Aula 1057

Meus amigos, o amor aos pobres é incompatível com o amor imoderado às riquezas ou o uso egoísta deles.

 

2447               As obras de misericórdia são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo nas suas necessidades corporais e espirituais. Instruir, aconselhar, consolar , confortar são obras de misericórdia espiritual, como também perdoar e suportar com paci6ncia. As obras de misericórdia corporal consistem sobretudo em dar de comer a quem tem fome, dar moradia aos desabrigados, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes e prisioneiros, sepultar os mortos. Dentre esses gestos de misericórdia, a esmola dada aos pobres é um dos principais testemunhos da caridade fraterna: é também uma prática de justiça que agrada a Deus.

 

Quem tiver duas túnicas, reparta-as com aquele que não tem, e quem tiver o que comer, faça o mesmo (Lc 3, 11 ). Daí o que tendes em esmola e tudo ficará puro para vós (Lc 11, 41). Se um irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e Ihes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós Ihes disser: “lde em paz, aquecei-vos e saciai-vos", e não lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito haverá nisso? (Tg 2, 15-16).

 

Comentário:

“Descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor (Mt 25, 31-46) é algo que desafia todos os cristãos a uma profunda conversão pessoal e eclesial."

(Santo Domingo, 178)

 

São Gregório Nazienzeno no século IV escreveu um discurso sobre o amor aos pobres que continua atual:

 

“Irmãos e companheiros de pobreza - (pois somos todos pobres, os que necessitamos da divina graça, ainda se, mensurados por pequenas medidas, possamos parecer mais ricos uns que os outros) - recebei este discurso sobre o amor à pobreza. Recebei-o não pobremente mas ambiciosamente, a fim de conseguirdes a riqueza do reino dos céus. E orai comigo para que minha palavra vos possa alimentar ricamente, repartindo entre vós o pão espiritual, fazendo-vos chover alimento do céu, como Moisés, e nutrindo com alguns poucos pães milhares de pessoas, como o fez Jesus, o verdadeiro Pão, o Autor da verdadeira vida.

 

Bela coisa são a fé, a esperança e a caridade, as 'três' de que fala o Apóstolo. Como é bela a fé veja-se em Abraão, justificado por ela. Como é bela a esperança veja-se no exemplo de Henoque, o primeiro a invocar o nome do Senhor, e depois na multidão dos justos que sofreram por causa da mesma esperança. Quão bela seja a caridade, atesta-o Paulo, pronto para padecer até gravemente por causa de sua caridade pelo povo de Israel;

atesta-o sobretudo o próprio Deus, cujo nome é Caridade!

 

Se conforme Paulo e o próprio Cristo, devemos considerar a caridade o primeiro e o maior dos mandamentos, síntese da Lei e dos profetas, acho eu que a parte principal da caridade é o amor aos pobres, a misericórdia compassiva para com nossos semelhantes. Não há culto melhor que se possa prestar a Deus, pois ele tem predileção pela misericórdia e pela verdade, prefere a misericórdia ao julgamento. Ele, que mede com justiça e põe a misericórdia em sua balança, não quer que se pague de outra forma a benignidade, senão com benignidade.

 

Assim, a todos os pobres devemos abrir o coração, a todos os que padecem calamidade, seja por que for, pois devemos alegrar-nos com os que se alegram e entristecer-nos com os tristes. Sendo homens, devemos pagar o tributo da bondade aos homens, seja qual for a causa pela qual estiverem padecendo necessidade: por orfandade, desterro, crueldade alheia, temeridade dos senhores, inclemência dos patrões, ferocidade de bandidos, insaciabilidade de ladrões, confiscação ou naufrágio: todos são igualmente miseráveis e olham para nossas mãos da mesma forma como olhamos para as de Deus quando precisamos de algo.

 

Tu, robusto, ajuda o enfermo; tu, rico, ajuda o necessitado; Tu, que não caíste, ajuda ao que caiu e está atribulado; tu, que estás animado, ajuda ao desalentado; tu, que gozas de prosperidade, ao que sofre na adversidade. Dá graças a Deus por seres um dos que podem fazer o benefício e não um dos que necessitam recebê-Io; agradece por não teres que olhar as mãos alheias como outros olham para as tuas. Não sejas rico apenas por tua opulência, mas por tua piedade, não só pelo ouro mas pela virtude ( e até, somente pela virtude!). Faze-te estimar pelo teu próximo sendo melhor que ele, faze-te um deus para o infeliz, imitando a misericórdia de Deus.

 

O Senhor de todas as coisas quer mais a misericórdia do que o sacrifício, mais que milhares de cordeiros, as entranhas de compaixão. Demos-Iha por meio dos pobres e dos que jazem prostrados, a fim de que, ao sairmos deste mundo, nos recebam eles nos eternos tabernáculos, no mesmo Cristo Senhor nosso, a quem seja dada a glória pelos séculos. Amém.”

(Antologia dos Santos Padres)

 

Resumo:

 

2462               A esmola dada aos pobres é um testemunho de caridade fraterna: é também uma prática de justiça que agrada a Deus.

(Catecismo da Igreja Católica)

 

Para refletir:

1)        “Ao aproximar-nos do pobre para acompanhá-Io e servi-Io, fazemos o que Cristo nos ensinou, quando se fez irmão nosso, pobre como nós. Por isso o serviço dos pobres é medida privilegiada, embora não exclusiva, de nosso seguimento de Cristo. O melhor serviço do irmãos é a evangelização que o dispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta das injustiças e o promove integralmente” (Puebla, 1145).

 

O amigo ouvinte participa de algum trabalho de evangelização? Não deixe de fazê-Io. A Igreja convoca todos os batizados.

 

2)        Será proveitosa a leitura meditada de Mateus 25, 31-46.

 

As obras de misericórdia são um dom de Deus e urna tarefa do cristão, um fruto que se espera dele e um merecimento que lhe será dado.

 

Oração:

Senhor,

que aos famintos saciais de bens celestes,

lembrai-vos de Vossa misericórdia

e concedei à nossa pobreza

tornar-se rica de vossos dons.

Por Nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho

na unidade do Espírito Santo. Amém.

(Oração da Quarta- feira da IV semana do Tempo Comum)