim, as conseqüências das nossas faltas pelo seu sacrifício na cruz. Pôs-se na fila dos pecadores para reparar os pecados deles.
Contudo, Jesus quis ser batizado. Na infância, já se havia sujeitado ao ritual da circuncisão e, depois de adulto, foi lavado nas águas do rio Jordão, pelas mãos de São João Batista. Com o ato de ser batizado, Jesus institui propriamente o Batismo como Sacramento, suplantando a circuncisão, santificando as águas do mundo todo e apresentando-nos uma nova perspectiva da consagração a Deus.
No Batismo, Jesus confirma o seu nome – Ieshua, que é uma abreviação de “Javé salva”. Mais tarde, a Tradição vai acrescentar-lhe o título de Messias, Christós (em grego) – o Ungido. O nome de Jesus Cristo identifica-lhe o ser e a missão. Enquanto homem, Ele foi ungido pelo Espírito Santo para a missão que o Pai lhe confiou: instaurar no mundo o Reino de Deus, que é Reino de paz, de verdade e de justiça, e anunciá-lo a todos, especialmente aos pecadores, aos pobres, aos abandonados, aos tristes, aos que estavam alijados da sociedade. Os grandes valores desse Reino estão consubstanciados no Evangelho.
A consagração se realizava, normalmente, através da unção, à semelhança do que nós fazemos, ainda hoje. Assim, foi instituído o rito do Sacramento do Batismo. Jesus deixou-nos o exemplo e o mandato de concedê-lo a todos os que ouvem o seu chamado, em sinal definitivo de pertença a Ele: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Nosso Batismo também nos confere nome e missão. Tornamo-nos templos da Trindade, anunciadores do Reino, dotados da eloqüência inspirada pelo Espírito Santo, para sermos os ecos de Jesus no mundo.
O próprio Jesus – como Homem - aprendeu a falar. Como Deus, Ele vivia em diálogo perene com o Pai, no Espírito, prescindindo de qualquer palavra. Mas, como homem, Ele seguiu as etapas da balbúcie até à linguagem completa, como qualquer um de nós, ensinado por Maria e seu pai adotivo, São José. Mais tarde, Ele iria revelar-se ao mundo como o grande Messias pregador. Hoje e sempre Jesus fala conosco, embora com uma linguagem diferente. Fala-nos diretamente à consciência, nas situações de alegria e de sofrimento, fala-nos através da Igreja e de seus representantes.
O Evangelho de Lucas diz: “Ele crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Não sabemos como foi esse crescimento, mas é certo que a ciência divina foi penetrando a sua natureza humana, até à plenitude. A um certo momento, Jesus chegou a dizer: “Eu sou a verdade” (Jo 14,6). Declarou, portanto, a concretização plena de toda a sabedoria, na sua Pessoa, na qual se unem a natureza divina e a natureza humana.
Recebemos esse dom em germe, pela infusão do Espírito Santo no Batismo. E aí começa o nosso desafio de sermos sábios. Mas, freqüentemente, essa sabedoria nos falta, ou é menosprezada pelas nossas infidelidades. Quem é sábio no mundo? Hoje, sábios são considerados os pesquisadores. Evidentemente, o são. Mas o sábio no Reino de Deus é mais sábio do que um cientista na área humana, porque é de Deus que recebe tal sabedoria. Em todos os tempos da história da Igreja vemos luminosos exemplos disso, entre os mais renomados teólogos e filósofos. O próprio Papa Bento XVI é um sábio, além de santo, pensador e escritor de grandes qualidades, até beletrísticas e culturais.
Pelo Batismo, somos chamados a formar comunidade. O exemplo de Cristo, mais uma vez, nos incita a isto. Sua eterna “Comunidade” realiza-se com o Pai e o Espírito Santo, na Trindade. Depois da Encarnação, formou com Maria e José a Sagrada Família, modelo de todas as demais famílias. Mas, quando começa a sua vida pública de pregador pela Galiléia, Samaria e Judéia, escolhe Doze, que permaneceriam com Ele e seriam os continuadores de sua missão: o grupo dos Apóstolos.
Se analisarmos um por um desses Apóstolos, veremos que todos tinham defeitos, cada um mais do que o outro. Porém, também tinham qualidades. À exceção de Judas Iscariotes, todos morreram mártires em defesa da Verdade, que reconheceram em Jesus, e por amor Àquele com quem tinham convivido em comunidade, durante os três anos de sua vida pública.
Refletindo sobre os relacionamentos de Jesus, podemos aprender mais sobre a nossa própria vida em família e em comunidade. É importante acentuar esse aspecto comunitário, porque se trata de uma grave carência em nossas cidades e no mundo todo, em geral.
Se propuséssemos para o Rio de Janeiro o ideal de uma grande comunidade, teríamos que partir do interesse pelo bem comum, pois não são muitos os que lutam por isso. Teríamos que falar sobre o amor de uns pelos outros, do jeito que somos amados por Deus, revelado a nós por Jesus Cristo. Isso é uma grande graça da parte de Deus e, ao mesmo tempo, um grave questionamento ao egoísmo, arraigado em nossas pessoas.
Se falamos de comunidade, teremos que pensar no constante revigoramento de nossas Paróquias, e naqueles que se encontram afastados delas. Teremos que lembrar das comunidades de pessoas sofredoras como os hospitais e as prisões. Por mais atingidas que estejam essas pessoas, tanto física quanto psicológica e, até, moralmente, ainda devemos ter a coragem de lhes falar sobre o homem, imagem de Deus, criado no amor e para a felicidade eterna.
A nossa comunidade se estabelece quando vemos no outro a Pessoa de Deus. Aqueles que formaram uma família, ou pensam em fazê-lo, enquanto não forem, em primeiro lugar, amigos de seu cônjuge, vendo nele ou nela a primorosa imagem divina, nada poderão conseguir de perfeito e de perene na própria estabilidade no amor.
O Batismo de Jesus nos recorda tudo isso. A maravilhosa
manifestação que ocorreu naquele momento, revelando-nos a Trindade - Comunidade
Primordial - aponta para a vocação de todo ser humano a interagir com seu
semelhante. E para nós, batizados, exprime a grandiosidade da consagração que
recebemos, elevando-nos à graça sobrenatural da filiação divina. Somente assim,
podemos assumir, para nós mesmos, as palavras do Pai: “Eis meu Filho muito amado
em quem ponho minha afeição. Escutai-o!” (Mt 3,17 ; 17,5).
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