VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

11 de Março de 2008

 

O AMOR E O SOFRIMENTO

 

 

Numa caminhada quaresmal que, pouco a pouco, se intensifica, aproximamo-nos da Paixão do Senhor. Seu indizível sofrimento até à doação da própria vida – pois ela não lhe foi tomada, Ele mesmo a entregou – é prova do maior amor que alguém pode ter pelo outro. Amor e sofrimento encontram-se entrelaçados na obra salvífica de Jesus, assim como, também, ocorre nas vidas de todos nós.

Os capítulos 13 a 17 do Evangelho de São João relatam a despedida do Senhor. O Lava-Pés introduz uma seqüência de recomendações e palavras de consolo para os discípulos, enfim, de gestos reveladores de seu amor máximo por eles e... por todos nós: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou” (Jo 13,1).

Somos instados por Ele a repetir seus gestos: “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15), a fim de que cheguemos a compartilhar o Amor por excelência: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” (Jo 15,12). Não é possível amar como Jesus amou, nós sabemos. Mas Ele nos pede, ao menos, o ideal de tentar fazê-lo ao seu jeito.

Conhecendo nossas fraqueza e incapacidade para atingirmos isto, Ele próprio as supre, pelo dom do Espírito Santo, a fim de completar seu ensinamento e sua obra: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16,13). Da mesma forma, apresenta-nos o Pai como Aquele que vai atender os nossos pedidos, desde que sejam feitos com fé e em nome do próprio Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo dará” (Jo 16,23).

Mediador da nossa comunhão com a Trindade, o Senhor institui a Eucaristia, onde nos manifesta sua presença real, e demonstra-nos, ainda uma vez, o seu amor, através da promessa da eternidade feliz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Não fora assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar” (Jo 14,2). Eis uma das mais belas de suas promessas!

Continuando a meditar os textos de São João, encontramos a definição de que “Deus é amor”. O Evangelista repete-a por duas vezes na sua primeira Carta (cf. 1Jo 4,8.16). Ora, o amor exige correspondência. Esta é uma afirmativa tirada da experiência de nossa própria vida. Canta um hino ao Coração de Jesus: “Quem não retribuirá com amor, um amor tão gratuito e tão sublime?”. Criados à imagem desse Deus-Amor, trazemos em nós a capacidade de amar; ainda mais, trazemos a exigência do amor. Portanto, esta força inata é que nos impele a reconhecer a bondade e a beleza das criaturas. De outra forma, seríamos incapazes de admirá-las ou de nos sentirmos atraídos por elas.

O ser humano que se fecha ao amor é, verdadeiramente, digno de lástima, pois torna-se frustrado, mutilado, falho na realização daquele ideal que Deus concebeu para ele. Portanto, subsiste em nós um potencial de amor, que nos foi dado por Deus ao sermos criados. A partir deste dom, Deus quer que retribuamos o seu amor, colocando-o acima de todas as coisas, e o dediquemos também ao próximo.

Eis uma das nossas maiores dificuldades, pois o próximo varia de acordo com as circunstâncias em que nos encontramos. Além disto, ele não nos assegura o reconhecimento e a retribuição que recebemos de Deus. Entretanto, somos chamados a dedicar-lhe o mesmo amor de Cristo que, levado ao extremo, representou o derramamento do próprio sangue por todos nós, conforme sua iniciativa livre e gratuita. Assim, amar o outro apesar de suas imperfeições, talvez até mesmo por causa delas, dando a vida por ele, se necessário for, é o ato de maior heroísmo.

Um dos Cânticos da Liturgia das Horas, extraído do Apocalipse de São João, nos apresenta a figura do Cordeiro imolado, cujo sangue nos salva e no qual lavamos nossas vestes, simbolizando a purificação do pecado: “Porque fostes por nós imolado; para Deus nos remiu vosso sangue dentre todas as tribos e línguas, dentre os povos da terra e nações. O Cordeiro imolado é digno de receber honra, glória e poder, sabedoria, louvor, divindade!” (Ap 5,9.12).  

Esse ato de amor de Cristo é intraduzível. É um amor pleno, porém doloroso, mesmo para Aquele que é Deus, pois assumiu a natureza para sofrer a Paixão. E aqui entramos no mistério do sofrimento, que nos toca muito de perto. Embora Cristo tenha carregado todo o sofrimento da humanidade na sua cruz, Ele jamais seria a causa disto. Nós é que o somos.

A herança de dor e morte, que todos compartilhamos, começou com a rejeição de Deus pelo ser humano, ainda nos primórdios da criação. Dali em diante, desencadeou-se uma avalanche de conseqüências, que têm marcado nossa história, ao longo dos tempos. Tornando-se propenso ao pecado, o ser humano tem sua mente ofuscada e a vontade enfraquecida para compreender e cumprir os desígnios divinos. Enfim, está sujeito à morte. O que seria a passagem natural de um estágio transitório de vida, para a bem-aventurança eterna, torna-se uma ruptura angustiante e dolorosa, muitas vezes associada à doença.

 Elevando o olhar para Cristo, contemplamos nele o nosso mesmo sofrimento, porém assumido inocente e livremente, como cumprimento fiel da vontade do Pai e solidariedade para conosco: “Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua” (Lc 22,42).

Aquele que, sem deixar de ser divino quis ser um de nós, enfrentou o somatório das dores humanas, em toda a seqüência de torturas e humilhações que se seguiram: os falsos testemunhos e mentiras contra Ele, a injustiça de ser preterido em benefício de um malfeitor qualquer, sem ao menos um julgamento, as bofetadas e chicotadas, a coroação de espinhos e o manto, numa caricatura de veste real... Enfim, a terrível crucifixão, na qual o sofrimento físico foi mesmo superado pela avassaladora experiência das trevas espirituais causadas pelos nossos pecados.

Assim, meus caros leitores e leitoras, ao entrarmos no período do sofrimento de Cristo, estamos diante de um amor indizível: “Eis aqui uma prova brilhante do amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5,8). E haveremos de lhe dar em troca, pelo menos, um amor sincero.

Contemplando a Paixão, coloquemo-nos aos pés da cruz, invocando o sangue de Cristo “sobre nós e sobre nossos filhos” (Mt 27,25), em forma de bênçãos para nossa purificação e de nossas famílias. Que seu precioso sangue se derrame sobre nossa cidade, nosso país e todas as nações do mundo, especialmente aquelas onde a paz ainda não se realizou. Sobre aquelas que crescem como futuras potências econômicas, tais como China e Índia, que trilhem os caminhos do progresso passo a passo com o respeito à dignidade humana. Que possamos sonhar com a conversão desses povos à fé cristã, pelo extraordinário poder do amor e do sofrimento de Jesus!