VOZ DO PASTOR

CARDEAL D. EUSÉBIO OSCAR SCHEID

 Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro

01 de Janeiro de 2008

 

PERSPECTIVAS PARA 2008


 

Neste começo de 2008, desejo abordar algumas das perspectivas que nos aguardam para o novo ano, esperando que se realizem da melhor maneira possível. Por parte da própria Igreja Católica, em especial na América Latina e no Caribe, alimentamos grandes expectativas quanto à Evangelização Continental. Cumprindo o intento e a exortação do Papa Bento XVI, buscaremos atuar, quanto possível, os grandes ideais do Documento de Aparecida (texto final da Conferência de Aparecida, maio de 2007).

Para isso, é fundamental uma cuidadosa atenção às Pastorais. Aqui no Rio de Janeiro temos mais de 30 tipos de Pastorais, todas elas de grande importância. Destaco a grande Pastoral da Caridade Social, cujos ideais devem permear todo o trabalho da Igreja, não apenas neste ano, mas permanentemente.

Um dos grandes acontecimentos para a Igreja Católica, em 2008, será o “Ano Paulino”, que terá início no dia 29 de junho próximo, Solenidade de São Pedro e São Paulo. Foi instituído pelo Papa Bento XVI, em comemoração ao bimilésimo aniversário de nascimento do grande “Apóstolo dos Gentios”. Segundo os exegetas, São Paulo teria nascido entre os anos 5 a 8 da era cristã. Embora não se possa fazer coincidir exatamente a data, o importante é lembrarmos a figura daquele que foi o maior evangelizador, depois de Jesus Cristo, e um dos melhores teólogos do Novo Testamento. Introdutor do estilo epistolar nos textos revelados, suas Cartas são praticamente reflexões teológicas, dedicadas às comunidades que fundou e que pôde assistir.

Inspirado nesta temática, teremos o tradicional Curso para os Bispos que, anualmente, se realiza em nossa Arquidiocese. Já contamos com mais de 100 representantes do Episcopado Brasileiro. Estaremos reunidos, na última semana do mês de janeiro, para estudo, reflexão e partilha sobre São Paulo, o grande Apóstolo e modelo de Bispo e Missionário.

Para a Igreja no Brasil, a Quaresma será marcada pela forte temática da Campanha da Fraternidade 2008: “Fraternidade e Defesa da Vida”. A vida é o mais precioso dom de Deus e, por isso mesmo, deve ser preservada e defendida, desde a concepção até o seu termo natural. Em todas as suas fases, não poderiam faltar a qualidade necessária à sua conservação, nem a dignidade própria do ser humano. A 46ª Assembléia Geral da CNBB, em abril próximo, certamente vai abordar este problema.

Repito o apelo que já fiz, em diversas outras ocasiões, aos senhores legisladores, aos nossos governantes e aos formadores de opinião na mídia: jamais tomem qualquer posição que seja contrária à vida, nas suas diversas etapas, pois isto será sempre um ato de violência. Mesmo que não se atente diretamente contra a vida, pode-se ameaçá-la pela omissão diante dos abusos ou pela aprovação de práticas condenáveis, como o aborto e a eutanásia.

Aqui entra o problema da assistência aos enfermos. Não se pode falar de vida, sem abordar esse problema. A Arquidiocese do Rio de Janeiro mantém um grande número de obras de caráter assistencial aos enfermos, geralmente sob os cuidados de Congregações religiosas, inclusive em convênio com órgãos governamentais.

Somente para destacar um outro aspecto de nossas iniciativas nessa área, lembro o Encontro interreligioso que foi promovido, no Santuário do Cristo Redentor, dia 1º de dezembro passado. Estiveram presentes representantes da Igreja Católica, de outros credos religiosos e de órgãos do governo, exatamente para somar esforços, no sentido de combater e superar essa quase epidemia mundial da Aids.

Ao falarmos de “ano novo”, deveríamos falar de “ano renovado”. Em que se há de renovar o nosso mundo? Em primeiro lugar, na família. Hoje há uma destrutiva tendência a se desvalorizar a família, ou a descaracterizá-la de seu modelo autêntico, o único desejado e ensinado por Deus, na sua palavra revelada. A família é um lugar central da história, e também da própria fé. Por isso, o Papa João Paulo II dizia: “Pela família passa o futuro da humanidade e o próprio futuro da Igreja”.

Outra dimensão de nosso mundo a ser renovada é o interesse pelo bem comum. O bem comum deve ser a base da política. Em outras palavras, a política é a arte e o dever do bem comum. Precisamos desenvolver o senso do bem comum e da cidadania em nosso povo, a partir do respeito às simples normas da convivência social, até chegarmos às posturas éticas e morais de justiça e honestidade, que devem nortear nossas mais profundas opções.

Dentre as perspectivas de renovação para 2008, não poderia faltar a Comunicação Social. Sobre isso, reporto-me a documentos oficiais do Magistério da Igreja e ao próprio ensino da Doutrina Social da Igreja. A mídia, em primeiro lugar, deve ser objetiva, sem jamais ceder a interesses particulares, em função de maiores índices de audiência e, conseqüentemente, de aumento de lucros. Não basta informar, é preciso formar. Apelo aos grandes responsáveis pela mídia, que atentem ao problema, diante do qual têm enorme responsabilidade. Sua atuação atinge um número quase incalculável de pessoas e contribui para a formação de consciências e de comportamentos, implicando em questões éticas e sociais.

O novo ano nos desafia a vivermos a vida nova que Cristo veio trazer, com seus ideais de verdade, justiça e fraternidade. Mas Cristo nos chama a praticar tudo isso na alegria. Basta de tristeza! Aliás, permitam-me lembrar a vocês cariocas, e a todos os brasileiros: somos um povo alegre. O próprio Hino Nacional expressa esta nossa característica. “Deitado eternamente em berço esplêndido” não é sinônimo de apatia. Pelo contrário, significa a força das nossas origens, suscitando-nos a agir, construindo nossa história e nossa cultura na paz e na fraternidade. Busquemos eliminar tudo o que possa conspirar contra estes ideais, para que venha a nós o Reino de Cristo: Reino de vida plena e bela, digna de ser vivida.

Estas são algumas das nossas perspectivas para o ano que começa. Tenhamos fé na realização de nossos planos e tenhamos amor por todos. Acima de tudo, confiemos ao Autor e Provedor de toda boa obra os nossos projetos, pois nEle tudo deve começar e encontrar o seu arremate perfeito. Este é o 2008 que desejo a todos, irmãos e irmãs em Cristo.