VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

12 de Fevereiro de 2008

 

CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2008


 

A Quaresma é o período consagrado a estimular a prática da caridade, da oração, do jejum e da penitência, como preparação para adentrarmos o Mistério Pascal de Cristo. A Campanha da Fraternidade orienta estes esforços para uma finalidade evangelizadora, ligada a um tema de importância premente, dentro da nossa realidade pastoral.

Trata-se da promoção dos valores evangélicos, sublinhados pelo próprio Cristo, ainda que não explicitamente, e por vezes deixados de lado, ou não acentuados como deveriam ser, em nossa sociedade. São ensinamentos sobre a fé, que depois se transpõem para a vida moral, enfim, para a vida do dia-a-dia, como, aliás, deve ser sempre a nossa fé.

A estratégia empregada para levar essa mensagem aos fiéis cristãos e, por meio destes, ao povo em geral, é a colegialidade eclesial: Pastores e rebanho, todos unidos em torno do mesmo tema. Desde o Norte até o Sul, de Leste a Oeste, em todos os quadrantes do nosso país, a Igreja Católica fala sobre a Campanha da Fraternidade, em plena harmonia de fé e vida.

O tema deste ano é a Defesa da Vida. Não é a vida, simplesmente. Mas a Defesa da Vida. Mas, defendê-la do quê ou de quem? Segundo o nosso venerado Papa João Paulo II, estamos dentro de uma falsa cultura, uma cultura de morte, que permeia a mentalidade contemporânea, contamina as instituições e, até, os relacionamentos humanos.

Em meio a essas trevas, brota a luz da vida, que nos vem diretamente de Deus, e há de conduzir de volta para Ele, na eternidade feliz. Esta é a proposta da Campanha da Fraternidade: suscitar o dinamismo vivificante da palavra e do exemplo de Jesus Cristo, dentro das ideologias e estruturas coniventes com o marasmo da omissão ou a violência contra a vida, em quaisquer de suas formas, máxime do início e do fim natural.

O próprio Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25), como a significar que nele está a definitiva oposição à morte. E Ele provou isto, sendo morto e ressuscitando, pela força do seu poder divino. A morte não tem domínio sobre o Senhor. Portanto, não pode ter domínio sobre aqueles que lhe pertencem. Por isso mesmo, entramos na Campanha da Fraternidade com o sentido positivo da vida, mas conservando, como que subjacente a todas as nossas reflexões, a norma de Deus no Antigo Testamento: “Não matarás” (Dt 5,17).

Quando haveremos de defender a vida? Aqui entram os seus estágios, desde o início, na concepção, até o termo final natural, a morte. A temática da Campanha da Fraternidade destaca a defesa da vida em cada etapa de seu desenvolvimento: contra o crime do aborto, contra o menosprezo pela promoção humana, contra a insegurança diante da violência hodierna e, finalmente, contra a eutanásia, a chamada “morte assistida” que, além de grave ofensa a Deus, é crime.

Sem dúvida alguma, o maior crime é o aborto, pois trata-se do assassinato de inocentes indefesos. E não nos venham com argumentos forjados e absurdos, afirmando que a mulher tem direito ao seu corpo. Jamais uma criança por nascer pode ser considerada “parte” do corpo da mãe, ainda que dependa vitalmente dela para se desenvolver. É bom acentuá-lo, claramente. O útero materno é o sacrário da vida de uma pessoa por nascer.

A Igreja declara-se em favor da pessoa humana, que começa a existir no momento em que o óvulo é fecundado. Isto é cientificamente provado. Jérôme Lejeune, geneticista e pediatra francês, um dos maiores cientistas e pesquisadores do nosso tempo, falecido em 1994, afirma: “Aceitar o fato de que, depois da fertilização, um novo ser humano começou a existir não é uma questão de gosto ou de opinião. A natureza humana do ser humano, desde a sua concepção até sua velhice não é uma disputa metafísica. É uma simples evidência experimental.”

Portanto, a própria lei natural exige de nós uma atitude conseqüente. Qualquer legislação que a contrarie, configura-se como atentado à vida. Aqui entra a criminalidade do aborto. Infelizmente, tenta-se defendê-lo, invocando ideologias falaciosas, com o freqüente apoio de não poucos meios de comunicação social, quando encobrem o que deveriam revelar, ou noticiam sem os devidos critérios éticos e, até, científicos.

Existe, por exemplo, uma Associação que se auto-intitula “Católicas pelo Direito de Decidir”. A incoerência de suas posturas já começa a partir da apropriação indevida do termo “Católicas” por quem defende e pleiteia o aborto. Recentemente, uma de suas representantes participou de um DVD da produtora católica Verbo Filmes, autorizada a divulgar a Campanha da Fraternidade 2008. Aproveitou-se da oportunidade para apresentar sua defesa da “cultura da morte”. Com agilidade e eficiência, a CNBB proibiu e mandou recolher o equivocado trabalho daquela produtora, pois enveredava por um caminho contrário à Moral da Igreja e à defesa da própria vida, apoiando-se em alguns interlocutores “abortistas”, absolutamente inaceitáveis.

Ainda uma vez, ressoa a pergunta: Como vamos defender a vida? Zelando pela verdade. A verdade é uma só e definitiva. Não posso buscar meios-termos para acomodar situações condenáveis como, por exemplo, a defesa do tal “aborto terapêutico”, em casos de suspeita de malformação fetal. Isto é repudiável. O que se pode admitir é somente o duplo efeito. Um exemplo é o caso da mulher que está com alguma doença incurável no útero, e é preciso extraí-lo para preservar-lhe a vida. Em conseqüência, o feto poderá vir a falecer. Não se intenta matar a criança, o quê, incidentalmente, acontece, por causa da cirurgia.

Defender a vida também é protegê-la, através do acompanhamento das gestantes, especialmente as de alto risco. Fala-se muito de planejamento familiar, atualmente. Mas quem inaugurou este termo e pode, portanto, empregá-lo corretamente é a própria Igreja Católica. Planejamento familiar, geralmente associado ao chamado “sexo seguro”, não significa o uso de preservativos para contracepção e proteção contra doenças sexualmente transmissíveis. Tampouco implica o uso de outros métodos contraceptivos artificiais, inclusive causadores de perigosos efeitos para a saúde feminina.

O planejamento familiar defendido pela Igreja supõe a paternidade e a maternidade responsáveis. Significa praticar o equilíbrio e a continência no relacionamento conjugal, para que o casal venha a gerar quantos filhos possa educar com dignidade, dentro de um ambiente familiar condizente com os princípios da Moral cristã e a possibilidade humana.

Falar sobre a vida, trabalhar por ela e defendê-la é sempre um desafio. Mas é, igualmente, gratificante. Como dizia Jérôme Lejeune: “No princípio do ser há uma mensagem, essa mensagem contém a vida e essa mensagem é uma vida humana”. E cada vida humana é um dom irrenunciável do BOM DEUS!