VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

08 de Janeiro de 2008

 

OS SÁBIOS DO ORIENTE


 

Encontramo-nos ainda no tempo do Natal, um dos períodos mais bonitos do Ano Litúrgico, somente superado em grandeza pela Páscoa do Senhor. O Natal nos traz à lembrança eminentes figuras, dentre as quais os Sábios que vieram do Oriente, provavelmente da Pérsia. Aquela região, que hoje se chama Irã, era pouco conhecida dos povos mais ao Ocidente, porém muito desenvolvida em determinadas áreas da pesquisa e da ciência, prevalentemente.

São Mateus é o único dos quatro Evangelistas que narra a vinda desses personagens à Palestina, em busca do Messias recém-nascido. O texto sagrado os intitula “Magos”, mas o termo nada tem a ver com magia. Eles eram astrônomos, talvez astrólogos e, com certeza, pesquisadores. Dedicavam-se ao estudo dos grandes sábios de outras culturas, inclusive os Profetas de Israel e todas as “Escrituras Sagradas” de então.

Debruçando-se sobre os textos do Antigo Testamento, devem ter-se deparado com o anúncio do nascimento do Rei dos judeus, que seria acompanhado pelo aparecimento de uma estrela. O Livro dos Números, que faz parte do Pentateuco, portanto do primeiro grupo de livros inspirados, já cita essa Estrela do Salvador (cf. Nm 24,17). Miquéias volta ao tema, na célebre profecia que indica Belém como o lugar daquele acontecimento: “Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que sairá para mim Aquele que é chamado a governar Israel” (Mq 5,1).

Imaginemos esses três Sábios, deixando para trás seus reinos e suas riquezas, e pondo-se a caminho, desde a Pérsia até à Judéia. Tinham uma só motivação: a esperança de encontrar o novo Rei dos judeus, que acabara de nascer. Não sabiam quem e como era, nem onde se encontrava, mas decidiram enfrentar a incerteza, os perigos e toda a sorte de dificuldades da viagem, para realizar essa descoberta. Eram impelidos pela esperança.

Chegando a Jerusalém, foram ao palácio de Herodes, pois eram sábios e dignatários entre seu povo. Foi o pior destino que poderiam procurar, pois Herodes não se interessava pelas profecias, mas somente pelo poder. Assim, tramou enviá-los a Belém para que lhe servissem de informantes sobre o Messias, tencionando, desde logo, matá-lo.

O Evangelho de São Mateus narra: “Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o Menino e ali parou. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria. Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, sua Mãe. Prostrando-se diante dele o adoraram” (Mt 2,9-11b).

Notem bem que o texto fala de casa, não de gruta ou de estrebaria. Isto porque, calculam os exegetas, já se teria passado mais de um ano, talvez até dois, após o nascimento. E José teria construído uma casinha acolhedora para o Menino e sua Mãe. Os Sábios entraram ali em atitude de fé, pois somente assim poderiam reconhecer naquela pequena Criança o Rei tão procurado.

Abriram seus cofres e ofereceram-lhe o que tinham de melhor. Eram produtos de valor e, sobretudo, de significado profético, relacionado à futura missão de Jesus. Primeiramente, ouro, homenageando-o como o verdadeiro “Rei dos Judeus”. Jesus iria novamente receber esse título, inscrito na própria cruz, por ordem de Pilatos. Deram-lhe, também, incenso, em reconhecimento à origem e natureza divina do Menino. O terceiro presente – mirra - foi igualmente precioso, embora triste. Relaciona-se ao sofrimento que o Senhor assumiria por todos nós, na solidariedade com os demais sofredores, a cujas penas deu sentido redentor.

Os Sábios do Oriente perfizeram um longo caminho para descobrir o Menino Deus mas, afinal, foram eles próprios que se descobriram transformados por Ele. A visão que traziam consigo sobre aquele Rei aprofundou-se e ampliou-se, depois do oferecimento das próprias oblações, levando-os à compreensão de que Rei se tratava. Não era um soberano qualquer. Afinal, eles não voltaram pelo mesmo caminho, evitando a Capital, Jerusalém, para não encontrarem Herodes. Mas a mudança de rumo também significa a conversão interior. Depois de um autêntico encontro com Jesus a pessoa nunca mais será a mesma, nem continuará a trilhar os antigos caminhos, não iluminados tão fortemente pela Luz eterna.

 Esta mudança de rumo exige de nós a fé. Os chamados “tempos fortes” do Ano Litúrgico (Quaresma e Páscoa, Advento e Natal), foram instituídos pela Igreja, justamente para nos afervorar na vivência daquilo que cremos. A nossa fé é racional. Nunca vai contra a razão mas, pelo contrário a pressupõe e, até, ultrapassa. Portanto, exige busca, estudo e aprofundamento das ciências sagradas. A fé também precisa ser corajosa, para aceitar o grave desafio de nos deixarmos transformar pela graça divina. E deve ser dinâmica, para nos impulsionar na vida espiritual. Em todas estas etapas, brilha para nós o exemplo dos Sábios do Oriente.

A verdadeira fé é livre, pois não se atém às evidências, que obrigam o nosso intelecto à sua aceitação. Em outras palavras, ninguém pode negar o que é evidente, pois prova-se por si mesmo. A fé, porém, exige uma escolha, como afirmação da liberdade pessoal de cada um de nós. Por isso é obscura (ainda que certíssima) e meritória.

Contemplando o Crucificado, vemos Alguém completamente desfigurado. Entretanto, sua imagem nos atrai. Nela encontramos, em determinados momentos da vida, a única resposta possível para as nossas indagações e problemas. Quando minha mãe faleceu, olhei muito para o crucifixo, meditando: “Não entendo, mas aceito”.

Quando vamos a um cemitério, ficamos impressionados pelo silêncio. Parece uma cidade do silêncio, fria e desabitada. Porém, ao mesmo tempo, a fé nos indica que a trave vertical da cruz aponta sempre para o eterno, o divino, o transcendente. Portanto, cremos na vida eterna, da qual já participam os falecidos.

Minha mensagem final vai para os peregrinos da vida - aqueles que não se estabelecem nas comodidades asseguradas, nos espaços conquistados, e que não fazem dos critérios subjetivos suas certezas definitivas. A todos os que trilham os caminhos em busca da única e definitiva Verdade, desejo que se unam aos Sábios do Oriente nessa viagem e que tenham a guiá-los a luz da fé, como um dia resplandeceu a estrela nos céus do desconhecido e de Belém.