VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

05 de Fevereiro de 2008

 

DEUS, "LIVRO ABERTO"


 

Esta semana, vou responder a uma questão, que me foi colocada com muita pertinência e seriedade, através de um telefonema por ocasião do Natal: “Por que Deus é ‘Livro fechado’?” A breve resposta que dei ao meu interlocutor, reproduzo-a aqui, com mais detalhes.

O primeiro argumento é de cunho filosófico: o finito não pode conter o Infinito. Deus, enquanto Mistério, é uma realidade tão alta e tão sublime, que nossa inteligência, evidentemente, não a abarca. Entretanto, Deus não é “livro fechado” pois, por sua livre e gratuita iniciativa, descerra o véu do que poderia representar, para nós, seu inacessível Mistério. Ele se re+vela, permitindo-nos comungar desse Mistério.

A princípio, Deus se deixa entrever no próprio mundo criado. É sua revelação primigênia, que chamamos de “Revelação natural”. Como Criador, Ele se manifesta nas criaturas: nos seres vivos, racionais e irracionais, e até no mundo inanimado. Desde o microcosmo até os espaços siderais, tudo nos fala de sua Beleza, de sua Sabedoria e de sua Bondade. Isto se encontra maravilhosamente apontado no livro da Sabedoria (cf. Sb 13) e na Carta aos Romanos (cf. Rm 1,18ss).

Deus também se manifesta em nossa consciência. Sua voz se faz ouvir lá dentro da nossa interioridade, onde Ele se comunica diretamente conosco. Santo Agostinho dizia que Deus está mais íntimo a nós do que nossa própria intimidade.

Aqui, logo cabe uma objeção. Diante da maravilhosa obra divina, na qual o próprio Autor “viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31), como explicar tantas contradições, como encarar o problema do mal, da morte e do sofrimento? Toda a desordem que assola o mundo foi introduzida pelo próprio ser humano. Para compreender isto, temos que consultar a história dos primórdios da raça humana, marcada pelo pecado das origens (cf. Gn 3). Mas tal tema terá que ser aprofundado em outra oportunidade. 

Percebe-se a necessidade de complementar a argumentação filosófica, aclarando-a pela Tradição e a Sagrada Escritura. Deus interveio, freqüentemente, na história humana. Falou aos homens pelos seus enviados e, nos últimos tempos, falou-nos pelo próprio Filho (cf. Hb 1,1). Dessas palavras e ações divinas ficou a memória oral que, de comunidade em comunidade, foi sendo transmitida. Ela constitui a base dos textos escritos, que vieram a formar a Bíblia, com os 73 livros do Antigo e do Novo Testamento. Através de seus diversos estilos e vocabulário, o grande Livro da nossa fé testemunha a amorosa busca do homem por Deus e registra os critérios segundo os quais Ele propôs Aliança com a humanidade.

­­­­­­­­­­­­­­­­­­Complementando a Tradição e a Sagrada Escritura, Deus nos concede uma terceira instância, como garantia da autenticidade da sua Revelação e firme guardiã do depósito da fé: o Magistério eclesial. A partir dele, compõe-se a história do Novo Israel, a Igreja fundada por Cristo. Ela segue adiante, sob a assistência do Espírito Santo, e conta com o representante visível do próprio Jesus Cristo, aqui na terra, o Santo Padre, o Papa.

O Magistério orienta a Igreja pelo ensinamento que chamamos de “ordinário”. Os bispos do mundo inteiro, em união com o Papa, gozam da infalibilidade, quando ensinam, em harmonia, as verdades da fé. O Magistério “extraordinário” é exercido nas circunstâncias em que o Papa usa do seu carisma de infalibilidade pessoal, garantido por Deus, para ensinar sobre matéria de fé e de moral. Em tais ocasiões, ele se pronuncia em nome de toda a Igreja, ex-cathedra, isto é, da cátedra do seu próprio Ministério primacial.

Não esqueçamos que Deus também se manifesta no sensus fidelium, o senso dos fiéis, quando existe unanimidade entre todos sobre determinadas verdades de fé ou formas de praticá-la, nas devoções populares e manifestações da tradição comunitária. Por isso, São Paulo diz: “Há diversidade de dons, mas um só Espírito. Os ministérios são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (1Cor 12,4-7).

Deus também se revela na Liturgia, pela qual celebramos a Trindade Santa: Jesus, Palavra e Sabedoria do Pai, veio nos revelar seu Mistério, e ambos nos enviaram o Espírito Santo, Presença perene do Senhor entre nós. Essa Presença ocorre de variadas formas, porém mais visivelmente nos Sacramentos, como ações santificadoras de nossa vida, nossos relacionamentos, nossos ministérios e nossa prática da fé.

Nas celebrações litúrgicas, também louvamos e agradecemos a Deus, e participamos diretamente do seu Mistério e da sua vida, especialmente, através da Eucaristia. Daí a importância da participação na Missa, no Ofício Divino, na Celebração da Palavra, enfim, nas próprias reuniões da Igreja.

Existe, ainda, uma forma íntima de Deus se manifestar a cada pessoa. Evidentemente, tem um cunho subjetivo mas, nem por isso, deixa de ser  uma revelação profunda e transformante: é a chamada “mística”. Representa o auge da oração e impulsiona, decisivamente, o avanço no caminho da perfeição. Esta comunhão interior com Deus é um dom, que Ele próprio concede a quem lhe apraz, estabelecendo com essas almas escolhidas uma comunicação, cuja linguagem não pode ser facilmente interpretada pelos “de fora”. A tradição carmelitana nos legou grandes Doutores da Mística, como São João de Cruz, Santa Teresa d’Ávila e a própria Santa Teresinha, cujos escritos contêm ressonâncias místicas em muitos trechos.

Hoje fala-se muito de “experiência de Deus”, embora o termo seja um tanto discutível, pois Deus é o Transcendente. Melhor é reconhecermos que, mesmo sem êxtases místicos, todos participamos da vida divina por Cristo, que se fez um de nós, para nos conduzir a Deus, no Espírito Santo. Somos chamados a participar desse Mistério trinitário no qual, pela fé, podemos nos engolfar prazerosamente.  É algo muito sublime e uma graça – como todas – imerecida e que pede nossa resposta.

Ao meu caro interlocutor, se porventura estiver lendo este artigo, e a todos os demais leitores, reafirmo que Deus não é “Livro fechado”. Podemos, e devemos, alimentar-nos das Sagradas Escrituras, aprofundá-las, para matarmos a fome e a sede de conhecer melhor a Deus.

Mas que o façamos na contemplação de Cristo, pela graça do Espírito Santo, como canta o livro do Apocalipse, em louvor ao Cordeiro: “Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste imolado e resgataste para Deus, ao preço do teu sangue, homens de toda tribo, língua, povo e raça” (Ap 5,9).